
Contemplar as massas. Parece que estou diante do fogão observando o espaguete e cuidando para ele não ficar mole demais. Mas não. Por mais que me dê vontade e fome, estou falando é de outra massa. A massa rebelde de Ortega y Gasset e que foi às ruas neste domingo, 1º de março, em ato convocado pelo deputado Nikolas Ferreira.
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Os números são incertos. Sempre incertos. Quem apoia a causa do Fora Lula, Fora Toffoli, Fora Moraes (o/) enxerga multidões; quem é contra, enxerga meia dúzia de gatos pingados. Uns celebram o despertar de um povo; outros zombam cinicamente da letargia. Aqui da minha rede, contudo, contemplo e, em contemplando, me contento.
Esperança insistente
Muita ou pouca, há gente. Isto é fato. Elas se vestem de verde e amarelo. Ainda. E saem de casa, ainda. Para ainda gritar slogans e principalmente se fazer presente. Umas levam crianças que daqui a vinte anos dirão: eu estive lá. (Mas não me lembro de muita coisa). Ou ficarão quietas ou negarão até o fim dos tempos que um dia fizeram parte disso. Nunca se sabe.
Me admira, sem qualquer resquício de sarcasmo, a esperança insistente daquelas pessoas. Principalmente dos mais velhos, que por tantas decepções passaram e com tantos líderes se frustraram. E, no entanto, estão lá. Se sentindo vivos. Parte da história. Cada um a seu modo, e às vezes com argumentos não muito elaborados, embasados mais na paixão do que na razão, eles lutam pelo futuro de filhos e netos que não estão nem aí.
Celebração indignada
Há beleza nisso. Uma beleza meio kitsch, de uma fé meio deslocada, mas ainda assim a beleza da esperança, do pertencimento e da justiça. Ou algo parecido com justiça. Assim como há a beleza nas imagens aéreas dos drones que sobrevoam as massas: os indivíduos abdicando momentaneamente de seus interesses egoístas para fazer parte de algo maior. Nem que este “algo maior” seja uma ideia difusa de país e uma foto na capa de um jornal que os chamará de golpistas, quando não de fascistas.
Tem razão, o Josef Pieper de minhas leituras recentes. É na contemplação que reside a felicidade e a multidão às vezes, bem às vezes, quando a gente está com o coração leve e transbordando um otimismo sereno, permite que contemplemos o grupo político pelo que ele de fato é: uma massa sem rosto, composta por indivíduos voluntariamente despojados de tudo aquilo que os torna únicos e reunidos num movimento estático de celebração indignada. Uma indignação que só não vou chamar de estéril porque, primeiro, talvez não seja mesmo. Tomara. Depois, porque me rendeu esta crônica domingueira.
Autor: Gazeta do Povo








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