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Por que anda tão difícil escutar o que outro diz? – 18/12/2025 – Equilíbrio

Entre notificações incessantes, feeds infinitos e a cabeça tentando dar conta de várias tarefas simultâneas, estamos perdendo a capacidade de escutar com atenção. Essa dificuldade de ouvir o outro pode estar na raiz de muitos dos problemas que enfrentamos hoje: conexões superficiais, aumento dos divórcios, conflitos armados, polarização e solidão. Como resgatar a arte de ouvir em meio a tanta dispersão?

Por que não escutamos de verdade?

Além de incentivar interações mais rápidas e superficiais, o celular tornou mais fácil adiar conversas para um momento de maior disposição e interesse —algo impossível no contato olho no olho. No ambiente digital, também é comum ver diálogos se transformando em duelos de quem grita mais alto para defender seu ponto de vista.

“Uma das coisas que mais me preocupa é que as pessoas não se olham mais nos olhos”, disse o físico, escritor e astrônomo Marcelo Gleiser em entrevista ao The Summer Hunter. “Quando você interage através de uma tela, está vendo apenas uma projeção plana de uma outra pessoa”.

Ele explica que evoluímos durante 300 mil anos para podermos interagir de uma forma holística. Ou seja, a comunicação não se dá apenas com a voz ou as palavras: o corpo tem uma linguagem. Não interagir ao vivo e não ter uma troca direta de emoções é, no seu ponto de vista, uma perda muito perigosa para nossa humanidade.

Ao mesmo tempo, o ritmo acelerado da vida moderna, e o excesso de estímulos digitais têm sequestrado a nossa atenção. E o próprio fato de vivermos em um mundo cada vez mais barulhento interfere na escuta. Em meio a tantos estímulos sonoros, buscamos refúgio em fones de ouvido com cancelamento de ruído, criando bolhas individuais nas quais ninguém está realmente disposto a sequer perceber quem está à sua volta.

Fugindo do silêncio incômodo

Algumas vezes, o medo de ter que lidar com alguns segundos de silêncio nos leva a formular mentalmente uma resposta enquanto a outra pessoa ainda fala. Mas ouvir de verdade vai além de aguardar o momento certo de opinar. É estar presente, perceber os detalhes, captar as entrelinhas.

Além disso, apesar de serem incômodas, as pausas na comunicação são necessárias em certas situações. Algumas conversas exigem tempo para refletir e processar. Nesse sentido, o silêncio pode ser valioso, permitindo que os argumentos sejam avaliados com mais consideração.

A dificuldade de escutar também pode nascer de um mecanismo inconsciente de autoproteção. Ouvir o outro de forma profunda pode nos obrigar a confrontar sentimentos, assumir responsabilidades ou rever certezas confortáveis. Quando alguém expressa dor, frustração ou crítica, a escuta verdadeira exige vulnerabilidade. Assim, evitamos escutar para não ter que lidar com o desconforto que a honestidade do outro provoca.

O que perdemos

Quando escutamos com atenção, demonstramos à outra pessoa que nos importamos com ela —e isso gera trocas que realmente fortalecem laços e criam conexões profundas. Sem uma escuta atenta e envolvimento verdadeiro, conversas se resumem a trocas de informações. Ouvir também é o primeiro passo para compreender o outro.

Não por acaso, William Ury, cofundador do Programa de Negociação de Harvard, considera essa habilidade a ferramenta mais poderosa na resolução de conflitos. “No escutar atento, não escutamos apenas o que foi dito, mas o que não foi dito. Não escutamos apenas as palavras, mas o que há por trás delas. Escutamos as emoções, os sentimentos, e as necessidades subjacentes”, disse ele no TEDx The Power of Listening.

Uma questão de treino

Para exercitar a escuta ativa, o primeiro passo é óbvio: ouvir atentamente o que o outro está dizendo — sem responder aquela mensagem de WhatsApp ou pensar na comida que está estragando na geladeira ao mesmo tempo. Além de fazer pequenas pausas para refletir quando necessário, é bom mostrar interesse fazendo perguntas.

Durante uma conversa, é natural lembrar de situações semelhantes que você ou pessoas próximas já viveram. Se compartilhadas de forma breve, essas histórias podem oferecer acolhimento, reforçar o que foi dito e até inspirar soluções.

No entanto, é preciso equilíbrio: se estender demais ou recorrer a esse hábito com frequência pode desviar o foco do outro e colocá-lo sobre você. Aqui, a regra é simples: ouvir mais e falar menos. Por fim, evite interromper. Esse é um gesto simples, mas poderoso: dar espaço para que a outra pessoa conclua seu pensamento permite que ela se expresse com clareza e segurança, criando um diálogo mais equilibrado e respeitoso.

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