A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua de 2024 estimou que 24,2% da população está em algum nível de insegurança alimentar e cerca de 6 milhões de pessoas em situação grave. Esses domicílios concentram-se sobretudo em áreas rurais, com baixíssima escolaridade e água e esgoto precários.
O Brasil já mostrou capacidade de reduzir a fome, havia 11,3 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave em 2009. Esse avanço não nasceu de consenso, mas de disputa sobre o desenho das políticas. Desde o PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador), criado na ditadura, até o Brasil Sem Fome, acumulamos programas, mas o ponto de inflexão foi a substituição do Fome Zero pelo Bolsa Família, orientada por maior focalização e amplamente documentada pela literatura como decisiva para reduzir a fome.
Essa controvérsia não é exclusiva nossa. Os EUA gastaram em 2021 quase US$ 151 bilhões em vales refeição e a Índia mantém anualmente em seus estoques públicos de trigo coisa de 28 milhões de toneladas. Países testam subsídios, transferências e políticas agrícolas enquanto a pesquisa avalia a eficácia desses arranjos.
Esther Duflo, nobel de economia, relatou o caso de Oucha, morador de aldeia remota no Marrocos, que ao mesmo tempo em que dizia usar mais renda para comprar comida, priorizava televisão e antena parabólica por considerá-las mais importantes. O professor Craig Gundersen discute as limitações de medir a insegurança alimentar com questionários de percepção, como a escala usada no Brasil, sensíveis ao contexto e ao modo de perguntar. Christina Pollard sempre questionou resolver a insegurança alimentar desviando comida que iria para o lixo, reduzir desperdício é relevante mas não são vasos comunicantes: um legume descartado em Mogi das Cruzes (SP) não chega, por gravidade, a uma criança Yanomami. A literatura diverge em vários pontos, mas converge na importância de políticas focalizadas.
No debate público, porém, prevalecem simplificações. Dados do Mapa das Organizações da Sociedade Civil do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) indicam que, entre 2010 e 2020, surgiam em média 5 novas organizações por ano com “fome” no nome; de 2021 até agora a média passou para 18, com concentração em São Paulo, que desde 2021 abriga 33 delas, contra apenas 1 no Maranhão um dos estado que lidera o ranking. Muitas não nascem nas unidades federativas com maior gravidade do problema, mas em centros empresariais, onde a pauta se converte em ativo reputacional.
Parte desse movimento é gestão de imagem. Temos o exemplo da Vale, responsável pelo desastre de Mariana que investe em projetos de combate à fome para reequilibrar sua narrativa pública. Ao mesmo tempo, proliferam iniciativas que ignoram a evidência sobre focalização e propõem soluções genéricas, indiferentes à heterogeneidade dos territórios.
Quem ouve moradores de periferias, comunidades ribeirinhas ou terras indígenas percebe que a resposta adequada para um entregador do sudeste não coincide com a necessária para uma criança Yanomami em desnutrição. A crise humanitária Yanomami não foi descoberta, nem será resolvida, nos gabinetes de Brasília ou nos escritórios da Faria Lima, mas em políticas ancoradas em dados, presença territorial e escolhas distributivas explícitas.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Caio Sousa foi “Parabéns do Brasil pra Você”, de Bezerra da Silva.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.




