Vivemos condicionados a dar respostas rápidas e seguras, como se admitir ignorância fosse fraqueza. Mas não saber é humano.
Reconhecer limites não diminui você nem a sua inteligência. Pelo contrário: abre espaço para exercitar a curiosidade, ouvir os outros, mostrar vulnerabilidade e criar conexões mais verdadeiras. Mas por que é tão difícil fazer isso com convicção e sem medo de passar vergonha?
Síndrome de ChatGPT
Grande parte da dificuldade em dizer “eu não sei” vem do medo de parecer ignorante em uma cultura que valoriza as certezas mais do que as perguntas. Quando somos crianças, questionar é sinônimo de curiosidade e caminho para o aprendizado. Já na vida adulta, perguntar pode ser, em algumas situações, interpretado como falha, falta de conhecimento e até burrice.
Essa lógica se intensificou com a chegada da inteligência artificial. Ao nos acostumarmos com respostas tão rápidas, acabamos levando essa expectativa para os outros e para nós mesmos, como se todo mundo tivesse a obrigação de saber tudo, o tempo todo. O resultado? Muitas vezes oferecemos respostas plausíveis, mas equivocadas, alimentando a crise de confiança em que vivemos. No entanto, até o ChatGPT seria melhor se dissesse “eu não sei” de vez em quando.
Outro obstáculo é que nem sempre percebemos nossa própria ignorância. Pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, chamaram isso de “ilusão de profundidade explicativa”: a tendência de acreditar que entendemos muito bem um conceito até tentarmos descrevê-lo em detalhes —e descobrirmos os buracos no nosso conhecimento.
Diferentes espaços
Admitir não saber algo é ainda mais difícil em contextos nos quais queremos causar uma boa impressão, ou em espaços que despertam algum nível de insegurança. É o caso do ambiente de trabalho, onde essa pequena frase ganha novas camadas de complexidade: às vezes, fingir conhecimento sobre algo parece a escolha mais segura, já que admitir que não sabe pode significar perder uma oportunidade ou até um cliente. Mas nem sempre esse blefe tem o efeito desejado.
Para quem ocupa algum cargo de liderança, também existe o medo de perder autoridade. Mas, muitas vezes, a postura verdadeiramente sagaz é reconhecer que não tem respostas. Afinal de contas, em um ambiente criativo e colaborativo, o que realmente importa é ter coragem para lidar com incertezas e inteligência para abrir espaço ao pensamento coletivo.
Chuva de opiniões
Outra questão relevante no contexto atual é a confusão entre “opinar” e “dominar um assunto”. Assumir que uma ideia é apenas uma perspectiva, e não uma certeza absoluta, pode fazer mais por nós e pela nossa reputação do que responder qualquer bobagem de bate-pronto. Antes mesmo de se posicionar, vale refletir: será que preciso mesmo emitir uma opinião sobre isso? Nas redes sociais, esse questionamento é ainda mais importante, uma vez que um ponto de vista apresentado como verdade pode alimentar a desinformação e intensificar a polarização.
Fazer as pazes com o “eu não sei” também pode ser libertador do ponto de vista da saúde mental. A pressão de parecer competente o tempo todo alimenta a ansiedade e, em muitos casos, a síndrome do impostor —aquela sensação de não estar à altura, mesmo diante de conquistas reais. Reconhecer as limitações ajuda a desmontar essa armadilha.
Sem passar vergonha
Vale reforçar, no entanto, que dizer essas três palavras não significa valorizar a ignorância. Buscar conhecimento, ter curiosidade e saber um pouco sobre diferentes assuntos nos torna menos alienados e mais conectados com o mundo. Mas também é essencial reconhecer os limites.
Mesmo nos temas em que você é referência, não há problema em usar a sinceridade quando falta uma resposta. Isso não precisa soar como desinteresse ou falta de preparo. Pelo contrário: há muitas formas de transformar essa situação em uma abertura para evoluir. Que tal dizer “não sei ainda, mas vou procurar saber”, ou então “vou checar e confirmar mais tarde”? Talvez a maturidade seja justamente isso: trocar a necessidade de parecer certo pela coragem de continuar aprendendo.
Autor: Folha




















