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Itália: Setor de luxo em crise por exploração trabalhista – 27/12/2025 – Economia

O rótulo “Made in Italy” há muito é sinônimo de sofisticação artesanal e uma forma de vender alguns dos vestidos, bolsas e sapatos mais caros que o dinheiro pode comprar. Em 2025, porém, o selo de qualidade dos bens de luxo enfrentou uma ameaça sem precedentes.

Problemas trabalhistas na cadeia de fornecimento da moda italiana são conhecidos há anos. Mas nem as marcas nem os clientes pareciam dar muita atenção às reportagens que apontavam para os salários insuficientes dos trabalhadores por trás da alta-costura.

Uma recente série de investigações conduzidas pelo promotor milanês Paolo Storari —mirando alguns dos nomes mais poderosos do setor, como Loro Piana, Dior, Tod’s e Armani— transformou um tema escanteado em escândalo nacional.

Em documentos judiciais apresentados no ano passado, promotores afirmaram ter descoberto um sistema de exploração “tão enraizado e comprovado [que poderia] ser considerado parte de uma política empresarial mais ampla voltada exclusivamente a aumentar o lucro”.

As apurações seguem em curso. Neste mês, os promotores citaram 13 marcas de luxo, entre elas Gucci, Versace e Yves Saint Laurent, como suspeitas de subcontratar fabricantes que exploravam trabalhadores migrantes na Itália. Nenhuma dessas marcas é alvo de investigação formal.

À medida que se acumulam investigações, batidas policiais e acusações, a maioria dos executivos das marcas adota postura defensiva ou simplesmente se recusa a comentar.

A associação industrial Confindustria Moda, porém, afirmou estar “gravemente preocupada” com o crescente espetáculo midiático, que poderia causar “um dano injustificado e profundo” ao setor de luxo italiano.





O que vem acontecendo na cadeia de fornecimento italiana não é novidade. O que mudou agora é a presença de um promotor determinado, atuando de forma sistemática para apurar o que ocorreu, uma indústria do luxo que reage ruidosamente e uma escalada real das tensões entre os dois lados

Enquanto a moda rápida se tornou sinônimo de denúncias de exploração trabalhista, os altos preços cobrados pelas grifes de luxo criaram a suposição de que seus produtos são feitos por artesãos altamente qualificados e bem remunerados.

Mas, assim como as varejistas de fast fashion, as marcas de luxo terceirizam parte da produção, seja o zíper de uma bolsa ou a costura de um vestido.

A forte demanda por artigos de luxo nas últimas duas décadas, sobretudo por parte de consumidores chineses, aumentou a pressão sobre os fabricantes, levando alguns a terceirizar ainda mais etapas da produção. Essas pressões foram agravadas por um novo salto da demanda durante o boom da pandemia.

Na Itália, onde não há salário mínimo nacional, os trabalhadores estão particularmente expostos à exploração. Pela legislação italiana, prestadores de serviço precisam de autorização por escrito das empresas para subcontratar, mas as marcas envolvidas nas investigações afirmam não ter dado consentimento e dizem que fornecedores irregulares agiram à revelia.

Diego Della Valle, fundador e presidente da fabricante de calçados e bolsas Tod’s, afirmou em outubro que cabe ao fornecedor informar “se repassa partes da produção a subcontratados, mas se escondem isso de nós… isso escapa às nossas [auditorias]”.

Os fornecedores do luxo italiano costumam ser pequenas empresas artesanais, localizadas no interior e submetidas a prazos rigorosos.

Deborah Lucchetti, coordenadora nacional da Clean Clothes Campaign na Itália, afirmou que os fornecedores “estão à mercê das grandes marcas, que impõem condições comerciais, começando por preços baixos demais para cobrir todos os custos”.

“Isso, por sua vez, alimenta um sistema em que os fornecedores de primeiro nível recorrem a subcontratados, impondo condições cada vez mais duras, o que leva a abusos trabalhistas, quase sempre contra migrantes. É uma cadeia de exploração”, acrescentou.

Dior e Armani disseram que as relações identificadas entre seus fornecedores e subcontratados de origem chinesa que exploravam trabalhadores foram falhas raras em sistemas de controle que, em geral, seriam robustos.

