Alta rotatividade de clientes, pagamentos em dinheiro vivo e sem nota fiscal, centenas de transações financeiras fracionadas diariamente, uso de maquininhas de fintechs parceiras obscuras: o que começou há 20 anos como uma estratégia incipiente de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) rapidamente evoluiu para mais uma fonte de enorme lucro com a venda de combustíveis adulterados e transformou-se em um dos maiores desafios de segurança pública e de ordem econômica do Brasil.
Toda a cadeia econômica do setor de combustíveis, em especial os postos de gasolina, são vítimas de um sistema financeiro paralelo criado pelo crime organizado que movimenta dezenas de bilhões de reais, desafiando a fiscalização do Estado e sufocando a concorrência legal. O tamanho do problema ficou claro em agosto de 2025, quando o país testemunhou a operação Carbono Oculto.
Setor de combustíveis é alvo ideal pelo alto giro de dinheiro em espécie, pela complexidade da cadeia tributária (que abre caminho para sonegação) e pela facilidade de adulteração do produto.
Com um efetivo de cerca de 1,4 mil agentes da Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público Federal, além de ministérios públicos e polícias estaduais distribuídos em oito estados — São Paulo, Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio de Janeiro e Santa Catarina — a operação mirou cerca de 350 alvos, entre pessoas e empresas, que as investigações apontaram como ligados ao PCC no setor de combustíveis e no mercado financeiro. A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ingressou com ações judiciais cíveis para bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em bens dos envolvidos, incluindo imóveis e veículos, para a garantia do crédito tributário.
As investigações identificaram que a facção criminosa movimentou R$ 52 bilhões apenas entre 2020 e 2024, por meio de uma rede com mais de 1 mil postos de combustível, além de transportadoras, armazéns, refinarias e até um terminal portuário. Não se tratava apenas de postos de combustível, mas de um ecossistema operado pelo crime organizado que incluía fintechs (bancos digitais próprios), corretoras de valores e pelo menos 40 fundos de investimento utilizados para ocultar o patrimônio oriundo do tráfico de drogas e, lateralmente, da venda de combustíveis adulterados com metanol, por exemplo.
Controle de postos de combustível pelo crime organizado ocorre desde os anos 2000
O PCC não entrou no mercado de combustíveis ontem. De acordo com investigações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), o envolvimento da facção criminosa paulista existe pelo menos desde 2006. Na época, uma então liderança da facção foi apontada pela Polícia Civil como dona de 22 postos de gasolina na Grande São Paulo e na região da Baixada Santista, no litoral sul do estado.
O MP-SP apontou que a facção criminosa movimentava pelo menos R$ 6 milhões por mês por meio da rede de postos, em valores de 2006. Corrigido pela inflação do período, o valor equivale a mais de R$ 20 milhões por mês nos dias atuais.
Naquela época, o alvo estava apenas nos postos. Hoje, a facção atua em toda a cadeia de combustíveis, da importação e fabricação ao transporte e distribuição para o consumidor final. O setor de combustíveis é o alvo ideal por três motivos principais: o alto giro de dinheiro em espécie, a complexidade da cadeia tributária (que facilita a sonegação) e a facilidade de adulteração do produto.
Segundo o Instituto Combustível Legal (ICL), a sonegação de impostos no setor gira em torno de R$ 14 bilhões anuais. Quando somadas as fraudes operacionais e as adulterações — como a mistura excessiva de metanol na gasolina ou fraude nas bombas —, o prejuízo à economia brasileira atinge a marca de R$ 29 bilhões por ano, segundo cálculos do Instituto.
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Negócios da facção criam concorrência desleal intransponível para empresários do setor
Na operação Carbono Oculto, a Receita Federal identificou uma sonegação de R$ 7,6 bilhões relacionada ao esquema específico. Essa evasão fiscal não apenas retira recursos públicos e capacidade de investimento dos governos, como cria uma concorrência desleal intransponível: o posto da facção, que não paga impostos, adultera o produto e rouba na quantidade servida na bomba, consegue vender o litro por valores que o empresário honesto jamais alcançaria — sem falar no prejuízo aos motoristas que abastecem ali de boa fé.
A Receita Federal identificou ao menos 40 fundos de investimentos (multimercado e imobiliários), com patrimônio de R$ 30 bilhões, controlados pela organização criminosa. Em sua maioria, são fundos fechados com um único cotista, geralmente outro fundo de investimento, criando camadas de ocultação.
Entre os bens adquiridos por esses fundos estão, segundo aponta a polícia, um terminal portuário, quatro usinas produtoras de álcool (mais duas usinas em parceria ou em processo de aquisição), 1,6 mil caminhões para transporte de combustíveis e mais de 100 imóveis, dentre os quais seis fazendas no interior do estado de São Paulo, avaliadas em R$ 31 milhões, e uma residência em Trancoso (BA), adquirida por R$ 13 milhões.
“Uma das principais formas de lavar dinheiro no Brasil sempre foi por meio de pequenos comércios, onde há grande volume de transações de pequeno valor em espécie por dia e onde não há a identificação do cliente ou a possibilidade de se rastrear a efetiva realização da venda”, afirma Matheus Herren Falivene de Souza, doutor em Direito Penal, especialista em colaborações premiadas e estudioso do tema.
“Com isso, movimenta-se, de forma rápida e complexa, os fundos, escondendo a origem ilícita dos valores. A própria origem do termo ‘lavagem de dinheiro’ vem do termo em inglês money laundering, porque, na época da Lei Seca nos Estados Unidos, grupos criminosos que praticavam a venda de bebidas alcoólicas se valiam principalmente de lavanderias para dissimular a origem ilícita de valores”, contextualiza Souza.
Dentro desta dinâmica, o crime organizado já se valeu de diversas atividades para lavar dinheiro: casas noturnas, motéis, joalherias, empresa de ônibus urbanos, agências de carros, empresa de construção civil e, mais recentemente, postos de combustível e fintechs. “A primeira prosperou no branqueamento de capitais, em razão da facilidade de realizar muitas vendas simuladas com dinheiro em espécie por dia. Os segundos exemplos prosperaram por serem meios baratos e globalizados de reintroduzir os valores na economia”, explica o especialista.
Trataria-se de uma evolução natural no processo de lavagem de dinheiro das facções, já que um banco digital pode operar com bilhões de reais por dia e fazer transações complexas com o mundo todo, dificultando o rastreio da origem ilícita dos valores.
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Autor: Gazeta do Povo






