Com eleições no Brasil, Copa do Mundo e turbulências crescentes vindas dos Estados Unidos, o ano de 2026 deve ser ainda mais noticioso do que 2025. Editores da Folha comentam o que deve reger o noticiário nos próximos 12 meses não só na política e na economia, mas também em comportamento e cultura.
Alencar Izidoro (Política)
Lula disputa a reeleição com favoritismo, mas com as sombras de Tarcísio (rival mais difícil, caso concorra), Trump (a união ainda não é estável) e Biden (a campanha não esquecerá os 80 anos do petista). O lançamento de Flávio não encerra a briga pelo espólio de Bolsonaro, e as idas e vindas sobre Tarcísio SP ou BR seguem até abril, no limite do prazo.
Depois do ferro de solda na tornozeleira que municiou Alexandre de Moraes, Bolsonaro tem esperança de cumprir pena em casa. Perde influência, mas a pauta bolsonarista mantém protagonismo com a segurança e a eleição ao Senado, de olho no impeachment de ministros do STF. A chance de Edson Fachin conseguir tirar a Suprema Corte da arena política é tão baixa quanto a de os três Poderes entrarem em harmonia permanente e os congressistas abrirem mão de emendas bilionárias.
Carolina Mandl (Economia)
Agentes econômicos aguardam o início de um ciclo de cortes na taxa básica de juros, hoje em seu patamar mais elevado desde 2006, 15%. Integrantes do mercado financeiro esperam que a Selic termine 2026 em 12,25% , mas o Copom ainda não deu indicação de quando começaria a redução. Além disso, há dúvida se uma potencial turbulência nos mercados com a indefinição na corrida eleitoral pode retardar ou enfraquecer os cortes.
O ano também deve pôr à prova a euforia em torno das empresas ligadas à inteligência artificial, motor das bolsas nos EUA nos últimos anos. Em teste estará a capacidade das empresas de mostrar que seus elevados investimentos e dívidas contraídas trarão retorno a investidores. A preocupação é justificada: empresas de tecnologia têm peso enorme nos índices acionários atualmente e podem derrubar o mercado como um todo.
Dani Braga (Inteligência Artificial)
Fazer previsões sobre inteligência artificial generativa em 2026, quando ela já está em toda parte, é como tentar escolher um filme no streaming: tem opções demais e tudo parece interessante. A aposta, portanto, vai para um spoiler dado em 2025, o “vibe coding”. A tendência deve se sofisticar e popularizar ao permitir que IAs gerem códigos funcionais a partir de comandos em linguagem natural. Com isso, pessoas sem conhecimento técnico podem criar apps, apresentações e produtos digitais mediante instruções básicas.
Em ano eleitoral, os algoritmos, que já ajudam a alimentar e perpetuar bolhas polarizadas, devem trabalhar em escala 7×7, testando sistematicamente a autonomia individual e a capacidade de pensamento crítico. Neste ritmo, será preciso redobrar a atenção em relação aos deepfakes e aos vídeos sintéticos cada vez mais indistinguíveis da realidade.
Juliano Machado (Mundo)
Da América Latina ao Oriente Médio, passando pela Europa, as decisões de Donald Trump devem nortear 2026. Invadirá a Venezuela para derrubar Nicolás Maduro? Vai se engajar novamente para resolver a guerra entre Hamas e Israel (que, aliás, vai às urnas e pode tirar Netanyahu do poder)? Conseguirá selar a paz entre Rússia e Ucrânia? Na região, Brasil, Colômbia e Peru votam para presidente, com provável ingerência da Casa Branca em todas as disputas. Trump ainda terá o desafio interno das eleições legislativas de meio de mandato, nas quais manter o controle do Congresso será crucial. Há muito em jogo para o republicano dentro e fora de casa.
Fábio Haddad (Cotidiano e Esporte)
Segurança pública deve ser o principal tema nas eleições, com candidatos tentando se apresentar como linha-dura. Enquanto isso, facções devem seguir tentando ampliar seu domínio territorial, enquanto as autoridades procuram formas de asfixiar financeiramente esses grupos. O ano deverá ser marcado por uma decisão final da Aneel sobre a Enel em São Paulo após a sequência de apagões. Entraremos em 2026 de olho nas nuvens. Uma seca persistente ameaça os reservatórios, com risco de desabastecimento de água.
Além disso, a entrada em vigor do chamado ECA digital promete uma revolução no uso de redes sociais por crianças. Implantação das limitações do EAD nos cursos superiores deve causar uma reorganização no cenário universitário brasileiro.
Nos esportes, a maior Copa do Mundo da história será um teste para o poder global da Fifa e da capacidade de organização de EUA, México e Canadá. A seleção brasileira não chegará como grande favorita e terá o desafio de driblar as desconfianças ao longo do torneio, marcado pelas despedidas de Messi e Cristiano Ronaldo.
