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Por que mais pessoas abaixo dos 50 anos desenvolvem câncer – 28/12/2025 – Equilíbrio e Saúde

Um dos maiores desafios epidemiológicos atualmente é entender o fenômeno do aumento dos casos de câncer entre os mais jovens. Associado ao envelhecimento da população, o câncer ganha espaço entre as causas de morte, especialmente em países de renda mais alta, chegando a superar causas como AVC e infarto.

Alguns tumores são especialmente representativos, como os colorretais. Foi esse tipo de câncer que acometeu a cantora Preta Gil, morta em 2025, aos 50 anos, e o ator Chadwick Boseman, estrela de Pantera Negra, morto em 2020, aos 43. Kate Middleton, princesa de Gales, anunciou um diagnóstico de câncer aos 42 anos em 2024, após uma cirurgia abdominal.

Um estudo publicado em 2023 na revista JAMA Network Open analisou 562.145 casos de câncer em pessoas abaixo de 50 anos nos Estados Unidos entre 2010 e 2019. Foi observado que a incidência de câncer precoce aumentou no período, com crescimento anual de 0,28%. Enquanto isso, entre pessoas acima de 50 anos, a incidência caiu 0,87% ao ano. Os cânceres gastrointestinais tiveram o crescimento mais expressivo —2,16% ao ano.

Outra pesquisa, publicada em outubro de 2025 no periódico, analisou 13 tipos de câncer em 42 países. Houve crescimento de incidência entre pessoas mais jovens na maioria dos países analisados para seis tipos de câncer (tireoide, mama, colorretal, rim, endométrio e leucemia). Em 69% dos países, o crescimento foi maior entre jovens do que entre adultos mais velhos.

Um estudo publicado em outubro de 2025 no periódico Annals of Internal Medicine analisou tendências de 13 tipos de câncer em 42 países entre 2003 e 2017, comparando adultos jovens de 20 a 49 anos e adultos acima dos 50 anos. Para seis cânceres —tireoide, mama, colorretal, rim, endométrio e leucemia—, houve crescimento de incidência na maioria dos países entre os jovens. Com exceção do câncer colorretal, aumentos também ocorreram entre os adultos mais velhos. Em 69% dos territórios analisados, o crescimento de câncer colorretal foi maior entre jovens do que entre adultos acima de 50 anos.

No caso do Brasil, não há ainda uma análise que centralize todos os dados e que aponte uma tendência geral, embora alguns estudos evidenciem o crescimento do câncer na população, explica Luís Felipe Martins, chefe da Divisão de Vigilância e Análise de Situação do Inca (Instituto Nacional de Câncer).

Um estudo feito por Martins descreve a evolução epidemiológica na região Norte. Em Manaus, por exemplo, houve tendência de crescimento de 2,7% ao ano entre 2003 e 2018 para homens e de 3,2% ao ano para mulheres na incidência de câncer. Em Belém, houve crescimento de 1,65% ao ano para os homens e de estabilidade para mulheres.

Os dados são dos Registros de Câncer de Base Populacional (RCBP), que coletam informações sobre novos casos e permitem análises de tendências ao longo do tempo. O sistema brasileiro, no entanto, apresenta limitações: só abrange cerca de um quarto da população. Além disso, a estrutura de produção de informações sobre incidência de câncer sofre com subfinanciamento e atraso na entrada de dados no sistema, prejudicando também as análises de cenário.

Mas as sociedades médicas não querem esperar a consolidação estatística para promover mudanças. Várias delas já reduziram a idade recomendada para início do rastreamento de alguns tipos de câncer. Nos Estados Unidos e em outros países, a colonoscopia, antes recomendada a partir dos 50 anos, passou a ser indicada a partir dos 45. No Brasil, a mamografia na rede pública passou a ser oferecida a partir dos 40 anos desde setembro de 2025.

Segundo Angélica Nogueira, presidente da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica), a mudança se justifica pelos dados: 40% dos diagnósticos de câncer de mama no país ocorrem em mulheres abaixo de 50 anos. “Se começarmos o rastreio aos 50 anos de idade, vai haver diagnóstico com estágios da doença mais avançados, o que reduz a chance de cura e traz tratamentos mais agressivos”, analisa.

Mas, além da idade, o que estaria causando esse aumento do câncer na população? Uma suspeita seria a genética. As mutações que facilitam o desenvolvimento de câncer em idade precoce existem e explicam alguns dos casos individuais —mas só cerca de 12% do total dos tumores.

“Apesar de podermos afirmar que pacientes jovens têm maior frequência de câncer hereditário, não podemos creditar à hereditariedade o aumento de incidência”, afirma Augusto Antoniazzi, pesquisador e coordenador do departamento de oncogenética do Hospital de Amor em Barretos.

Restam como explicação as mudanças sociais e de estilo de vida, como o aumento da obesidade, do sedentarismo, do consumo de ultraprocessados, da exposição ambiental a substâncias cancerígenas e do consumo de álcool e do tabagismo.

Para Nogueira, a obesidade tem potencial para ser um fator central. No Brasil, dois terços das pessoas estão acima do peso, e a obesidade é responsável por 13 tipos de cânceres, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Outra hipótese é a alimentação. “O que a gente comia antes não necessariamente tem a mesma composição hoje”, diz Maria Ignez Braghiroli, especialista em tumores gastrointestinais da Oncologia D’Or.

O caminho pelo qual a obesidade, o sedentarismo e a ingestão de ultraprocessados desencadeariam o câncer é a inflamação, ligada também ao envelhecimento e ao consumo de álcool e tabaco e exposição aos raios ultravioleta. Num estado inflamatório crônico, o corpo tenta, sem sucesso, fazer reparos e, nesse processo, desencadeia mutações e transformações nas células, que, cumulativamente, geram o desenvolvimento de tumores.

É possível ainda que o aumento observado se deva à melhora na capacidade diagnóstica —exames mais sensíveis e acessíveis. Além disso, mudanças nos critérios diagnósticos ao longo das décadas podem influenciar as estatísticas. Outros fatores possivelmente relacionados são a microbiota e o uso de antibióticos e a qualidade do sono.

O aumento de casos de câncer em pessoas jovens traz desafios para o sistema de saúde. Um deles é o diagnóstico tardio. Historicamente, o câncer sempre foi considerado uma doença do envelhecimento, e isso moldou a formação médica e a prática clínica. Quando um paciente de 30 anos chega ao consultório com sintomas abdominais persistentes, muitos médicos não consideram o câncer como hipótese diagnóstica inicial.

Mas mesmo quando há recomendação, a adesão ao rastreamento permanece baixa. No caso da mamografia, apenas cerca de 30% das mulheres realizam o exame, e o número pode estar superestimado.

Uma perspectiva é que o rastreamento possa ser mais personalizado. Pessoas da mesma idade podem ter necessidades muito diferentes de rastreamento dependendo de seu histórico familiar, genética e outros fatores de risco.

Além do potencial atraso no diagnóstico, o impacto do câncer em pessoas abaixo de 50 anos pode ser maior do que em outras faixas etárias. “É uma população que está no auge de sua fase produtiva, que tem questões de fertilidade, de construção de uma família e do sustento familiar. Por isso, o impacto psicológico, emocional e socioeconômico é muito grande”, diz Braghiroli.

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