sábado, dezembro 27, 2025

Rota do vinho no RS ganhou destaque pós-enchentes – 13/12/2025 – Painel S.A.

Os rótulos brasileiros têm conquistado cada vez mais os apreciadores e conhecedores de vinhos, com restaurantes da alta gastronomia já apostando nos produtos nacionais como destaque em suas cartas de vinhos, algo impensável há alguns anos.

Segundo Renê Tonello, presidente da Cooperativa Vinícola Aurora, de Bento Gonçalves (RS), essa popularização é resultado, em grande parte, do trabalho dos viticultores e do governo do Rio Grande do Sul de promover as vinícolas do estado como estratégia de recuperação após as enchentes que devastaram a região no ano passado.

O empresário, porém, vê com preocupação os efeitos que um acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul pode ter sobre esse avanço. A expectativa é que os vinhos europeus, que são tão apreciados no mundo inteiro, se tornem mais acessíveis no Brasil com o pacto.

Por que o vinho nacional tem ganhado mais visibilidade?
Nossa região toda tem sido bem premiada com vinhos e espumantes e temos um trabalho significativo sendo feito, setorialmente, para a conscientização do povo brasileiro de que o Brasil também produz vinhos de qualidade. Principalmente depois das enchentes, o governo estadual investiu muito forte no marketing do turismo no estado, evidenciando a Serra Gaúcha.

Isso está atraindo muitos turistas para as vinícolas, inclusive da América do Sul, como Paraguai e mesmo Argentina, um país que é maduro na produção de vinhos. Não é raro nós encontramos ônibus de excursão de argentinos vindo visitar as vinícolas da Aurora. Isso faz parte dessa estratégia de investimento para atrair turistas.

Foi um efeito colateral positivo das enchentes?
Com certeza sim. Eu tenho uma visão de que é na crise que a gente cresce. O ano passado teve esse evento e ele foi muito triste para a região. Mas deixou lições também. O governo estadual foi muito feliz nessa questão de divulgar mais os produtos do estado, de promover o vinho e de investir o dinheiro do governo desde a capacitação no campo até em laboratórios de qualidade. E, com isso, Bento Gonçalves ganhou muita visibilidade com o turismo.

O acordo entre Mercosul e União Europeia pode atrapalhar esse trabalho de maior popularização do vinho brasileiro?
Sim, pode atrapalhar se não houver equilíbrio. Com vinhos europeus mais baratos, a concorrência aumenta e o produto nacional pode perder espaço. Por isso o cooperativismo é ainda mais importante neste momento, para trazer escala, além de valorização do produtor e do território.

Mesmo com o avanço do vinho nacional, a Aurora tem apostado cada vez mais nas bebidas sem álcool. Neste ano, a empresa entrou no novato mercado de vinhos desalcoolizados. Por quê?
O que nos motivou foi uma pesquisa de mercado. O mundo inteiro diminuiu o consumo de bebida alcoólica. Essa já é uma tendência global. A linha de vinho desalcoolizado veio para atender pessoas que querem diminuir o consumo ou não possam beber por alguma questão, seja por ser o motorista da vez ou pela religião. A Aurora pensou em aprimorar esses produtos não alcoólicos com os desalcoolizados, que são diferentes do zero álcool.

Diferentes como?
O vinho desalcoolizado passa por todo o processo natural da fermentação, atingindo a graduação alcoólica de um vinho normal, e depois se retira o álcool.

Isso deixa o sabor mais parecido com o do vinho?
Exato. Claro que o processo sempre pode ser melhorado. Estamos em busca dessa melhoria da qualidade e inclusive com outros projetos em vista.

Quais?
Estamos lançando, em janeiro, o nosso primeiro espumante desalcoolizado. Vai ser a grande novidade do mercado, em um momento em que as pessoas acabam tendo um excesso de consumo de fim de ano e há uma tendência mundial que é o “Dry January” [ou Janeiro sem Álcool]. É um movimento transgeracional. Porque muita gente sente culpa [pelo excesso de consumo nessa época do ano], então escolhe o mês para não beber nada alcoólico.

O lançamento, então, é uma resposta à queda do consumo no início do ano?
Sim. O movimento sazonal da Aurora nos últimos três meses do ano representa praticamente de 25% a 30% de todo o faturamento anual da empresa.

Qual a participação das bebidas sem álcool na receita da Aurora?
Em torno de 60% são sucos, desalcoolizados e zero álcool.

Qual a expectativa de faturamento para este ano?
Em torno de R$ 870 milhões [alta de 3,4% em relação ao ano passado, quando faturou R$ 841 milhões].

Este ano a Aurora expandiu suas exportações em 17%, com a China sendo o principal destino. Em quais outros países vocês estão de olho?
Uma curiosidade são as exportações para Gana, nosso maior importador de suco de uva. E nós queremos expandir muito na África, porque é um continente do futuro, que tem grandes populações e a produção está passando do meio rural para o meio industrial. Acredito que é um continente que vai fazer diferença na próxima década.


RAIO-X

Renê Tonello, 63
1962, Bento Gonçalves (RS)

Viticultor, deu continuidade ao legado do avô, que era sócio da Aurora desde a década de 1930. É presidente do conselho de administração da cooperativa desde outubro de 2020 e está em seu terceiro mandato como presidente da vinícola.

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