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É preciso que a democracia tenha sentido, diz Rui Tavares – 28/02/2026 – Ilustríssima

[RESUMO] O historiador e político português comenta seu mais recente livro, no qual argumenta que as chamadas guerras culturais, que parecem ser uma marca do nosso tempo, na verdade são bem mais antigas do que em geral pensamos. Na entrevista, Rui Tavares analisa o percurso histórico desses fenômenos de polarização em torno de valores e narrativas, ressalta o papel da religião nesse debate, afirma que seria um erro a esquerda fazer política desligada de questões de identidade e defende que políticos sejam mais efetivos ao demonstrar para a população o sentido da democracia.

Por volta de 1900, vivia na cidade do Porto uma família de origem brasileira, proveniente da Bahia, de sobrenome Calmon. O pai exercia a função de cônsul do Brasil. Morava com o casal a filha Rosa, já com seus 30 anos, que estava decidida a seguir, contra o desejo dos pais, uma vida dedicada à religião. O caso ganhou notoriedade e tornou-se objeto de controvérsias na cidade e em Portugal.

Arregimentaram-se, num polo, os que defendiam o direito dos pais —mais claramente o do pai— de impedir que a filha realizasse o seu plano; em outro, os que consideravam que cabia a ela tomar a decisão.

Curiosamente, registrava-se uma inversão tática de posições: os católicos reacionários e os conservadores clericais foram favoráveis a ela e, portanto, à defesa da livre vontade da mulher. Em contrário, os progressistas anticlericais, o Partido Progressista e médicos sustentavam o pai.

A chamada “questão Calmon” é mencionada com certo destaque pelo historiador português Rui Tavares em seu novo livro, que chega agora ao Brasil pela editora Tinta da China. “Hipocritões e Olhigarcas” trata do passado e do futuro das guerras culturais.

“Meu livro, antes de tudo, é antirreducionista”, diz o autor em conversa com a Folha. “Daí a importância de quando falamos em guerras culturais valorizar a cultura, porque há tendências, umas mais sofisticadas, outras mais vulgares, a subsumir as guerras culturais em apenas epifenômeno de outras coisas, dos modos de produção, da infraestrutura material e por aí afora. Minha definição de guerras culturais é uma aproximação, não tenta de forma nenhuma esgotar o assunto. Por outro lado, se não tiver meia dúzia de critérios, uma guerra cultural pode ser tudo, e se for tudo, não é nada. Então, os três critérios que eu segui no início, e acho que eles aguentam bem durante o livro todo para designar o que é uma guerra cultural, é que ela tem que ser feita em cima de questões de valores, identidades e narrativas, provocar polarização extrema da sociedade e trazer consigo grande intensidade emocional.”

No caso Calmon, como em diversos outros abordados por Tavares —da reforma protestante ao “affair Dreyfus”—, a religião surge como um ingrediente explosivo. E assim continua a ser, inclusive no território do debate progressista, em torno de questões identitárias. O historiador considera que não é possível, para quem quer que se diga de esquerda, querer fazer uma luta política desligada da identidade. “E inclui-se aí, fortissimamente, a religião”, afirma ele, que se declara ateu.

“O que a religião vende”, resume, “é sentido”. “E o que a democracia tem que conseguir vender também, ou dar, de preferência, é sentido, é significado.”

“Hipocritões e Olhigarcas” é o resultado da transcrição e revisão de aulas dadas pelo autor em um curso on-line da editora Tinta da China Portugal e do jornal Público. Foram acrescentadas reflexões publicadas em colunas da Folha e do português Expresso.

A obra é uma tentativa de mapeamento de um fenômeno relevante neste momento de polarizações e emergência do populismo autoritário em plano internacional, que recorre às guerras culturais para ganhar terreno e pautar a agenda midiática.

O livro começa por mencionar uma inscrição com a imagem de um labirinto deixada possivelmente por uma criança na base de uma pilastra de uma casa de Pompeia, onde se lia, ao lado do desenho: “Aqui vive o Minotauro”. É por esse caminho que o leitor será convidado a caminhar.

O título vem de um trocadilho com a “hipocriptomoeda” do presidente norte-americano, Donald Trump, que faz dele um “hipocritão”, e também dos oligarcas das big techs que a todos vigiam, os “olhigarcas”.

