Não se deixe levar pelo prenome: Christian Angermayer quer apropriar-se do que ele mesmo vê como dádiva para lidar com o trauma, o medo e o pânico da vida dominada pela inteligência artificial (IA) –os psicodélicos. Ele prega amor, fé e esperança, mas em patentes e na democracia à Donald Trump.
No dia 11, ele entusiasmou-se ao anunciar que sua empresa Atai Beckley havia recebido nos EUA a propriedade intelectual do composto EMP-01, variante de MDMA (ecstasy). “A Atai é dona do setor [de pesquisa psicodélica]”, escreveu numa rede social.
MDMA foi o psicodélico que chegou mais perto de aprovação como droga psiquiátrica, para transtorno de estresse pós-traumático. Fracassou na FDA em 2024, mas, com a simpatia do governo Trump, pode dar a volta por cima em 2026.
Angermayer se perfila como pioneiro por criar a Atai, ainda em 2017, com uma tese clara: psicodélicos são tratamentos médicos e por isso carecem de aprovação da agência de fármacos. Como a licença custa caro, milhões de dólares para testes clínicos de fase três, só seria viável com proteção patentária.
“Se [os concorrentes] um dia chegarem ao ponto de comercialização, vão dar de cara com nossas patentes”, argumenta. “Construímos um fosso de PI [propriedade intelectual] muito forte, defensável.”
Jules Evans esclareceu no blog Ecstatic Integration que o empresário não foi o primeiro a chegar no campo. Antes da Atai surgiram a Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (Maps), em 1986, que daria origem à companhia Lykos, e o Instituto Usona, em 2014, do bilionário Bill Linton, patrocinador de estudo de fase três com psilocibina para depressão.
A Atai é sócia da Compass Pathways, que toca outro fase três de psilocibina (COMP360). Mesmo que as patentes EMP-01 e COMP360 criem dificuldades para Usona e Lykos (hoje Resilient Pharmaceuticals), há dezenas de outros psicodélicos em diversas fases, muitos imunes ao fosso da Atai.
É questionável, ainda, se compostos psicodélicos podem ser patenteados, pois na origem muitos são produtos naturais. Isso sem considerar que cogumelos Psilocybe, MDMA, LSD e DMT nunca deixaram de ser usados em contextos não clínicos, como rituais de povos originários, igrejas ayahuasqueiras ou círculos neo-xamânicos.
A vertente de uso comunitário tem motivado inovações legislativas para acesso, como em Oregon, Colorado e Novo México. E razões humanitárias já deram margem a prescrições médicas especiais, em países como Austrália, Alemanha, Brasil, Canadá, Nova Zelândia, República Tcheca e Suíça.
A Atai está longe de ser dona do setor, embora trabalhe para grilar o território. A estratégia seria aprisionar as práticas milenares no curral da biomedicina, como Angermayer defendeu em entrevista ao diário Süddeutschland Zeitung.
A Atai, afirmou ao jornalista Jürgen Schmieder, trabalha não pela legalização de psicodélicos, mas por seu retorno como medicamento aprovado: “Sob as condições mais rigorosas, o que significa que só poderia ser tomado sob supervisão médica, assim como a quimioterapia, que também não pode ser feita em casa.”
O investidor está de olho no mercado bilionário criado pela deterioração da saúde mental sob o que chama de “transtorno de ajuste”. Psicodélicos seriam o veículo de amor, fé e esperança capazes de armar as pessoas para enfrentar a mudança vertiginosa do mundo com IA, que ele considera libertadora.
Angermayer é um otimista da ruptura, legítimo membro da confraria trans-humanista dos “techbros” Elon Musk, Mark Zuckerberg e Peter Thiel. Bilionários que acreditam em colonizar Marte, em imortalizar suas mentes e em deixar-se conduzir por Trump a um futuro esplendoroso com os EUA vencendo a China.
“Meu lema favorito: A única coisa que você precisa para ter sucesso, que não custa nada e está disponível para todos: disciplina”, prescreve. Pense num híbrido de Pablo Marçal e Marco Rubio –mas pode também chamar de Grinch.
Feliz Natal.
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