Meus 12 fiéis leitores bolsonaristas estão estranhando que, ultimamente, eu tenha deixado Bolsonaro meio de lado neste espaço. É simples: poucas novidades sobre o mito. Desde que tentou romper a tornozeleira e foi obrigado a trocar o conforto de seu lar em Brasília (piscina, dois andares, 400 metros quadrados) por um 3×4 na Superintendência da Polícia Federal, Bolsonaro só é notícia quando sai para uma cirurgia. Nem sua recente carta-testamento transferindo seus poderes divinos para o filho Flávio —e condenando-o a uma inevitável crucificação— abalou Bangu.
Há dias, num botequim com a TV ligada num noticiário em que se falava dos soluços de Bolsonaro, vi um jovem fingindo uma decibélica crise de soluços, para pândega geral no recinto. Equivalia a Bolsonaro, em 2021, no auge da pandemia, imitando pessoas com dificuldade para respirar, enquanto faltava oxigênio nos hospitais. Aquela cena inacreditável de Bolsonaro, veiculada pelas próprias redes oficiais, mostrava sua desumanidade, principalmente para os filhos de pessoas que, por negligência de seu governo (sabia que ia faltar oxigênio), estavam passando por tal desgraça. Mas quem era eu para criticar o rapaz dos soluços? Talvez ele fosse um daqueles filhos.
Pois, então, viva o ano novo! Além de boas entradas, desejo ao apenado Bolsonaro rápida recuperação e, findos os recursos, a conversão ainda mais rápida de sua prisão preventiva para definitiva na Polícia Federal, Papuda ou Papudinha.
Quero vê-lo rijo, com seu invejável histórico de atleta, para curtir cada minuto de sua sentença, xizando calendários na parede e fazendo palavras cruzadas até se fartar. A possibilidade de ter sua cana reduzida pela leitura de livros e apreciações por escrito sobre eles está afastada —nunca leu um livro na vida, nem mesmo a Constituição que jurou defender e, em vez disso, prostituiu.
Não é verdade que, sem Bolsonaro, eu esteja sem assunto. Tudo pode ser assunto para crônicas, e o mundo está cheio de pessoas lindas, leves e soltas como personagens.
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