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Números e mais números, para todos os desgostos – 01/03/2026 – Marcelo Leite

O uso ideológico de números tem história longa o bastante para fazer surgir a máxima sobre três tipos de falsidade: mentiras, mentiras cabeludas e… estatísticas. Distorcem-se cifras, à direita e à esquerda, sobre Bolsa Família, mortes na pandemia de Covid, ajuste fiscal, aposentadorias, horas trabalhadas etc.

Mesmo assim, números e critérios para apurá-los são passíveis de crítica, podendo daí brotar alguma luz no debate público. Não é outra a razão para tanto empenho em inundar o campo com dados, erguendo cortinas de fumaça malcheirosa, e para relativizar ou ocultar os mais reveladores, como no caso das mortes em Gaza.

Desde que começou o conflito, após o ato terrorista antissemita do Hamas em 7 de outubro de 2023, era praxe desconfiar dos números do Ministério da Saúde de Gaza (MdS) sobre vítimas das forças israelenses. Toda notícia ressalvava que não fora possível verificar de modo independente as cifras, nem sempre se contrapondo que Israel impedia a entrada de jornalistas no território invadido.

O MdS gazense estimava no último dia 16 de fevereiro, segundo a Al Jazeera, pouco mais de 72 mil mortos na guerra. Dois dias depois, o periódico médico Lancet Global Health publicou estudo de Michael Spagat, da Universidade de Londres, com colegas belgas, americanos, noruegueses e palestinos, estimando 75.200 óbitos só até janeiro de 2025, um ano atrás.

Tendo em vista que só depois do cessar-fogo de outubro passado morreram mais de 600, os dados do MdS parecem bem subestimados. Inclusive porque Spagat &cia estimam em cerca de 8.000 as mortes adicionais não violentas no período, o que eleva o total para 83 mil pessoas (3,4% a 3,6% da população prévia de Gaza).

Quando foi divulgado no diretório medRxiv, em junho de 2025, o texto recebeu críticas. Um pesquisador da Universidade RMIT de Melbourne e ex-professor da Universidade de Tel Aviv, Lewi Stone, desconfiou dos dados porque o levantamento com 9.729 entrevistas de famílias em Gaza havia sido rejeitado por um periódico científico.

E agora que saiu na Lancet? Basta para reabilitar como não infladas as estimativas do MdS de Gaza?

Por falar em ideologia e genocídio, entra em cena Donald Trump. Em 24 de janeiro de 2025, o mandachuva dos EUA suspendeu a ajuda externa veiculada pela agência USAID, aniquilando entre outros o Plano Emergencial do Presidente para Alívio da Aids (Pepfar, em inglês).

Em consequência dessa decisão, a cada 3,3 minutos morre uma pessoa no mundo por falta de medicamentos, testes e assistência fornecidos com verbas do Pepfar. Às 17h50 de sexta-feira, quando esta coluna era redigida, a contagem estava em 174.179 óbitos causados por Trump com essa medida. Ou duas Gazas.

(Nada a estranhar para quem, por omissão e negacionismo no primeiro governo, contribuiu para algo entre 130 mil e 400 mil mortes evitáveis na pandemia de Covid.)

Tal cifra contrasta com a estimativas do Pepfar antes do corte: 26 milhões de vidas salvas e 7 milhões de bebês nascidos sem HIV de mães soropositivas. Nos países apoiados pelo programa, houve 59% de redução nas mortes relacionadas com Aids, contra 51% na média mundial.

Estatísticas também são cultura —no caso, cultura da morte.

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Autor: Folha

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