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Aline Bei se encerra em um aquário para ouvir personagens – 02/01/2026 – Ilustrada

Quando Aline Bei se mudou com seu companheiro, Tiago, para o apartamento que os dois dividem no bairro paulistano da Vila Madalena, quis construir um aquário para si mesma.

O cômodo fica bem no meio da sala, protegido por vidros antirruído. Mal dá para dar três passos lá dentro. Quem está de fora até pode ver a escritora ali, entre estantes lotadas, mas não consegue escutar nada. E é lá que ela ouve melhor suas personagens.

“Parecem entidades, mas não corporificadas, só existem encarnadas no texto, na palavra”, elabora a escritora de 38 anos. “Eu tenho a impressão de estar acompanhada por essas figuras. Se eu me concentrar profundamente, consigo alinhar a minha sensibilidade com a delas e criar uma espécie de metamorfose entre o que eu sou e o que elas são. Eu dou passagem.”

É um processo intuitivo, apesar de não ser fruto de nenhuma mágica, e sim de trabalho em estado de plena atenção. “Há um inconsciente que sabe antes da gente. Na escrita, a gente acessa e dá forma a isso. É uma espécie de escuta das personas que habitam as minhas histórias.”

E as histórias de Aline se popularizam cada vez mais. Sua estreia foi na editora Nós com “O Peso do Pássaro Morto”, um enredo doloroso sobre violência e silenciamento, que angariou fãs tanto pela identificação com a voz da autora quanto por um trabalho diligente de divulgação por parte dela em redes sociais.

O segundo romance, “Pequena Coreografia do Adeus”, saiu pela Companhia das Letras, editora que ampliou a distribuição de sua obra, reeditou seu livro de estreia e, poucos meses atrás, lançou o mais recente “Uma Delicada Coleção de Ausências”.

Quem lê os três percebe o caminho de uma autora que evolui com experimentações, mas segue um projeto muito singular de prosa disposta na página quase como versos. Ocupar o espaço certo —seja no papel, seja em sua casa— parece central para acender a vitalidade de sua literatura.

Antes de publicar seu primeiro livro, oito anos atrás, Aline fez teatro no Célia Helena. Não chegou a apresentar muitas peças ao público —foi o menino Zezé em uma montagem de “Meu Pé de Laranja Lima”— e logo deixou essa vida para lá. Não tinha vontade de fazer os trabalhos que poderiam dar dinheiro, como publicidade e cinema.

Durante os retratos para esta reportagem, ela comenta que também detestava fazer sessões de fotos para books, necessários em seu portfólio de atriz. “Você se sente um pouco presa no seu estereótipo.”

Essa época durou, mais ou menos, dos 14 aos 20 anos. Aline achou melhor arriscar um novo começo num curso de letras. Começou a escrever depois que parou com o teatro e vê uma conexão forte entre as duas coisas. “Ficou um vazio existencial. Perdi a minha identidade, enquanto sentia que o teatro continuava em mim, que não era a prática teatral que me fazia atriz.”

Essa busca interior se reflete bem na errância, na espontaneidade do seu processo como escritora. Diz gostar de escrever romances porque vê neles “uma musculatura que permite que brinque mais”.

“Vou descobrindo o livro conforme avanço. A primeira versão é puro espanto. A história se revela. Quando você vai reescrevendo, vai manchando a história do que você descobriu. Vai cortando, acrescentando, complexificando. Sente que o material vai amadurecendo.”

Em determinada altura, aquilo fica de pé. “Quando você mexe depois que já está sólido, começa a estragar. Ao invés de melhorar, murcha.”

Dentro do aquário de Aline, dá para vislumbrar uma brecha de como isso tudo funciona. Há frases escritas em post-its, em pequenas folhas de caderno, que abarrotam aquele espaço de palavras. Algumas são tão importantes que acabam marcadas de canetão nas janelas.

E se esse é um processo interno, também deve ser poroso às influências de fora. Fotografias de Agnès Varda, Patti Smith, Simone de Beauvoir e Pina Bausch ficam ombro a ombro com Aline enquanto ela escreve. Pendurou à vista um bilhete que recebeu de Mia Couto. Um telefone vermelho chamativo, ali ao lado, não dá linha para lugar nenhum.

Como sintetiza a autora, é o tipo de concentração necessária para fazer coincidir aquilo que você quer dizer com a maneira como você diz. Não é nada fácil. “Mas é bonito quando acontece”, afirma ela. “Parece que a gente só saiu da frente.”

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