O livro ressalta, entre outros temas, a forte presença da religião nas guerras culturais, assunto relevante na discussão política atual. Qual a sua visão sobre esses embates?
É natural que a religião, enquanto lente através da qual se vê o mundo, determine resultados políticos, sociais, materiais e por aí afora. Na minha leitura, que é uma leitura culturalista do fato cultural, não é uma leitura materialista do fato cultural, a religião é um fator de formação de personalidade muito forte, é um fator identitário muito forte e, portanto, tem resultados tanto ao nível individual como coletivo. O próprio contrato político tem um momento em que é um contrato, ele próprio, religioso, entre o súdito, o rei e Deus.

Mas há uma coisa curiosa, interessante para a gente falar, que é a guerra cultural em torno da religião dentro do campo não religioso, em particular do campo progressista. Por um lado, temos o materialismo filosófico, que considera a religião, como as outras questões culturais, meramente uma espécie de epifenômeno, um disfarce, resultado colateral de outras coisas que são verdadeiramente importantes.

Tivemos isso no passado e temos hoje em dia também, aquela gente que diz, “não, isso não tem importância, o que tem importância é a luta de classes, a gente tem que voltar à luta de classes”.

Diziam isso sobre a religião no passado, não é? O famoso ópio do povo, e diz-se isso sobre a identidade hoje em dia. Talvez agora menos, mas eu ainda me lembro bem de, há poucos anos, haver muita gente que dizia, “ah, as pautas identitárias, as pautas simbólicas, as pautas pós-materiais, nisso a gente não pode entrar”. Também como reação contra o excesso de uma política feita só de pautas identitárias, tínhamos que ficar na discussão econômica e social.

Mas outra parte do campo progressista entende, preza e valoriza o fato religioso. E eu aqui devo dizer que falo enquanto ateu, mas um ateu apaixonado por religião. Considero um erro, para quem quer que se diga de esquerda, querer fazer uma luta política desligada da identidade. Isso é impossível. E inclui-se aí fortissimamente a religião.

No livro é citada uma fala do presidente Lula, no filme “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, na qual ele conta a história de um desempregado que só encontra uma resposta capaz de fazer sentido na religião. O que isso nos diz sobre a política atual?
Se a gente não entender a religião, a gente não entende a identidade, e se a gente não entender a identidade, a gente não entende com quem é que a gente está a falar. Eu diria isso não só do ponto de vista tático, não é só dizer, “olha, o povo quer isso e a gente tem que dar isso”, não é isso que eu quero dizer.

O que eu quero dizer é que nós todos somos memória ao longo do tempo. Cada um de nós é a construção de uma identidade que tenta sempre ser diferente procurando ser a mesma pessoa.

E as realidades econômicas e sociais entram nisso. Por exemplo, a questão da dívida não é só uma questão econômica. É uma questão valorativa, é uma questão de amor próprio, é uma questão de orgulho e é também uma questão de memória, porque a dívida cria um vínculo e esse vínculo cria uma obrigação social, e cria a memória de que eu sou endividado, que tenho de pagar. É uma coisa muito forte.

Se a gente olha para a classe operária do século 20, que eu conheço bem, as coisas relativas à materialidade da existência não eram uma questão despida de identidade. Elas eram uma questão muito claramente identitária. A procura que o proletário tinha de ter por uma vida material mais confortável era uma questão de poder olhar nos olhos das outras pessoas na rua. Portanto, a desvalorização extrema que ocorre em certa esquerda acadêmica das questões de identidade vai colocá-la num beco sem saída.

Eu diria para completar a fala do presidente Lula: o que a religião vende é sentido, não é? E o que a democracia tem que conseguir vender também, ou dar de preferência, é sentido, é significado, porque se a gente acha que a democracia é apenas uma coisa de políticas públicas, de quantos saíram da pobreza (o que é bom, claro), vem alguém com uma narrativa que empresta significado e conteúdo ao teu percurso. Isso não foi o Estado, não foi o governo, não foi ninguém que conseguiu para ti, foi você e foi Deus.

O que não tem acontecido é a capacidade dos democratas, aí já não falo só dos progressistas, de dizer, “ok, a gente tem a democracia, ela não é perfeita, ela não vai resolver todos os problemas, mas a coisa mais importante é que ela tem sentido”. A gente sabe, a natureza abomina o vácuo, se há um vácuo de sentido e de significados nas políticas públicas atuais, a religião, as redes sociais, o tradicionalismo e o reacionarismo vão preenchê-lo.

