Lesões nas costas como a que afeta o tenista João Fonseca exigem um planejamento especial de treinos no estilo “luz e sombra”, ou seja, alternando cargas altas e cargas baixas com dias sem treino. É o que diz à Folha Kevin Sims, chefe da fisioterapia da federação australiana de tênis, ressalvando que ele não se refere especificamente ao caso do brasileiro, por desconhecer os detalhes.
“Você precisa de um programa de treinamento muito bem planejado, para que tenha dias em que treina intensamente, mas também dias de recuperação. E também é importante ter dias em que você nem treina”, disse o gerente nacional de fisioterapia da Tennis Australia.
O brasileiro de 19 anos mencionou o problema nas costas em entrevista à imprensa internacional, dada em inglês na semana passada, na Austrália, logo após desistir dos torneios de Brisbane e Adelaide.
Nesta terça-feira (20), o brasileiro foi eliminado na primeira rodada do Australian Open pelo norte-americano Eliot Spizzirri por 3 sets a 1.
“Eu diria que precisava de mais tempo […] Dei o meu melhor. Acho ruim não ter jogado a 100%, mas ao mesmo tempo, isso me dá maturidade para continuar, para entender meu corpo, para entender meus limites”, afirmou Fonseca após a partida.
“Não era o dia. Mas acho que ainda estou confiante, ainda estou jogando bem. Estou tendo bons treinos. Só preciso de ritmo. Acho que esta temporada vai ser ótima para mim”, acrescentou o tenista carioca.
Embora Fonseca e seu estafe tenham dado poucos detalhes sobre as dores lombares, uma análise feita pela reportagem, com base em informações divulgadas publicamente, parece confirmar a necessidade de uma gestão cuidadosa.
Um dos maiores especialistas em desordens músculo-esqueléticas no tênis, Kevin Sims está cuidando dos jogadores de seu país no Aberto da Austrália. Ele é autor de um artigo acadêmico sobre um caso que lembra, em alguns aspectos, o de Fonseca.
Intitulado “Reabilitação de lesões ósseas lombares por estresse em jogadores de tênis”, o trabalho foi publicado em 2024 na revista científica Aspetar Sports Medicine Journal. Trata do caso de um tenista de alto nível, de 18 anos, não identificado, com forte dor nas costas na hora de sacar e histórico de fratura por estresse na região lombar aos 13 anos de idade.
“O que às vezes acontece é que as pessoas não têm uma cura completa e adequada da fratura, e então ela pode progredir de um lado para os dois lados, e você pode ter problemas contínuos mesmo quando adulto. A maneira ideal de tratar uma fratura por estresse em um jovem é dedicar tempo para permitir que ela realmente cicatrize”, explica Sims.
A assessoria de Fonseca afirma que o tenista não tem nenhuma sequela da fratura.
Segundo Sims, um jovem de 19 anos ainda não tem a coluna lombar de um adulto. “A resistência óssea não atinge os níveis completos até em torno dos 22 anos. Ainda há potencial para um fortalecimento.”
Na entrevista em Adelaide, Fonseca disse textualmente: “Eu nasci com algo nas minhas costas, e às vezes fica mais rígido, e sim, eu já tive uma fratura por estresse há cinco anos, mas é algo que vai estar no meu corpo, então preciso lidar com isso. E sim, estou apenas tentando me recuperar da melhor forma. Fizemos ressonância magnética, e não é nada muito sério, mas pode ficar sério.”
Questionado sobre qual golpe específico o faz sentir as costas, Fonseca referiu-se especificamente ao saque: “É mais, quero dizer, mais rotação, mas sim, saque, então sim, ontem eu treinei e senti um pouco, então sim, é apenas algo que precisamos cuidar.”
Diante da repercussão, sua assessoria divulgou que ele “nasceu com a coluna retificada e sofreu uma fratura por estresse há cinco anos, quando ainda era juvenil”.
Segundo o site da Federação Internacional de Tênis, o carioca ficou afastado de torneios internacionais entre dezembro de 2020 e outubro de 2021, o que pode corresponder ao período da fratura mencionada.
Em novembro de 2021, quando Fonseca ganhou um torneio júnior em Salvador, o fisioterapeuta Eduardo Delorme, da Motus Reabilitação, no Rio de Janeiro, postou no Instagram: “Superou inúmeras adversidades ao longo do ano com muita maturidade e paciência. Apesar da pouca idade, um exemplo de comprometimento! Provavelmente, um dos casos mais desafiadores e proporcionalmente motivantes que já me deparei.”
Em agosto deste ano, Delorme publicou: “Há cerca de dez anos, recebi no @motus_reabilitacao um garoto franzino, cabeludinho e de boné pra trás, com algumas disfunções e um futuro promissor no tênis profissional. Vivemos as mais diversas experiências ao longo dessa jornada, desde dores de um corpo duramente sobrecarregado e algumas sofridas derrotas a vitórias emblemáticas”.
O próprio Fonseca e pessoas próximas a ele comentaram o post, agradecendo pelo trabalho.
No estafe que viaja pelo mundo com o tenista brasileiro, é presença constante o fisioterapeuta Egídio Magalhães Jr., muitas vezes visto sentado no box reservado à equipe, ao lado dos treinadores.
No final de outubro, após o Masters 1000 de Paris, Fonseca anunciou que não jogaria mais em 2025, devido a uma lombalgia. Durante uma das partidas, precisou de massagem nas costas.
Antes do Aberto da Austrália, disputou apenas uma partida de exibição contra o espanhol Carlos Alcaraz, número um do mundo, em Miami, em dezembro.
Lesões crônicas encurtaram ou prejudicaram a carreira de grandes tenistas, como Gustavo Kuerten (quadril) e o argentino Juan Martín del Porto (pulso). Outros, como o espanhol Rafael Nadal, administraram as dores por toda a carreira.
Atualmente, um jogador da mesma geração de Fonseca enfrenta problemas crônicos nas costas. O francês Arthur Fils, 21, sofreu no ano passado uma fratura por estresse na quinta vértebra lombar. A família de Fils acusou a Federação Francesa de Tênis de tê-lo forçado a jogar Roland Garros, em junho, com dores, agravando a lesão.
O francês, que chegou a ser o número 14 do ranking mundial, caiu para o 42º posto. Ele desistiu de disputar o Aberto da Austrália.
Autor: Folha