Sílvia Haidar (Saúde e Equilíbrio)
A patente da semaglutida, princípio ativo dos medicamentos Ozempic, Wegovy e Rybelsus, deve cair no Brasil em março, apesar do esforço da fabricante Novo Nordisk para estender o prazo —o registro foi feito em 2006 no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), mas concedido apenas em 2019. Sendo assim, após o primeiro trimestre, outras farmacêuticas, com a aprovação da Anvisa (Agência Nacional e Vigilância Sanitária), poderão produzir e vender genéricos a preços mais baixos, tornando o tratamento para diabetes e obesidade mais acessível para a população.
Giuliana de Toledo (Ambiente)
Sim, 2026 deve seguir o mesmo destino dos últimos anos e entrar para o rol dos mais quentes já registrados na Terra. Em meio a ondas de calor e outros eventos climáticos extremos, o ano promete ser de discussões sobre como dar fim ao uso dos combustíveis fósseis —Brasil, Colômbia e outros países se reunirão em abril para formular uma proposta, promessa feita na COP30, em Belém.
Elvis Pereira (Ciência)
Neste ano, provavelmente veremos o Starship, o megafoguete de 123 metros, alcançar um novo marco no seu desenvolvimento: a recuperação do segundo estágio, com esta parte do veículo (a nave espacial) regressando à Terra e pousando intacta. Até aqui, nos 11 voos realizados desde 2023, a SpaceX já demonstrou a recuperação do primeiro estágio, quando essa parte do veículo (o propulsor) volta à plataforma de lançamento e uma espécie de pinça o segura. O avanço do Starship importa, uma vez que a Nasa conta com ele para levar humanos de volta à superfície da Lua, em 2027.
Silas Martí (Ilustrada)
O ano já começa quente, com “O Agente Secreto” indicado ao Globo de Ouro e em plena campanha pelo Oscar. Wagner Moura tem tudo para repetir o feito de Fernanda Torres no ano passado e levar o prêmio de atuação nesta primeira cerimônia do ano. Já o filme enfrentará duros rivais, entre eles “Foi Apenas um Acidente”, do iraniano Jafar Panahi, e “Valor Sentimental”, do dinamarquês Joachim Trier.
Na música, espere um declínio das canções em inglês, assim como a potência do cinema estrangeiro já demonstra, e o auge de astros como o americano Bad Bunny e a espanhola Rosalía. Nas artes visuais, uma edição enlutada da Bienal de Veneza em maio domina o calendário —a mostra comandada pela camaronesa Koyo Kouoh, morta há um ano, terá seu projeto executado pela equipe, algo inédito na história da exposição italiana.
Cleo Guimarães (F5)
O Carnaval promete ser especial em 2026, e o motivo da expectativa tem nome: Juliana Paes. Em meio a tantas influencers cortando um dobrado para aprender a sambar, ela, para alegria geral, volta a ocupar majestosamente o posto de rainha de bateria da Unidos do Viradouro após 17 longos anos afastada. E ainda teremos Paolla Oliveira, que mulher!, como rainha de honra da Grande Rio, cargo criado para ela.
Outra imagem que deve ser marcante: a apaixonante Tânia Maria, de “O Agente Secreto” fumando seu cigarro ao lado de Wagner Moura no tapete vermelho do Oscar. Já imaginou que delícia? Vamos fazer campanha nas redes, bonecão de Olinda em homenagem aos dois. Depois a gente emenda na Copa do Mundo e no Rock in Rio e vai vivendo nossos momentinhos de alegria em um ano que tem tudo para ser tenso na política e na economia.
Guilherme Genestreti (Turismo)
O turismo de massa deve chegar à saturação enquanto moradores de cidades como Barcelona, Paris e Veneza se insurgem contra os visitantes. Lugares alternativos devem começar a despontar, os super-ricos irão buscar experiências ainda mais incomuns (de safáris exclusivíssimos a tours espaciais), e os hotéis que são um destino em si devem sair ganhando.
A Copa do Mundo vai atrair muita gente aos Estados Unidos, um dos países-sede, a despeito das atitudes do governo americano de aumentar o monitoramento sobre quem desembarca, incluindo aí a checagem de redes sociais. No Brasil, viajar para outras regiões ainda vai ser muito caro, o que pode aumentar o turismo rodoviário nos arredores de onde as pessoas vivem.
Marília Miragaia (Guia + Comida)
O martíni não apenas resiste em bares da cidade, como avançará no front dos balcões —na contramão de mocktails, vinhos e cervejas sem álcool. O drinque fez parte de uma trend em Nova York, onde virou hit servido com caesar salad e fritas ou só fritas. Chamada de “NYC happy meal” ou “adult happy meal” (um trocadilho com o “mc lanche feliz”), contrapõe a fritura untuosa com o final seco e alcoólico do drinque. Em São Paulo, dá para provar no recém-aberto Coda, em Santa Cecília.
Receita com milhares de possibilidades (a base, de gim ou vodca; a proporção de vermute; o método de preparo), permite releituras quase sem fim. Uma das boas está no Domo, também em Santa Cecília: dirty umeboshi martíni, feito com gin, vermute seco e ameixa japonesa em conserva. O coquetel virou seção inteira na carta deste ano da rede Astor, em variações que resgatam a moda etílica das décadas de 1990 e 2000. Que tal brindar o Ano-Novo com um martíni de salsão e maçã verde?