Qual o papel do medo e da mudança nas guerras culturais e na política contemporânea?
Os políticos, os intelectuais, os escritores e os artistas não podem deixar que a mudança seja uma coisa que meramente assusta as pessoas, e não podem viver o tempo todo aumentando o medo que as pessoas já têm da mudança.

A gente tem narrativas do medo sobre as alterações climáticas, sobre a inteligência artificial e sobre outros assuntos que podem levar a reações do tipo “vocês todos falam que o mundo está maluco, é uma merda e vai ficar pior, não vai ter emprego, não tem dinheiro, e querem que eu não tenha medo, que eu não vote no candidato do medo”…

O discurso do senso comum hoje é o medo, não tem explicação para nada, estamos perdidos. E aí vem uma eleição, a gente faz campanha para o candidato da esperança, mas insuflamos o medo, fazemos uma espécie de chantagem moral e emocional com a pessoa que não vota no candidato da esperança.

As pessoas votam uma vez, duas vezes, mas depois ganham um outro medo que é o medo da esperança sair frustrada, que é um medo terrível, toda a gente tem isso, a começar pelas relações amorosas ou as relações de afeto com a mãe e com o pai…

As pessoas podem pensar: “Eu tive esperança, eu acreditei naquele político, naquele presidente, ele tinha uma fala muito boa, muito bonita, mas depois eu me desiludi, e agora eu tenho os medos que eu já tinha e tenho outro, que é o de ser trouxa, de ser tolo, de votar num candidato que me dá esperança e com quem daqui a quatro anos estarei desencantado. Vamos então votar logo neste candidato que é cínico, nunca enganou ninguém, passa a vida mentindo, todo mundo sabe que é mentiroso e com ele não vou me desiludir”.

Você dá o exemplo do presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, que usava o rádio não para insuflar, como os fascistas, mas para tentar explicar o que seria possível fazer com a Grande Depressão, que causava enorme medo.
Embora a gente tenha alguns bons políticos no século 21, Roosevelt resolveu isso muito bem, com um discurso que ia nessa linha, “olha, não vou diminuir a mudança que está aí, ela é importante, é crescente, não é gradual, em alguns casos é irreversível, como na tecnologia, noutros é exponencial ou disruptiva”.

Mas depois de assumir isso é preciso dizer que tem um jeito, como dizia Roosevelt. Que é preciso reinventar a seguridade social, que as empresas com os seus robôs terão que pagar mais… Tem que haver uma narrativa pública que diga isso.

Não é o discurso da esperança, “olha, fica aí sentado e espera que vai ser melhor”. Tem que ser um discurso sobre aquilo que chamo de objetos do desejo político. Esses objetos devem ser delimitados, coisas que, tanto quanto possível, possam ser ilustradas, com imagens mesmo.

“Olha, é isso, é esta rua, é este centro cultural, é esta biblioteca, é esta escola, é esta cidade, parque, jardim, é a maneira de o teu filho ascender ao mestrado”. Vemos muitas vezes, na filosofia política, aquela ideia de “vamos chegar a um Estado justo” e para aí. Isso não existe, nunca vai existir.

Tem que ter soluções, mas ninguém está à espera de que o político chegue lá e diga, “olha, está aqui a varinha mágica e tudo se resolve”. Não foi isso que o Roosevelt fez com a Grande Depressão nos Estados Unidos. Ele disse: “Olha, a gente vai tentar, a gente vai experimentar uma coisa, se não funcionar tentaremos outra. Tenham calma, a única coisa que temos a temer é o medo”.

É uma frase que eu não gostava muito e que eu vim a apreciar mais à frente —a gente tem que ter medo, mas a gente tem que conseguir sair dessa toca. O meu pai dizia que a fome e o frio é que fazem a lebre sair ao caminho. O desejo a impele a enfrentar o medo. Portanto, ter políticos da esperança não é mau, mas claramente é pouco eficaz.

De certa forma foi o que fez Zohran Mamdani ao vencer a eleição para prefeito de Nova York, não?
Sim, a campanha de Zohran Mamdani em Nova York foi toda ela de objetos de desejo político. A certa altura todos falavam daquela ideia das mercearias públicas. Ele dizia que ia fazer só cinco, o que em Nova York não é nada, mas as pessoas falavam muito disso, porque era um objeto de desejo político e se discutia se ia funcionar ou não ia funcionar. Enquanto as pessoas falavam da mercearia pública, não falavam do discurso de ódio da extrema direita.

