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Mulher ainda é julgada por não querer ter filhos – 03/03/2026 – Equilíbrio

“Deus não deu filhos a ela porque ela não tem capacidade de amar.” A frase foi dita na quinta-feira (26) pela atriz Solange Couto sobre a jornalista Ana Paula Renault, no Big Brother Brasil. A declaração mostra que, apesar dos avanços feministas sobre os direitos reprodutivos das mulheres, muitas ainda são julgadas pela decisão de não terem filhos.

Entre 2000 e 2022, o número de mulheres entre 50 e 59 anos que não tiveram filhos subiu de 10% para 16,1%, segundo o Censo 2022. Em uma entrevista ao programa Roda Viva, Paola Oliveira, 43, disse que tinha vergonha e já se sentiu “menos mulher” por decidir não ter filhos. Sobre os julgamentos, a atriz contou que perdeu uma oportunidade de publicidade com a justificativa de que ela era “menos família”.

A pressão sobre mulheres que não querem ter filhos não é apenas sobre celebridades. A advogada Lina Santiago, 49, nunca sonhou em ser mãe. “Eu pensei que quando ficasse mais velha, essa vontade apareceria. Mas a verdade é que nunca apareceu.”

Além dos questionamentos sobre seu relógio biológico e um possível arrependimento, Lina conta que a pressão também vinha de pessoas que tentavam convencê-la a escolher a maternidade e que, apesar de ser trabalhoso, valeria a pena.

“A cobrança é sempre maior para a mulher”, diz. “Quando estou junto com meu companheiro, as pessoas falam mais, mas separadamente ninguém nunca cobrou ele sobre isso. A mim sim, as pessoas sempre perguntam.”

Cimara da Silva, 49, proprietária de uma corretora de seguros, também nunca teve o desejo de ter filhos. Ela diz que nunca sentiu uma pressão para ser mãe, mas que foi muito julgada quando tomou a decisão em conjunto com seu marido.

Ela conta que ouviu frases como “não vão ter filhos?”, “as mulheres nasceram para ser mães”, “você vai se arrepender mais tarde”, “Deus vai te castigar porque mulher tem que ser mãe”, “você não teve porque não pode engravidar?”. Mas a frase que ela julga ser a pior e mais egoísta foi: “quem vai cuidar de você quando envelhecer?”

Por trás de frases como essa, a psicanalista Vera Iaconelli, colunista da Folha e autora do livro “Manifesto Antimaternalista”, identifica na base do julgamento uma fantasia coletiva. “Ainda vivemos a fantasia de que a maternidade nos faz pessoas melhores. Quando, de fato, as razões que nos levam a ter filhos são de cunho egoísta, são desejos particulares que respondem a anseios individuais.”

O julgamento, diz ela, é mais duro com quem escolhe não ter filhos do que com quem não pode. A mulher que não pode ter filhos costuma ser objeto de dó e tida como infeliz, ao passo que a que não quer é tratada entre louca e má.

Lina e Cimara nunca sentiram o desejo de ser mães, mas a psicóloga Flávia Urbini, 47, sim. Sua trajetória de vida, no entanto, a levou para outros caminhos. Um evento específico marcou essa mudança: no início da pandemia da Covid-19, Flávia engravidou de seu marido e teve um aborto espontâneo.

“Tudo ficou mais claro [após o aborto], e me tornar mãe não mais cabia no meu mundo e não fazia mais sentido dentro dos meus planos. Apesar de amar crianças, era muito claro que isso não significava desejar ser mãe.”

Percebeu então que a escolha de não ser mãe pode resultar em uma avaliação crítica por parte de outras pessoas. Ainda hoje, escuta sugestões de que estava errada e comentários sobre como preenche sua vida com outras coisas, como viagens e o esporte, pela falta de filhos.

Vera aponta que o julgamento de que a maternidade satisfaz qualquer mulher exerce uma pressão violenta, levando-as a acreditar que há algo de errado com elas. “Ter um filho não é garantia nem de amar, nem de ser amado. Pode existir muito amor no gesto de não ter filhos”, diz.

A antropóloga Heloísa Buarque de Almeida, professora da USP (Universidade de São Paulo) com foco em questões de gênero, explica que a hipervalorização da maternidade tem raízes históricas e culturais.

Desde o século 19, diz, especialmente com as mulheres das camadas sociais médias e altas, existe essa ideia de que é importante ser mãe. “Recentemente, isso aparece como uma espécie de obrigação, como se a vida só fosse completa se você casar e tiver filhos.”

As diversas ondas dos movimentos feministas, que questionam essas naturalizações impostas às mulheres, alcançaram diversos avanços para que seja possível fazer essa escolha. Mas nem todos irão abraçar esses ideais.

Para Almeida, na sociedade na qual vivemos, a idealização de que as mulheres têm um instinto natural para a maternidade tem também um marcador de classe. Ela afirma que a maternidade não é uma escolha igual para diferentes mulheres em diferentes classes sociais.

O simples fato de poder considerar negar a maternidade como uma escolha consciente não é acessível para todas as mulheres. Vera diz que é difícil imaginar coisas para além do que conhecemos. Para que isso mude, ela afirma que é preciso entender que é um desejo reconhecível e legítimo.

A fala de Solange sobre Ana Paula também repercutiu pelo fato de ser uma mulher falando sobre outra, o que não é incomum no cotidiano. Para a psicanalista, nem sempre as mulheres têm um espaço no qual elas podem fazer frente à opressão do machismo e do patriarcado.

Cida Gonçalves, ex-ministra das Mulheres do Brasil e especialista em políticas públicas de gênero, afirma que existe um retrocesso no comportamento da sociedade brasileira em relação aos direitos reprodutivos das mulheres.

Para ela, a pauta da mulher poder decidir ter filhos ou não não avança porque o sistema patriarcal sustenta que controlar o corpo da mulher, seus direitos sexuais e reprodutivos é uma forma de dominá-la, mantendo-a em seu lugar de submissão.

“Quando você não discute os direitos sexuais e reprodutivos e proíbe na escola a discussão sobre a educação sexual, você está proibindo as meninas de terem acesso a informação sobre o seu corpo”, afirma.

Autor: Folha

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