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Testosterona separa homens entre alfas e fracos – 04/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

A testosterona é o hormônio do momento nas redes sociais. Vídeos sobre como conseguir níveis mais altos da substância e seus supostos benefícios chamam a atenção e impulsionam produtores de conteúdo, mas esse material desconsidera aspectos importantes de saúde.

Publicações de exames de testosterona livre, que mostram a disponibilidade do hormônio no sangue, são publicados com frequência. Eles expõem níveis muito além do que o corpo consegue produzir, que é de 350 a 1.000 ng/dL (nanogramas por decilitro). Há resultados de 2.000 a 12.000 ng/dL, o que pode ser considerado uma anomalia.

Para efeito de comparação, se um grama fosse do tamanho de um carro popular, um nanograma seria menor que um parafuso desse veículo. Um decilitro seria o equivalente a meio copo de requeijão de sangue —100 ml. Um adulto tem de quatro a seis litros de sangue.

No imaginário de quem faz essas publicações, a testosterona cumpre uma função além da biológica. Ela é um símbolo de masculinidade forte, potência sexual e destaque individual. É como se o homem com maior disponibilidade do hormônio fosse uma espécie de “macho alfa”, o líder que domina, e, portanto, é melhor que os demais.

Mas os riscos desses níveis muito elevados são desconsiderados, explica Bruno França de Resende, membro da Sociedade Brasileira de Urologia e urologista do Hospital Vera Cruz.

Ele afirma que os benefícios da testosterona alta para o homem são inúmeros. Geram, de fato, sensação de bem-estar, potência sexual, melhora do sono e ganho rápido de massa muscular na mesma medida em que prejudicam a saúde.

“A testosterona é um dos principais hormônios masculinos, mas em níveis supra fisiológicos, vai agir na medula óssea e deixar o sangue mais grosso, por exemplo. Isso aumenta o risco de trombose das pernas, infarto e AVC (Acidente Vascular Cerebral)”, explica o médico.

Outro problema é cardíaco. Resende explica que o músculo do coração tem muitos receptores à substância. Portanto, “quanto mais [testosterona], maior ficará o coração, já que ela tem efeito anabólico”.

Um coração maior leva a riscos de insuficiência cardíaca e arritmia. “E, diferente dos músculos dos braços ou das pernas, o coração não volta a diminuir”, diz o médico.

Há ainda danos menores, como o surgimento de espinhas por todo o corpo e pelos em locais incomuns. Não só: o uso prolongado pode causar calvície e ginecomastia, crescimento anormal dos peitos nos homens —adquirindo formato feminino.

“Existem revisões que mostram redução do HDL, o colesterol bom, e aumento da pressão arterial com o uso crônico da testosterona”, diz o médico George Mantese, especialista em saúde hormonal.

Alcançar níveis tão elevados do hormônio só é possível com uma ajudinha externa, isto é, com esteróides anabolizantes. O mais popular chama-se durateston, uma mistura de propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato de testosterona.

O fármaco é prescrito para tratar hipogonadismo (baixa testosterona). Deve-se ter uma receita para adquiri-lo, mas essas substâncias circulam de forma clandestina, com publicidade na internet.

EFEITO SUPER-HOMEM

Os adeptos da testosterona alta defendem que isso lhes confere super poderes.

São eles, por exemplo, transar todos os dias, trabalhar mais e cansar menos, ganhar autoestima e afastar períodos de tristeza.

Por associação, um homem com mais testosterona é mais “valente”, bom de cama, proativo, para citar algumas das percepções, que ganham força com os ideais masculinistas. Com níveis superiores a 2.000 ng/dL, os músculos crescem mesmo sem estímulos.

Segundo Resende, estudos indicam redução global de testosterona nos homens nas últimas décadas. Esse fenômeno é associado a estresse, sedentarismo, sono irregular, consumo de ultraprocessados e à presença de microplásticos no organismo. “Os níveis de um homem de 50 anos, hoje, se assemelham a um de 70 do passado”, diz o médico.

Essa redução explica em partes o culto ao hormônio, em um contexto de busca geral por performance.

Caso seu exame mostre índices abaixo de 500 ng/dL, há estratégias para aumentá-los, diz Mantese.

  • Exercícios físicos: musculação e corrida ajudam a manter os níveis e, eventualmente, aumentá-los.
  • Emagrecimento: a redução de gordura corporal ajuda em elevações significativas do hormônio.
  • Sono: dormir bem garante a manutenção dos níveis.
  • Estresse: excesso de cortisol é associado à menor produção de testosterona. Portanto, reduzir os níveis de estresse ajuda a manter os índices.
  • Alimentação: produtos como azeite, peixes e fibras podem ajudar. Comer pouca gordura, por outro lado, pode reduzir os índices.
  • Vitamina D: estudos observacionais sugerem níveis menores em pessoas com deficiência do nutriente. São, contudo, associações, ou seja, não cravam relação de causa e consequência.

Embora alguns suplementos prometam elevação rápida da produção hormonal, isso raramente acontece em grandes percentuais. Mantese diz que suplementar pode ser uma opção: se não elevar, também não oferece riscos. Porém, a suplementação não exclui a necessidade das demais práticas.

Autor: Folha

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