“O mercado sul-americano é pequeno para o Flamengo“. A frase de José Boto ao Tribuna Expresso, de Portugal, parece exalar soberba, mas retrata a realidade. Outras declarações do dirigente, na mesma entrevista, trazem, sim, um nariz em pé desnecessário. O Flamengo encontra-se em um limbo entre dominar o mercado da América do Sul e ter dinheiro para pescar na Europa, mas… estar na América do Sul, onde é mais difícil atrair jogadores para uma aventura muitas vezes considerada “exótica”.
O rubro-negro tem capacidade de pagar € 25 milhões em Samu Lino e tem o poder de convencer um brasileiro em um importante clube europeu a ter carreira em seu país. Ao mesmo tempo que ofereceu € 8 milhões ao River Plate por Enzo Fernandez, mas perdeu a queda de braço para o Benfica. No ano passado, o clube chegou a fazer uma proposta de € 6 milhões por Mikey Johnston, um atacante irlândes que atua na segunda divisão inglesa.
Não há dúvidas que o Flamengo tem dinheiro para contratar. A receita de 2025 foi de R$ 2 bilhões, perto de € 340 milhões. A quantia posiciona o clube no top 20 mundial. Seria a quarta maior receita da Espanha e da Itália, a segunda maior da França, a terceira da Alemanha e a oitava na Inglaterra.
Por que então estaria no limbo? Porque por mais que mapeie o mercado brasileiro ou sul-americano, Estêvão e Endrick vão preferir a Europa do que um passo ao lado por aqui, Enzo vê o Benfica com maior potencial para dar um salto na carreira do que sair da Argentina para o país vizinho. Entre os jogadores que já estão na Europa o problema não é convencê-los a jogar no Flamengo, mas, sim, jogar no Brasil (ou fora da Europa).
Saúl, sem espaço no Atlético de Madrid, e depois de passagens apagadas por Sevilla e Chelsea, topou. Memphis, que ficou sem contrato e não encontrou nada interessante na classe média europeia, conseguiu um salário europeu e veio para o Corinthians. Mas, convenhamos, eles não são a regra. O normal é um jogador preferir o Aston Villa, o Bétis, o Napoli (todos com orçamento inferior ao do Flamengo) a vir jogar no Brasil.
Sobram os Mikeys Johnstons e jogadores mais periféricos que o orçamento do clube sugere. O centro do futebol não é aqui e não há nada que o Flamengo possa fazer para mudar isso. A Árabia Saudita tem mais dinheiro que os grandes europeus e consegue levar para sua liga supernomes, mas motivados apenas pelo dinheiro (por mais que sejam muito bem pagos para dizer o contrário).
O Flamengo não tem o dinheiro árabe e não tem a atração europeia. Tampouco será um Bayern de Munique, que tem o poder total de convencer e absorver jogadores que se destacam pelos rivais Borussia Dortmund, Bayer Leverkusen, etc. Porque os Estêvãos e Endricks terão como pretendentes Real Madrid e Chelsea.
O outro problema, que justifica a declaração de José Boto, é que o time já atingiu um certo patamar. Não vale a pena contratar por contratar. É preciso subir o nível do elenco. E não é fácil ir ao mercado e contratar um atacante melhor que Pedro, um meia que brigue com Arrascaeta, um volante melhor que Pulgar. E depois não será fácil administrar um elenco com ótimos jogadores passando boa parte da temporada no banco.
O Flamengo tem um problema. E, para não deixar passar, deve também um pedido de desculpas a Renata Mendonça, pelas declarações misóginas e insensíveis de seu presidente. Não basta ser rico. É preciso ter nível também.
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