Sobre uma grande estante branca, repousam objetos tão diversos quanto um tênis multicolorido, um prato de beirute e outro de sushi e telas com gravuras de Leonilson e Jean-Michel Basquiat. Esses itens não teriam nada em comum não fosse por um detalhe —todos eles fazem parte do universo particular de Isay Weinfeld, um dos mais importantes arquitetos em atividade do Brasil.
Não à toa, essa miscelânea de objetos afetivos forma o núcleo inicial da exposição “Etcetera”, projeto que marca as cinco décadas de carreira do profissional. Em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista, a mostra leva ao público cerca de 180 peças, entre joias, filmes, maquetes e mobiliários.
Essa diversidade de obras é uma evidência de alguém tão versátil quanto inquieto. Além de projetos arquitetônicos, a exposição traz trabalhos que Weinfeld produziu no audiovisual. Em uma das salas expositivas, o público poderá ver cenas de “Fogo e Paixão” — comédia de 1988 com Fernanda Torres e Fernanda Montenegro no elenco.
O humor também se faz presente no trabalho de Weinfeld como artista plástico. Em uma das obras, vemos um kit de primeiros socorros preso à parede. No entanto, no lugar de remédios para tratar enjoos ou dores de cabeça, vemos viagras, camisinhas e lubrificantes.
Produções como essas são a evidência de um profissional que tem a arte como a sua principal referência.
Isso fica evidente já no núcleo inicial da mostra, onde há um quadro de Mira Schendel. A artista é célebre pela série “Objetos Gráficos” –projeto em que pintou sobre o papel um emaranhado de símbolos gráficos, formando aquilo que críticos de arte já definiram como uma orgia das letras.
Weinfeld fez algo parecido no extinto bar Número, construção que trazia a fachada revestida por uma constelação de algarismos, tal como os objetos gráficos de Schendel.
“Posicionar na primeira sala desde objetos prosaicos a obras de arte foi uma forma de mostrar que o Isay é uma pessoa atenta”, diz Agnaldo Farias, curador da mostra. “Ele tem interesse pelas coisas mais diversas, de um tênis até um quadro de Mira Schendel.”
O curador diz ainda que colocar lado a lado obras consideradas eruditas e elementos associados à cultura popular é uma forma de questionar hirarquias na arte. “Queremos mostrar que cada coisa tem a sua riqueza. Tudo é importante por ter a marca humana, ou seja, é pessoal e intransferível.”
Questionar hierarquias é algo que Weinfeld tenta fazer também na arquitetura. Ele já projetou desde edifícios de luxo em Mônaco a empreendimentos populares do programa Minha Casa, Minha Vida. As maquetes de ambos os projetos, inclusive, fazem parte da exposição.
Os seus projetos são conhecidos também pelo diálogo com o cinema e as artes cênicas. Essa relação se faz sentir, por exemplo, na importância do jogo de luz nos ambientes interiores.
“Essa é uma maneira muito original de pensar a arquitetura, porque as faculdades não trazem nenhuma discussão sobre o drama”, diz Farias. “No entanto, a casa é um teatro doméstico.”
Weinfeld parece ter entendido isso, motivo pelo qual seus projetos carregam um forte aspecto cenográfico.
Se em construções tradicionais as escadas cumprem função meramente funcional, nas obras de Weinfeld elas são revestidas de potência dramática e escultórica.
Por esse motivo, elas ganharam uma seção específica na mostra. Nesse espaço, podemos ver, por exemplo, a escada em espiral da Casa Cubo e os degraus de tons rubros de uma antiga loja da marca Forum.
Já os corredores, por sua vez, evocam a urgência dos thrillers americanos. Percorrê-los é como estar nos corredores labirínticos do hotel Overlook, cenário de “O Iluminado”, clássico de Stanley Kubrick.
Não por acaso, Weinfeld nutre grande admiração pelo diretor americano. “Ele é o artista com quem me reconheço mais nesse desejo por não repetir fórmulas”, diz o profissional, durante a montagem da exposição. “Apesar de ter uma obra coesa, ele fez produções de diferentes gêneros.”
É parecido com o que Weinfeld tem feito ao longo de sua carreira. Embora os projetos tenham em comum a contenção estética, eles expressam essa característica por meio de diferentes maneiras.
Numa maquete do Instituto Ling, em Porto Alegre, o que predomina é o contraste entre a sinuosidade da escadaria e o caráter retilíneo do edifício. Já na representação do prédio Santos Augusta, o que se impõe é a oposição entre a solidez da fachada e a aparente leveza das pilastras.
“Quando você faz uma coisa bacana, todos os clientes querem a mesma coisa logo depois. Na minha opinião, é aí que começa uma certa decadência, porque você se sentou em cima do sucesso e deixou ele te levar.”
Em seu caso, porém, ele diz acontecer o oposto. “Quando fiz algo em que as pessoas prestaram a atenção, eu virei a mesa totalmente no trabalho seguinte.”
Esse pendor para a disrupção permeia a mostra —projeto que busca fugir da monotonia que impera em muitas exposições de arquitetura. “Quis fazer um projeto mais popular para que as pessoas pudessem ver que a arquitetura não é chata.”
Por esse motivo, a curadoria decidiu expor as maquetes de formas pouco convencionais. Algumas delas foram instaladas no interior de paredes. Enquanto outras surpreendem pelo nível de minúcia, reproduzindo camas, quadros e luminárias à maneira de uma casa de bonecas.
Na maquete de uma unidade da Livraria da Vila, é possível ver os detalhes das capas de clássicos como “1984”, de George Orwell.
Localizada nos Jardins, em São Paulo, a loja foi demolida para dar lugar a um empreendimento imobiliário. Destino parecido tiveram outras obras icônicas de Weinfeld, como as lojas Forum e Clube Chocolate, ambas na capital paulista.
Embora os projetos tenham ruído, Weinfeld não se abala. “A ruptura é difícil. Mas, se eu não aprendesse com o meu psicanalista a sobreviver, eu estaria agora num sanatório”, diz ele. “Então, tanto faz. Pode derrubar. A vida é assim e a gente precisa seguir em frente.”
Autor: Folha








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