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Aos 67, irmão de Chico Science canta pérolas da MPB na web – 02/03/2026 – Ilustrada

Com uma caixinha de som amplificando bases de karaoké, Jefferson solta a voz. Canta no sofá, na cama ou na cozinha de seu apartamento de 50 m² no Recife, filma-se com o celular e publica em seu perfil no Instagram.

São vídeos muito simples, amadores, sem nenhuma produção e desprovidos de artifícios tecnológicos de edição. Em alguns, gravados à noite sem iluminação, a tela é um breu.

O que distingue esse diletante de milhões de cantores anônimos Brasil afora é a linhagem. Jefferson Luiz de França, 67 anos, é o irmão mais velho de Chico Science, líder da banda Nação Zumbi e principal nome do movimento manguebeat, morto em 1997 num acidente de carro, aos 30 anos.

Se a filha única de Chico Science, a cantora e atriz Louise, é relativamente conhecida dos fãs do artista mais célebre da família, o irmão dele é um desconhecido, quase anônimo. O perfil de Jefferson na rede social tinha, em 27 de fevereiro, 195 seguidores.

Em seus posts, chama a atenção uma voz afinada, suave e potente ao mesmo tempo, sem qualquer maneirismo. Jefferson se destaca também pela seleção do repertório, pérolas do cancioneiro brasileiro, algumas célebres, outras mais “lado B”.

São canções como “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, “Chuvas de Verão”, de Fernando Lobo (gravada por Caetano Veloso), “Jura Secreta”, de Abel Silva e Sueli Costa (consagrada por Fagner), Arreio de Prata, de Rodolfo Aureliano e Tito Lívio (interpretada por Alceu Valença), “Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)”, de Gonzaguinha etc.

Quando a reportagem esteve com ele em sua casa, em 30 de dezembro passado, ele cantou “De Corpo Inteiro”, de Alceu Valença e Rubem Valença, e “Dorothy Lamour”, de Fausto Nilo e Petrúcio Maia (gravada por Ednardo).

Jefferson é um senhor bem vivido, que sempre gostou de música e era, como ele mesmo diz, um típico cantor de banheiro. Mostrar sua voz ao público é uma aventura recente. Pouco antes da pandemia, começou a cantar num coral de igreja. O laboratório paroquial funcionou. Mas ele ficou na dúvida se seria possível mesmo cantar sem estudar nem ter formação de canto.

A sobrinha Louise e a veterana Áurea Martins, conta, lhe disseram que sim, era possível. “Aí eu comecei a captar aquelas coisas [e disse]: espera aí, eu posso cantar também”, relata. Durante a pandemia, usou o longo tempo trancado em casa para se gravar e ouvir onde desafinava. Passou a usar uma caixinha para amplificar as bases de karaokê que embalam as interpretações –mas muitas vezes ele grava à capela.

Como não tem televisão em casa, volta e meia Jefferson dá um pulo na casa da mãe, Rita de França, 92 anos, para se conectar ao YouTube na smart TV dela. O pulo, no caso, é quase literal: dona Rita mora no apartamento ao lado do do seu primogênito. A idade avançada não a impede de, nos muitos momentos de lucidez, cantar e contar histórias.

Costureira aposentada, Rita e o marido, o enfermeiro Francisco, morto no ano passado, tiveram quatro filhos: Jefferson, Jamesson (morto de covid na pandemia), Goretti (que cuida do espólio do irmão junto com a sobrinha Louise) e Chico, o caçula.

Os pais são de Surubim, no agreste, e migraram para o Recife, onde os filhos nasceram. Tiveram uma infância difícil, com limitações financeiras, trocando de moradia pela região metropolitana da capital, até se fixarem em Rio Doce, bairro de Olinda onde Chico começa a despontar para a música.

Tanto Jefferson quanto os pais sempre foram musicais (ele gostava de cantar Demis Roussos e Pholhas), mas apenas no meio da adolescência Chico começou a despontar para a vocação que o consagraria. “No começo, ele só tocava uma flautinha doce. Por ser novo, não demonstrava muito [a veia artística]”, narra o irmão..

Entre meados e final dos anos 80, primeiro com a bandas de rock Orla Orbe e Lostaul em seguida com o grupo percussivo Lamento Negro, Chico fermentaria a Nação Zumbi.

Jefferson é terceiro sargento reformado do Exército. Licenciou-se da corporação após poucos meses de serviço, por problemas de saúde mental –sobretudo depressão e ansiedade. “Meus pais não tinham condições nenhumas para que eu fizesse tratamento com Freud nem com Lacan”, brinca. “Não tínhamos dinheiro.”

Só quando conseguiu, por uma ação na Justiça Federal, ser reformado, Jefferson passou a ter condições de fazer psicanálise. “Aí tinha um dinheirinho e fui me cuidar melhor, fui me tratar com Lacan.”

Dos momentos mais difíceis, ele lembra o apoio do irmão caçula. “Ele gostava de cantar para mim uma música de Guilherme Arantes, ‘Cuide-se Bem’. Cantava porque me via doente.”

A letra da canção diz: “Cuide-se bem/ Perigos há por toda a parte / E é bem delicado viver / De uma forma ou de outra/ É uma arte, como tudo (…) Cuide-se bem/ Eu quero te ver com saúde/ E sempre de bom humor/ E de boa vontade/ E de boa vontade com tudo”.

Jefferson acredita que Chico estaria feliz em ver o irmão mais velho bem e cantando. “Porque ele tinha essa coisa de cúmplice da gente. Fazia questão de ajudar. Quando eu tive a terceira recaída e fazia minhas consultas todo mês, ele me dava o dinheiro da consulta.”

E, se tivesse de escolher uma música de Chico para cantar em dueto com o irmão, qual Jefferson escolheria? Ele elege “Um Passeio no Mundo Livre”, cuja letra afirma: “Eu só quero andar nas ruas de Peixinhos/ Andar pelo Brasil ou em qualquer cidade/ Andando pelo mundo sem ter “sociedade”/ Andar com meus amigos de eletricidade/ Andar com as meninas sem ser incomodado”.

Autor: Folha

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