As investigações encontraram trabalhadores de um fornecedor da Loro Piana recebendo apenas alguns euros por dia e sendo forçados a jornadas de até 90 horas semanais, em condições inseguras e insalubres.

A marca de cashmere controlada pela LVMH —que afirmou ter rompido com o fornecedor— foi colocada sob administração judicial por um ano para corrigir falhas em sua cadeia de fornecimento.

A Loro Piana não é alvo de investigação criminal, e a medida será suspensa se a empresa cumprir as exigências legais antes do prazo de 12 meses fixado pelo tribunal. Dior e Armani tiveram restrições semelhantes retiradas antes do prazo.

Em um café da manhã durante a Semana de Moda de Milão, em setembro, muitos executivos do setor reclamaram que as investigações haviam exagerado problemas pontuais de suas cadeias de fornecimento.

Menos de um mês depois, Della Valle rompeu o silêncio para atacar Storari pessoalmente, dizendo que o promotor “deveria se envergonhar” do dano que estaria causando à indústria de luxo do país.

“É absolutamente inadmissível que um promotor acorde um dia e manche a [nossa] reputação, tratando-nos como criminosos e espalhando falsidades”, disse Della Valle. “Esta é a sexta investigação do mesmo promotor contra o setor de luxo. Todo o sistema está em perigo.”

Apenas semanas depois, Storari colocou a Tod’s e três de seus executivos sob investigação por suspeita de abusos trabalhistas.

No café da manhã, Carlo Capasa, presidente da Camera della Moda, lobby do setor, disse que “apenas” 30 mil trabalhadores, de um total de 600 mil empregados na cadeia de fornecimento do luxo italiano, eram “irregulares”, ou seja, trabalhavam sem contrato legal.

Capasa acrescentou que ele e outros líderes do setor vinham elaborando novos protocolos para ajudar as marcas a garantir que trabalham com fornecedores certificados anualmente por terceiros.

As iniciativas do setor caminham junto com reformas de iniciativa política. O Senado italiano aprovou em outubro um primeiro pacote de medidas para a moda, incluindo a criação de um sistema de certificação da cadeia produtiva para melhorar a rastreabilidade.

A Prefeitura de Milão, braço local do Ministério do Interior, também busca formular um marco comum de boas práticas e estabelecer um banco de dados centralizado no qual fornecedores possam carregar documentos de certificação.

A participação, porém, é opcional. Críticos afirmam que pactos voluntários pouco farão para combater os problemas estruturais que dão origem aos problemas trabalhistas.

“Ter um banco de dados ou um sistema é positivo, mas, no fim das contas, isso acaba sendo uma cortina de fumaça que protege as empresas”, disse Posner. “As marcas querem dizer que estão fazendo a coisa certa sem mudar fundamentalmente seu modelo de negócios.”

Algumas empresas de luxo, como Zegna, Chanel e Hermès, tentaram se blindar da subcontratação comprando diretamente alguns de seus fornecedores. Outras, como a Brunello Cucinelli, pagam acima da média, argumentando que aceitar margens menores é a única forma de reduzir riscos na cadeia de fornecimento.

Os holofotes agora se voltam para Storari, o promotor combativo que enfrenta os principais nomes de um setor nacionalmente reverenciado, para o qual a reputação é essencial.

Storari liderou investigações importantes, notadamente sobre a infiltração da máfia em torcidas organizadas de futebol —caso que lhe rendeu proteção policial— e demonstra especial interesse por casos de exploração trabalhista.

Ele já criticou modelos de negócio de plataformas de entrega de comida e enfrentou empresas como a Amazon por suposta evasão fiscal. Sua atuação o torna uma figura divisiva na Itália: alguns comentaristas elogiam suas iniciativas, enquanto outros dizem que ele persegue uma agenda política agressiva.

No mês passado, o promotor adotou um tom desafiador ao dizer, em uma conferência em Milão, que “o Estado deveria se orgulhar” de seu trabalho ao expurgar maus atores do mundo do luxo, sinalizando que não pretende recuar.

“Alguns podem dizer que exageramos ou que inventamos regras… mas carta canta.” Em tradução livre, “prova é prova”.

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