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Trabalhadores do varejo sofrem com estresse no fim de ano – 22/12/2025 – Equilíbrio e Saúde

Há 21 anos, Daniela de Oliveira, 47, trabalha como vendedora em shopping center. Neste período, passou por lojas de roupas, sapatos e jóias, e identificou que todas têm algo em comum: a rotina exaustiva no fim de ano.

É algo que não se restringe a uma tensão passageira. “É um trabalho destruidor”, classifica ela. A partir de novembro, a saúde de Daniela e de outros trabalhadores do comércio entra em declínio temporário, com piora de sono, alimentação e estresse crônico. Esses sintomas aparecem no relato de dez trabalhadores do setor que falaram à Folha.

Aparecem, também, em um estudo conduzido por pesquisadores da USP, UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e Unifei (Universidade Federal de Itajaí). A partir da chamada ergologia, abordagem que estuda a diferença do trabalho contratado e o real —o que de fato se faz no dia a dia—, os resultados mostram que 70% dos entrevistados fazem uso de medicamentos, e boa parte trabalha por até 12 horas por dia.

O período se inicia em novembro, com a Black Friday e o aumento repentino das vendas, e permanece até o Natal. Nestes períodos, os trabalhadores do comércio cumprem jornadas mais longas e sem folga fixa, vivem praticamente o tempo todo no trabalho —ou pensando nele.

Aliado a isso, há o aumento de circulação de pessoas no comércio e metas de venda que, por vezes, são dobradas. O estresse é aumentado com o trânsito intenso no fim de ano na volta para casa, por exemplo.

“Sono e alimentação são os primeiros a ficarem desregulados. Depois, a gente começa a sentir o cansaço, o desânimo para fazer coisas simples, como limpar a casa, fazer uma comida”, diz Daniela.

Outra coisa comum é sonhar que está trabalhando, algo que, afirma, é fruto da preocupação constante com as metas. “Você tem que ficar constantemente preocupado com disputa por espaço com os outros vendedores, inclusive com os temporários. A gente tem que vender mais, com mais competição e com mais desconto —como na Black Friday. É humanamente impossível”, completa.

Leônidas Reis, 36, é gerente de um restaurante também, em um shopping. Durante o mês de dezembro, o compromisso dele é apenas com o serviço. Não é possível encontrar amigos ou praticar alguma atividade física, ele diz. “A remuneração, embora um pouco mais alta, também não acompanha a dedicação”.

A psicóloga Fátima Macedo, presidente da empresa Mental Clean, que presta consultoria terapêutica para empresas, afirma que há casos de depressão e ansiedade entre trabalhadores do comércio que são desenvolvidos durante o período de fim de ano. Esses e outros transtornos surgem, segundo ela, pela falta de relação entre aumento de trabalho e recompensa.

“Os trabalhadores se empenham em jornadas que chegam a 12 horas em alguns casos, sem uma contrapartida. Não recebem muito a mais, já que os preços caem e precisam correr para atingir a meta e receber a comissão, não conseguem aproveitar as festas com a família, nem ganham o tempo adequado para descansar depois”, explica.

Segundo Fátima, funcionários relatam três semanas sem folga, abrindo e fechando loja. “As mulheres nesta época usam maquiagem para disfarçar o cansaço”, afirma a especialista, que é uma das fundadoras do Ambulatório de Saúde Mental do Trabalhador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Outros sintomas que afetam esses trabalhadores são falta de humor, alimentação compulsiva, desregulação do sono e negligência com a própria higiene. Tudo isso conduz a pessoa a um estado de apatia e de começo de depressão.

“A pessoa fica com o alerta ligado constantemente, porque além de bater meta e trabalhar por longas horas, ainda precisa demonstrar cordialidade com os clientes que, por muitas vezes, são grossos, desmontam a loja inteira e não levam nada e reclamam da fila”, destaca a psicóloga Ana Silvia Rennó, professora da faculdade São Leopoldo Mandic.

Como amenizar

Para as duas especialistas, as principais iniciativas para reduzir o estresse dos trabalhadores deve partir das empresas, que devem elevar o tempo de descanso. Mas há formas autônomas de amenizar o cansaço e reduzir, consequentemente, os riscos de adoecimento mental.

A principal prioridade, segundo Fátima, é o sono. “Dormir é o remédio número um para uma autopercepção mais regulada sobre a situação”, explica. Se o tempo disponível for muito curto, a prioridade deve ser sempre o sono.

O segundo pilar fundamental é a alimentação, que deve priorizar comidas leves e saudáveis. O conjunto de alimentação e sono vai criando condições para que as pessoas possam driblar as outras barreiras com mais vigor.

Conversar com amigos, pessoas de confiança ou um psicólogo também pode ser vantajoso. Contar as principais dificuldades, os erros, acertos, fazer um desabafo mesmo sobre tudo o que está entristecendo.

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