Um grupo de moradores do centro de São Paulo monitora em tempo real novas tentativas de aglomerações de usuários de drogas na região, quase seis meses após a dispersão da cracolândia que ocupava a rua dos Protestantes, na Santa Ifigênia.
Com o esvaziamento da principal cena aberta de uso de drogas na cidade, dependentes químicos passaram a vagar por ruas ocupadas pela cracolândia em outras ocasiões. A atividade é acompanhada de perto por moradores que registram em fotos e vídeos qualquer flagra de pessoas usando crack.
As imagens são compartilhadas em um aplicativo de mensagens com a participação de integrantes da Secretaria de Segurança Pública e representantes das secretarias municipais de saúde e assistência social, além de associações que atuam na região.
Os moradores que fazem parte dos cerca de 50 membros do grupo foram escolhidos durante reunião em junho com a secretaria de Segurança Pública, poucos dias após a dispersão da rua dos Protestantes.
Em comum, são pessoas que vivem nas ruas ocupadas pelos usuários de drogas nos dois últimos anos e tiveram participação ativa na interação com o poder público para mudar a situação do centro.
Algumas delas ouvidos pela reportagem, que pediram para não serem identificados por medo de represálias do crime organizado, participaram de protestos em frente à prefeitura e fizeram vigília nas vias ocupadas como forma de chamar atenção das autoridades.
Na reunião, quando o grupo de mensagens batizado de “Diálogos do Centro” foi formado, os moradores foram orientados a enviar registros de aglomerações por uso de drogas, por menor que seja, com local e horário definidos para envio de equipes para dispersar os usuários. Relatos de problemas de zeladoria e outros temas são vetados.
Uma vez dado o alerta pelos moradores, policiais na sala de operações da Polícia Militar são acionados para monitorar as câmeras do local e enviar equipes.
“Chegamos a identificar 5 mil pessoas no fluxo ao longo dos dois últimos anos e, agora, são cerca de 200 a 300 contabilizados por mês que tentam se aglomerar de alguma forma”, diz o tenente-coronel Rodrigo Garcia Vilardi, coordenador-geral do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, que também faz parte do grupo.
Membros do grupo relatam que a maioria dos avisos de tentativas de aglomeração se refere às ruas Helvetia e Conselheiro Nébias, em Campos Elíseos, e no entorno da estação da Luz, na intersecção com o Bom Retiro, além da praça Julio Prestes e alguns pontos debaixo do Minhocão. Em comum, são lugares ocupados pelo fluxo em ocasiões anteriores.
De acordo com o tenente-coronel, as equipes de abordagem e os policiais são orientados a informar os usuários sobre a impossibilidade de permanecerem no local e oferecer atendimento no Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas, inaugurado pelo governo estadual em julho de 2023 como o centro antidrogas de São Paulo. Lá, é feita triagem para equipamentos de saúde e internações psiquiátricas, quando há avaliação clínica.
Além das abordagens auxiliada pelos moradores, Villardi explica que a formação de uma nova cracolândia no centro é dificultada pela ausência do ecossistema que viabilizava o funcionamento da cracolândia, que incluía pensões ligadas ao crime organizado, usadas para armazenar drogas, e os ferros-velhos, onde usuários trocavam material de reciclagem por dinheiro para comprar crack.
Na rua dos Protestantes, há ao menos dois ferros-velhos emparedados por operações policiais e pensões lacradas. Um carro da GCM (Guarda Civil Metropolitana) fica estacionado no local para impedir novas aglomerações. O local também é vigiado por câmeras de reconhecimento facial para inibir a ação de traficantes. Apesar da ausência de usuários de drogas, o clima ainda é de abandono.
O terreno desocupado pelos usuários integra projeto de revitalização e há previsão de ser transformado em uma área de lazer.