Foi realmente um caso novo, porque ele falava da vida das pessoas, usou o discurso da mudança no sentido favorável ao desejo do eleitorado. Um muçulmano, imigrante, de esquerda, seria um prato para ser devorado pela direita. Ele é uma lição tanto para a esquerda da identidade e do imaginário quanto para a esquerda da luta de classes.

O antijudaísmo e o antissemitismo estão presentes em guerras culturais históricas. Como você vê a discussão sobre antissemitismo hoje?
Do ponto de vista do historiador, tem até uma relevância acrescida, porque a gente vê determinadas inversões na história do antissemitismo, algumas delas que atravessam séculos e que são muito interessantes porque nos remetem para uma instrumentalização da própria história do antissemitismo.

O que quero dizer com isso? É particularmente interessante a maneira como a extrema direita internacional, historicamente antissemita, virou aliada de Israel. Não virou aliada de Israel de 1948, virou aliada de Israel de agora, que tem um governo, ele próprio, de extrema direita. E virou aliada desse governo de extrema direita de Israel porque o lugar do seu ódio se deslocou para outro tipo de semita, o árabe. E, portanto, enquanto ambos têm o inimigo comum, são aliados ocasionais.

A extrema direita mais antiga, se a gente pensar no Le Pen pai, ainda era antissemita original, quer dizer, da velha estirpe. Depois há esta virada em que o inimigo comum é o árabe, muitas vezes amalgamado com o islâmico, mesmo que se esteja a falar de palestininos cristãos.

Setores cristãos evangélicos de direita, que fazem uma leitura bíblica fundamentalista, têm se aliado a Israel. Como vê esse fenômeno?
Alguns dos meus colegas no Parlamento, aqui em Portugal, da extrema direita, em particular os evangélicos, estão muito preocupados com a sorte dos cristãos na Nigéria, dos cristãos no Paquistão, mas se for uma igreja que seja destruída na Faixa de Gaza ou uma perseguição a cristãos maronitas ou mesmo católicos na Cisjordânia, eles já não falam.

Essa aliança entre a extrema direita israelense e a extrema direita euroamericana, com essa leitura mais fundamentalista bíblica, é meramente contingente. Muita gente, ao abrigo de uma leitura do Apocalipse de São João, acredita que, ao apoiar o restabelecimento de um Estado de Israel especificamente judaico e, em particular, a reconstrução do Templo de Salomão, estaria apressando a vinda do Juízo Final. E nesse Juízo Final, ou os judeus se convertem ou são massacrados.

Isso foi notado recentemente por um colega francês, o Johann Chapoutot, especialista em nazismo. Ele tem falado muito disso, de uma aliança na qual a parte cristã fundamentalista espera que Israel seja apoiado, seja estabelecido, que seja reconstruído o Templo de Salomão, que é o mesmo que querem os milenaristas judaicos. Mas para quê? Para vir um Juízo Final em que o judeu ou se converte ou é massacrado.

Portanto, as dimensões e a textura disso são tão intrincadas e ricas que o historiador, embora possa estar aterrado como cidadão, ao mesmo tempo sente uma espécie de obsessão por procurar destrinchar todas essas correntes do antissemitismo. É notável a sobrevivência do preconceito antissemita ao longo dos séculos e os seus vários avatares.

Como as revoluções tecnológicas influenciam as guerras culturais?
A capacidade de disseminação de uma determinada guerra cultural é diferente antes ou depois de haver uma revolução tecnológica, e a gente inclui nas revoluções tecnológicas essas que, para nós, hoje em dia, não parecem ser. O livro em rolo é uma tecnologia, e o livro encadernado, o chamado códice, é outra tecnologia, que potencializa a capacidade de disseminação de uma mensagem.

Em cada revolução tecnológica há uma espécie de temor, uma angústia, se conseguiremos acompanhar cognitivamente a explosão de informação e comunicação gerada por ela. Nós temos gente, nos séculos 17 e 18, falando do excesso de livros em termos parecidos com os que a gente usa hoje. Com a imprensa de massas, com a rádio e com a televisão surge a mesma angústia.

Será que o nosso cérebro individual ou mesmo coletivo é capaz de abarcar isso tudo? Será que a gente consegue digerir essa informação? Quem é que tem tempo para ler isso tudo? Será que não se produz demais? Será que a gente não deveria, de alguma forma, controlar essa abundância, que também significa um decréscimo de qualidade?

Nós, hoje em dia, estamos não na crista da onda, mas na crista do tsunami de uma revolução tecnológica quase que incomparável, incomensurável em relação às outras. E estamos a viver a mesma coisa que essas gerações já viveram, essa angústia.

