Depois de anos de pandemia e home office, quando milhões de pessoas se renderam aos chinelos e às pantufas, os calçados esportivos ganham espaço na busca por conforto. A venda de tênis no Brasil deve fechar 2025 em R$ 21,6 bilhões, alta de 15% sobre 2024 e de 84% em relação a 2020, segundo previsão da Euromonitor. O avanço é superior à venda de calçados em geral, que cresceu 60% entre 2020 e 2025.
Quem vem puxando esta alta é o segmento de tênis casuais, ou “sneakers”, os modelos que são mais estilosos do que funcionais. Os casuais devem faturar R$ 7,5 bilhões em 2025, o dobro das vendas de 2020, e vêm atraindo marcas como Lupo, Live! e Anacapri.
No grupo Azzas 2154, um dos maiores fabricantes de calçados do país, os tênis casuais respondem por 40% das vendas da Anacapri, marca que ganhou fama pelas suas sapatilhas. Na Schutz, do mesmo grupo, os modelos esportivos já somam 25%. “Na Arezzo [que ainda não tem tênis casua], é uma grande oportunidade”, disse à Folha o CEO do Azzas 2154, Alexandre Birman.
Em novembro, a Lupo Sports, linha de moda esportiva da Lupo, desembarcou no mercado de tênis com o modelo casual Origem, produzido no Brasil por terceiros. “Hoje a moda é a esportiva, que vale para todas as ocasiões e para todas as idades”, disse a CEO da Lupo, Liliana Aufiero.
Segundo Andrea Meneguete, coordenadora do curso de pós-graduação de marketing de moda e beleza da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), o aumento da demanda por casuais traduz a busca por mais conforto no pós-pandemia. “É o desejo por um estilo de vida que remete ao autocuidado.”
Trata-se de um movimento global e transversal, que vai desde grifes como Louis Vuitton e Marc Jacobs até grandes redes varejistas como Renner, C&A e Riachuelo, que vêm ampliando o espaço dedicado nas lojas à área fitness, diz a especialista. “É a vontade de vestir roupas e calçados confortáveis e estilosos, distante da ideia de visual desleixado que ficou associado ao home office”, diz.
A fabricante de moda esportiva Life! lançou em dezembro os primeiros tênis próprios, o Live! Loop e o Live! One, após dois anos de pesquisas. Os modelos são fabricados por terceiros no Vietnã, país que lidera a produção de calçados no mundo. “Completamos o look da consumidora com um tênis para o dia a dia, não só para a academia”, diz Patricia Calixto, gerente de marketing da Live!.
A empresa catarinense, com sede em Jaraguá do Sul, vem em expansão acelerada via franquias: prevê faturamento de R$ 1 bilhão em 2025 (alta de 38% sobre 2024), ancorado em uma rede de 378 lojas, 103 delas próprias. Segundo Patrícia, o mercado de calçados esportivos é predominantemente masculino, daí o interesse da marca em lançar opções também para mulheres. Antes disso, a Live! já havia realizado dois lançamentos em colaboração com a marca franco-brasileira de tênis Veja.
CORRIDAS DE RUA ATRAEM MAIS PÚBLICO E DÃO IMPULSO ÀS VENDAS
A cada dez calçados vendidos no Brasil, quatro são tênis; em 2020, a proporção era de 3,4. A busca por uma vida saudável, também impulsionada pela pandemia, alavanca a venda da categoria. As corridas de rua são um incentivo a mais: somam 8.500 eventos ao ano no país, segundo o site especializado WebRun.
Na plataforma Ticket Sports, que oferece inscrições para eventos esportivos de diversas modalidades —corrida, ciclismo, natação, triatlo etc.—, metade dos inscritos em 2025 nunca havia participado de eventos desse tipo, que somaram 11.240 no ano, uma alta de 32% em relação a 2024.
No Grupo SBF, dono da Centauro e da Fisia, distribuidora exclusiva da Nike no Brasil, as corridas se tornaram parte do negócio. A empresa lançou em 2024 o Desbrava, circuito de corridas de rua que percorreu 20 cidades em 2025, o dobro do ano anterior. Para participar, o corredor compra um kit, cujo preço vai de R$ 99,90 a R$ 209,90, e dá direito a 20% de desconto na loja em que o material for retirado.
“A corrida é um dos esportes mais democráticos que existem”, diz Fábio Viana, diretor de calçados da Centauro. “E começa com a escolha de um bom tênis.”
Na multinacional alemã Adidas, o desempenho do Brasil já chamou a atenção. “O país está entre os nossos 10 maiores mercados mundiais”, diz Bárbara Ikari, gerente sênior de marketing para Adidas Brasil.
A empresa está animada com as vendas em 2026: é uma das patrocinadoras da Copa do Mundo e fornecedora da bola oficial, batizada de Trionda. O nome tem origem espanhola e significa “três ondas”, em homenagem à primeira vez em que três países serão sede do mundial —México, Canadá e EUA.
Em São Paulo, foi instalado um espaço especial da Trionda próximo à árvore de Natal do Ibirapuera. O parque mais famoso da cidade, que atrai centenas de corredores, contará com a Adidas como parceria em 2026. A empresa já patrocina a Meia Maratona de São Paulo e a Maratona do Rio.
Em junho de 2025, o trio de bilionários do 3G Capital —Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira— comprou a americana Skechers, de calçados esportivos, por US$ 9,4 bilhões (R$ 51,2 bilhões). Lemann e seu filho Marc, junto com Sicupira, já eram sócios da On Holding, que produz os tênis On Running, a marca do tenista suíço Roger Federer que patrocina João Fonseca, prodígio do tênis brasileiro.
A Skechers está presente no Brasil com importados, mas ainda não é relevante. No país, marcas como Olympikus e Mizuno, da Vulcabras, estão entre as mais vendidas, em um mercado muito pulverizado.
A previsão da Euromonitor é que a venda de tênis no mundo atinja em 2025 quase R$ 1 trilhão (US$ 179 bilhões), tendo a China como maior consumidor (em valor). Mas no Brasil a categoria cresce em um ritmo bem mais acelerado: salto de 84% entre 2020 e 2025, frente a uma alta de 44% na venda global do período.





