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o estreito que pode sufocar o Brasil

Pela primeira vez em quatro anos — desde a pandemia da Covid-19 —, a economia brasileira cresceu menos de 3%. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na manhã desta terça-feira (3), mostram que o PIB avançou 2,3% em 2025, alcançando R$ 12,7 trilhões em valores correntes. O PIB per capita chegou a R$ 59.687,49, com crescimento real de 1,9% frente a 2024.

Desde o primeiro trimestre do ano passado, quando a economia cresceu 3,6% em 12 meses, o ritmo de expansão não para de cair. O quadro se agrava com o conflito no Oriente Médio: a morte do aiatolá Ali Khamenei, no poder no Irã desde 1989, e o bloqueio do Estreito de Ormuz por forças iranianas ameaçam aprofundar essa tendência ao longo de 2026.

As três grandes atividades econômicas cresceram no ano: agropecuária (11,7%), serviços (1,8%) e indústria (1,4%). Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, destaca que “quatro atividades — agropecuária, indústrias extrativas, informação e comunicação e outras atividades de serviços — contribuíram com 72% do total do volume do valor adicionado em 2025, atividades estas menos afetadas pela política monetária contracionista”.

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Na agropecuária, os destaques foram os recordes na produção de milho (23,6%) e soja (14,6%). Na indústria, a extração de petróleo e gás impulsionou as indústrias extrativas a um crescimento de 8,6% no ano. Os serviços avançaram em todas as atividades, com liderança de informação e comunicação (6,5%) e atividades financeiras (2,9%).

Juros altos contêm famílias e travam os investimentos

Os juros elevados, com a Selic a 15% ao ano, estão na raiz da desaceleração do consumo e dos investimentos. O consumo das famílias cresceu apenas 1,3% — queda expressiva frente aos 5,1% registrados em 2024. Apesar da melhora no mercado de trabalho e dos programas de transferência de renda, o crédito caro corroeu o poder de compra. O consumo do governo avançou 2,1%.

Nos investimentos, a formação bruta de capital fixo (FBCF) cresceu 2,9%, puxada pela importação de bens de capital e pelo setor de construção. Ainda assim, a taxa de investimento recuou para 16,8% do PIB — ante 16,9% em 2024 —, enquanto a taxa de poupança ficou em 14,4%. Com o custo do dinheiro nas alturas, empresas adiam expansões e famílias recuam nas compras de maior valor.

O choque do petróleo chega sobre uma base de consumo já fragilizada. Segundo dados da Serasa de dezembro de 2025, 81,2 milhões de brasileiros — 57% da população economicamente ativa — têm dívidas em atraso, o maior nível da história.

A confiança do consumidor, medida pela FGV, recuou em janeiro de 2026 a um patamar próximo ao da pandemia — sinal de que o humor das famílias segue deteriorado. O varejo reflete essa paralisia: cresceu apenas 0,1% em 2025, ante 4,1% em 2024.

Déficit fiscal mantém inflação pressionada

O descontrole nos gastos públicos no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é um dos principais fatores que mantém a Selic em níveis reais elevados. Nos três primeiros anos de mandato, o endividamento público aumentou sete pontos percentuais, segundo o Banco Central — mais do que o dobro do registrado nos sete anos anteriores à posse de Lula.

O excesso de gastos pressiona a inflação e obriga o BC a manter os juros altos, dificultando investimentos e a expansão dos negócios. A prévia da inflação de fevereiro — 0,84% — surpreendeu o mercado e reforça o risco de que o ciclo de queda da Selic seja adiado.

As projeções do mercado financeiro confirmam a tendência: o ponto médio das expectativas de crescimento do PIB para 2026 coletadas pelo Banco Central estava em 1,8% na sexta-feira (27).

Guerra no Oriente Médio joga mais lenha na fogueira

Um dos fatores que pode ampliar a desaceleração foi o desencadeamento da “Operação Epic Fury”, no sábado (28), com ataques coordenados dos EUA e Israel contra o Irã. A morte de Khamenei instaura um estado de incerteza radical que ameaça diretamente a trajetória de crescimento do PIB brasileiro em 2026.

O bloqueio do Estreito de Ormuz — por onde transita 20% da energia mundial — pela Guarda Revolucionária Islâmica agrava as já frágeis condições econômicas domésticas. Há um engarrafamento de 150 petroleiros no estreito. Segundo o portal Investing.com, às 10h15, o barril de petróleo tipo brent era negociado a US$ 83,25 — alta de 7,1% em relação à segunda(2 de março) e de 17,5% na semana.

Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, avalia que o cenário militar “expõe a economia global a um estreito econômico na questão energética”.

Brasil: quem ganha e quem perde com o caos no Oriente Médio

O conflito no Oriente Médio não afeta a economia brasileira de forma uniforme — há setores que saem fortalecidos e outros que encaram perdas diretas.

Entre os beneficiados, o Brasil, como exportador líquido de petróleo, tem um “colchão” estratégico que favorece a balança comercial. Petrobras, Prio e Brava se beneficiam diretamente da alta nos preços internacionais, e a arrecadação via royalties também deve crescer. O ouro atingiu patamares próximos a US$ 5.400 por onça troy, consolidando-se como refúgio de patrimônio.

No passivo, o agronegócio enfrenta o encarecimento de fertilizantes nitrogenados e a possível interrupção de exportações para o Irã, um dos maiores compradores de milho brasileiro. Eduardo Amorim, especialista da Manchester Investimentos, adverte que o choque “pressiona os Bancos Centrais a manterem políticas monetárias restritivas por mais tempo, o que, por consequência, drena o ritmo da atividade econômica global”. “A atividade econômica deve perder tração, prejudicada pelo crédito caro e pelo menor poder de consumo das famílias”, completa.

“O resumo de 2026 deverá ser marcado por um frágil equilíbrio entre o controle da inflação e o peso do endividamento”, avalia Eduardo Yamashita, sócio-diretor da Gouvêa Inteligência.

Autor: Gazeta do Povo

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