Os melhores corredores de longa distância do mundo são africanos. Quenianos, etíopes, tanzanianos, ugandeses e outros gentílicos do continente ganham tudo, das provas da “major league” às de mercados periféricos como o Brasil.
Até aí, morreu neves. O que talvez você jamais tenha considerado é a existência de uma marca de performance africana a tirar partido dessa forja formidável de campeões.
E, sim, o Quênia desde 2017 a tem, e em abril ela chega ao Brasil. A Enda (algo como “Bora”, em suaíli) lançou como seu primeiro tênis de corrida o Iten, nome da cidade montanhosa de onde saem os principais campeões do país.
Depois vieram um modelo para treinos longos, o Lapatet, e outro para trilha, além de “casual wear”. Com alguma boa –ou má– vontade, é possível ver na ponta de flecha do logotipo a ideia de movimento também presente no da Nike.
O “storytelling” corporativo é bonito. O Quênia não é um paraíso do empreendedorismo, ainda mais para mulheres. E foi uma mulher, Navalayo Osembo, queniana formada na London School of Economics, que criou a Enda, com vontade de nacionalizar todas as etapas de produção e torná-la carbono zero.
Osembo sonhava grandiosamente, ambicionava tornar a marca uma das três maiores do mundo no segmento, mas há dois anos acabou por vendê-la para o ganês Nana Baffour. Ela hoje comanda a On no continente.
Com Baffour o Brasil entra na história. Ele tem marcas e empresas aqui, como a NVH Studios, detentora das grifes Zeferino e Twins for Peace. É também cofundador e “chair” da Qintess, consultoria transnacional de inovação digital. Em 2023, enfrentou uma greve de seus 2.600 funcionários no Brasil.
Baffour costuma divulgar a investidores e “stakeholders” um dado da ONU (Organização das Nações Unidas), o de que a África terá um quarto de toda a população mundial já em 2050, e a mais jovem de todos os continentes, maná para qualquer detentor de meios de produção.
Cabeças brasileiras agora passam a pensar a internacionalização (e maior africanização) da Enda. Há espaço para crescer onde a marca já opera, como Quênia, Nigéria e Estados Unidos, e em mercados virgens, como Angola.
Baffour chamou o treinador e “influencer” paulistano Ademir Paulino para ser o responsável pelas ações no Brasil. Mais do que “embaixador”, como Ademir foi da Olympikus até dezembro, ele atuará no desenvolvimento de produtos e na criação de uma “comunidade em torno da marca”.
Isso significa formar grupos de divulgadores e corredores, fazer curadoria de atletas e escolher provas para patrocinar. “O Nana fala em criar uma maratona em Angola, país que tem muita gente correndo”, afirma Ademir.
Ademir diz que a qualidade dos tênis “é boa”, sugerindo que há campo para melhorias. Ele faz viagens constantes ao Quênia e à Etiópia, levando amadores brasileiros para imersões em “camps” de treinamento desses países. E o que ele já viu nos pés dos africanos é de certa forma uma metáfora do próprio sistema capitalista, desigual e torto a jamais deixar de se perpetuar.
“As principais marcas do mundo, Nike e Adidas, por exemplo, desenvolvem seus protótipos com os corredores de lá, que ficam cheios de modelos para correr, mas há uma quantidade enorme de quenianos que não têm um único par, precisam pegar emprestado.”
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Autor: Folha






