Dizem que tomar decisões de cabeça fria é melhor, mas a neurociência já aprendeu que não há nada como ouvir as emoções da gente para tomar decisões que nos deixam satisfeitos. Como eu aprendi com minha querida Daniela, minha consultora para assuntos da vida adulta e esposa do meu amigo Bernardo, assessor para assuntos linguísticos, jurídicos e biológicos desta coluna (tirei a sorte grande com esses dois!), rodar a baiana de vez em quando é bom e faz bem —o negócio é saber escolher a situação.
Não, manter a cabeça fresca é importante de outra forma: aquela que nos permite continuar vivos. Como contei em outra coluna uns meses atrás, conclui que normalmente é o cérebro, sempre funcionando a todo vapor, usando toda a energia que ele pode tirar do sangue e produzindo calor continuamente, que impõe a alta temperatura do corpo, forçando fígado e rins a também funcionar a toda velocidade limpando do sangue o lixo que o cérebro produz. O resultado é um círculo vicioso que segura o pedal do acelerador no máximo que o próprio cérebro aguenta, sempre beirando o limite com o quente demais.
A evidência mais forte a favor deste cenário é que o cérebro está sempre mais quente do que o corpo, inclusive quando faz o corpo se exercitar. Como um estudo feito em Cingapura mostrou em 2024, correr na esteira faz cérebro e corpo esquentarem juntos, conforme os músculos produzem calor, e a perda de calor do cérebro para o corpo diminui.
Quando o corpo chega a 39,5ºC e o exercício é interrompido, o cérebro, que continua mais quente do que o corpo, está 1,5ºC mais quente do que antes, em repouso —e já começa a pedir penico, com redução significativa da atividade no córtex cerebral e tempos de reação um décimo de segundo mais longos. Ou seja, o cérebro superaquecido pelo exercício começa a funcionar menos e demorar mais para agir. Ótimo: assim o corpo para de se mexer e tem chance de perder calor, o que permite que o cérebro volte à sua temperatura normal de funcionamento, ainda sempre mais quente que o corpo.
O aquecimento passivo do corpo também sobreaquece o cérebro. No estudo, os voluntários ficaram imersos em uma banheira a 41°C até o corpo chegar aos mesmos 39,5°C, em cerca de uma hora. De novo, o cérebro a esta altura já estava pedindo penico, com reações mais lentas, e o córtex cerebral afetado, o que prejudica as decisões.
O problema é que desta vez isso é péssimo: um cérebro que pede penico e tem suas ações comprometidas por causa de um ambiente sobreaquecido tende a não fazer nada a respeito e continuar sobreaquecendo no mesmo lugar quente demais. Se a hipertermia perdurar a ponto de as barreiras entre o intestino e o sangue, e entre este e o cérebro se romperem, baubau. A morte chega rápido.
Considere agora o verão escaldante, para muitos inescapável, obrigados a continuar trabalhando em temperaturas que impedem o corpo de perder calor, o que por sua vez impede o cérebro de dissipar o calor que ele constantemente gera, e tem-se um risco grave cotidiano.
A única boa notícia para quem não pode fugir para o ar-condicionado é que o estudo de Cingapura mostra que trocar a água que se bebe por gelo moído ajuda significativamente a conter o aumento de temperatura de corpo e cérebro.
Neste verão, cuide de você: invista naquela caneca térmica.
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