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o estreito que pode sufocar o Brasil

Pela primeira vez em quatro anos, desde a pandemia da Covid-19, a economia brasileira cresceu menos de 3%. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na manhã desta terça (3) mostram que o PIB avançou 2,3% em 2025.

Desde o primeiro trimestre do ano passado, quando cresceu 3,6% em um período de 12 meses, a economia brasileira está em ritmo de desaceleração, que vem se mostrando insuficiente para garantir o corte da taxa Selic, atualmente em 15% ao ano, a maior em quase duas décadas. É o segundo maior juro real do mundo, atrás apenas da Rússia, aponta a Lev Intelligence e a consultoria MoneYou.

As projeções do mercado financeiro para o crescimento do PIB mostram que a desaceleração deve continuar ao longo deste ano. O ponto médio das expectativas coletadas pelo Banco Central estava em 1,8% na sexta (27).

O choque externo

Um dos fatores que pode ampliar a desaceleração da economia brasileira foi o desencadeamento da “Operação Epic Fury”, no sábado (28), marcada por ataques coordenados dos EUA e Israel contra o Irã. A morte do líder supremo Ali Khamenei, que estava no poder desde 1989, instaurou um estado de incerteza radical que ameaça diretamente a trajetória de crescimento do PIB brasileiro em 2026.

O bloqueio do Estreito de Ormuz — entre os Emirados Árabes Unidos e o Irã, onde transita 20% da energia mundial — pela Guarda Revolucionária Islâmica, que sustenta o regime iraniano, pode trazer mais dificuldades para a economia brasileira, que se ressente do descontrole dos gastos públicos no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A pressão sobre os preços deve se acentuar com a forte alta do petróleo. Há um engarrafamento de 150 petroleiros no estreito. Segundo o portal Investing.com, às 7h52, o preço do barril de petróleo do tipo brent estava sendo negociado a US$ 83,22, uma alta de 7,8% em relação à segunda (2) e de 18,45% na semana.

Para o Brasil, o impacto macroeconômico imediato deve ser uma maior desancoragem das expectativas inflacionárias. A prévia da inflação de fevereiro – 0,84% – surpreendeu o mercado e ameaça o ciclo de queda da taxa Selic e uma expansão da atividade produtiva. Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, avalia que o cenário militar “expõe a economia global a um estreito econômico na questão energética”, em análise distribuída pela Blue3 Investimentos.

Os impactos sobre a economia brasileira

O choque externo incide sobre setores e dinâmicas distintas da economia doméstica. No campo dos beneficiados, a posição do Brasil como exportador líquido de petróleo oferece um “colchão” estratégico que pode favorecer a balança comercial e as contas públicas. Companhias como Petrobras, Prio e Brava beneficiam-se diretamente da alta nos preços internacionais, aumentando sua geração de caixa e capacidade de distribuição de dividendos. O aumento do barril também impulsiona a arrecadação via royalties e participações especiais, oferecendo um alento momentâneo ao Tesouro Nacional.

Rogério Ceron, secretário do Tesouro Nacional, avalia que o país pode atuar como um refúgio para capital estrangeiro: “O Brasil está bem posicionado e ele é, provavelmente, tudo mais constante, ele é um ganhador nesse processo”.

O ouro atingiu patamares próximos a US$ 5.400 por onça troy, consolidando-se como refúgio para investidores que buscam preservação de patrimônio.

O passivo do conflito, no entanto, recai sobre os setores dependentes de crédito e sobre os custos de produção. O agronegócio enfrenta o encarecimento de fertilizantes nitrogenados e a possível interrupção de exportações para o Irã, um dos maiores compradores de milho brasileiro.

Eduardo Amorim, especialista da Manchester Investimentos, adverte que o choque “pressiona os Bancos Centrais a manterem políticas monetárias restritivas por mais tempo, o que, por consequência, drena o ritmo da atividade econômica global”.

“A atividade econômica (PIB) deve perder tração, prejudicada pelo crédito caro e pelo menor poder de consumo das famílias”, completa o especialista.

O choque do petróleo chega sobre uma base de consumo já fragilizada antes mesmo do conflito. Segundo dados da Serasa de dezembro de 2025, 81,2 milhões de brasileiros — 57% da população economicamente ativa — têm dívidas em atraso, o maior patamar da história. A confiança do consumidor, medida pela FGV, estava em 87,3 pontos em janeiro de 2026, nível próximo ao registrado durante a pandemia. O varejo reflete essa paralisia: o setor cresceu apenas 0,1% em 2025, ante 4,1% em 2024. “O resumo de 2026 deverá ser marcado por um frágil equilíbrio entre o controle da inflação e o peso do endividamento”, avalia Eduardo Yamashita, sócio-diretor da Gouvêa Inteligência.

A necessidade de uma postura mais contracionista pelo Copom pode elevar a Selic, aprofundando o hiato do produto negativo e aumentando o risco de uma recessão técnica no Brasil, ressalta Roberto Simioni, da Blue3 Investimentos.

Autor: Gazeta do Povo

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