“Entre no espírito natalino”. A frase estava pregada na árvore do parque onde vou passear com meu cachorro. Tenho certa aflição desses imperativos. Soam como ordens disfarçadas de convite. Parecem forçar alguma coisa, e, de fato, forçam.
Nunca fui muito chegada ao Natal. Não sei exatamente quando isso começou, mas sempre senti que há uma forçação de barra para que todos estejam felizes, contentes, em família, com fartura, saúde, harmonia, ufa! “Você não gosta de Natal, tia Alice?”, minha sobrinha perguntou enquanto eu a levava para sua apresentação de fim de ano. “Não, e olha, se você não gostar também, não tem problema nenhum”. Tereza apenas me olhou, quieta.
Dezembro precisa comportar tantas festas de encerramento —do trabalho, da família, dos amigos, disso, daquilo— que parece não caber em 31 dias. Isso me deixa muito ansiosa e angustiada, como se precisasse realizar em um mês tudo que eu não fiz ao longo de onze meses. Sufocada por essa pressão de alegria, união e harmonia, procuro me esquivar dessa atmosfera, como por exemplo ir a um parque. Mas não deu muito certo dessa vez.
Semana passada, no dia 17 de dezembro, mais precisamente às três da manhã, abri os olhos com a certeza de que já era hora de levantar. Mas não. O sono tinha ido embora. Talvez fosse só uma ida rápida ao banheiro e depois dormiria de novo. Nada. Voltei para a cama e fiquei encarando o escuro, com a cabeça funcionando a mil: listas mentais, compromissos, mensagens não respondidas, presentes ainda não comprados, expectativas. Quanta ansiedade para algo que deveria ser leve.
Levantei. Fiz um chá. Sentei no sofá e observei o silêncio da casa, da rua, das luzinhas natalinas que não se apagam. Naquele horário, ninguém espera nada de você. Não há obrigação de alegria, de conversa, de equilíbrio emocional. Claro, talvez seja isso que sempre me incomodou no Natal: a pressão. Naquele momento, eu só precisava dormir, mas meu corpo não queria. E tudo bem. Tentei encontrar algum jeito de me confortar naquela insônia. Respeitar meus limites e minhas vontades.
No clima caótico de dezembro não tem espaço para tranquilidade. Na ativa era mais fácil. Atravessar todas as festas, reuniões, amigos secretos, filas, trânsito, histeria era mole. Eu estava anestesiada. Nem percebia. Hoje, ao contrário, sinto muito que estou sempre tendo que pertencer, participar, sorrir, agradecer, celebrar… Se eu não estou nesse espírito natalino, estou errada ou quebrada.
Quando o dia começou a clarear, decidi sair para caminhar com meu cachorro. O sono não voltaria. Saímos. A árvore do parque estava lá, com a mesma frase me encarando. Comecei então a criar meu próprio espírito natalino e ali mesmo imaginei como poderia ser diferente. O “meu espírito” só me pede para respeitar o próprio ritmo. Fazer menos. Ir freando e me preparando calmamente para o encerramento de mais um ciclo. Do Natal e mais a frente, do Ano-Novo.
Não me esquecer de sempre estar com quem oferece parceria, não cobrança. Nada precisa ser grandioso. Basta ouvir o meu próprio coração e apreciar tudo que eu tenho em volta e não correr para alcançar o que não tem importância. E, sim, estar presente para quem sempre esteve comigo. Bom Natal!
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