Será que a gente consegue dar conta disso? Apelos à regulação? Às vezes apelos diretamente à censura? A questão que está em aberto e que o historiador não consegue responder é: daqui a uma geração ou duas, do outro lado deste ciclo, nós vamos dizer que conseguimos de certa forma abarcar o manancial informativo que saiu dessa revolução?

Qual sua visão sobre os debates em torno da regulação da internet e da liberdade de expressão?
Regular ou não a internet é uma guerra cultural. Aqueles que estão interessados na não regulação da internet vão tentar apresentar como liberdade de expressão o que é, na verdade, a negação da liberdade de expressão dos outros. Porque, repare, não é igual para todos um espaço público no qual eu, para falar, tenho que ser insultado. A liberdade de expressão não é a mesma para mim ou para quem me insulta. Como nós não somos todos iguais, há pessoas que, se souberem que vão ser insultadas, não vão falar.

Portanto, a liberdade de expressão delas já está a ser cortada pela liberdade dos outros, o que é um exemplo clássico liberal, a liberdade de um termina quando começa a liberdade do outro. A mera existência de um espaço público que é violento, é agressivo, é brutal, pode ser considerada como o exato contrário da liberdade de expressão que dizem defender. Mais ainda se isso tiver um impacto sobre a saúde mental de pessoas, que possa levar gente ao suicídio etc.

Podem dizer: “Ah, mas a culpa não é minha. Eu não tenho culpa da fragilidade mental dos outros, eu não tenho culpa daqueles que se juntam para fazer bullying a um adolescente e isso o leva ao suicídio”.

Não é possível dizer, como alegam alguns chamados absolutistas da liberdade de expressão, que as palavras são só palavras e não são atos. Isso não é verdade, nem nunca foi verdade em nenhuma ordem jurídica, incluindo a da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos [proíbe o Congresso de criar leis que restrinjam a liberdade de expressão e de imprensa]. Mesmo quando a gente estuda a Europa pré-revoluções francesa e americana, a Europa do século 16 e 17.

Há quem diga que na Inglaterra ou nos Países Baixos havia uma situação de quase liberdade de expressão total. Isso também não é verdade. Não existia o mesmo tipo de estrutura censória que a Inquisição tinha nos países católicos, mas existiam vários poderes censórios, alguns herdados da Idade Média.

Da mesma forma, nos Estados Unidos, os limites que a Suprema Corte introduziu são até bem conhecidos como lugares-comuns, por exemplo, aquele de não ser possível gritar “fogo” num teatro cheio de gente. Uma pessoa poderia dizer, depois de gritar e causar uma mortandade, que não fez nada, só usou sua liberdade de expressão, “eu só gritei fogo”. Mas isso é proibido. Apesar de serem só palavras, eu lancei um falso rumor que produziu efeitos físicos.

Temos de ter em conta ainda que nem todas as tradições jurídicas da liberdade de expressão são iguais à da Primeira Emenda dos Estados Unidos. No Brasil não é igual, não é a mesma tradição. Na Europa não é, e nem por isso nós devemos aceitar que nos digam que elas são menos nobres, têm menos pergaminhos, ou menos consistência jurídica do que a dos Estados Unidos. Porque todas elas estão embasadas na nossa história, às vezes em momentos da nossa história, como o nazismo na Alemanha, que são marcos incontornáveis que exigem uma relação com eles.

Portanto, qual é a minha esperança para concluir a resposta? É que a gente possa fazer um debate maduro, sereno, em torno disso. Que a gente saiba superar o aspecto de guerra cultural que o próprio debate sobre a regulação da internet tem. Teremos de achar o ponto na regulação que maximize a liberdade de toda a gente, do que quer falar, do que não fala se for insultado. Um mundo perfeito não existe, o conflito vai ter.


Rui Tavares, 53

Nasceu em Lisboa, em 1972. É historiador, escritor, político português e colunista da Folha. Licenciou-se em história pela Universidade Nova de Lisboa em 1994, e doutorou-se pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris em 2014. É deputado na Assembleia da República de Portugal pelo Livres, partido de esquerda que ajudou a fundar em 2014. Autor, entre outros, de “O Pequeno Livro do Grande Terramoto”, “Esquerda e Direita: Guia Histórico para o Século XXI” eAgora, Agora e Mais Agora“, versão em livro de seu podcast de sucesso.

Autor: Folha

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