Com a chegada de “Via Gemito”, romance vencedor do Prêmio Strega em 2001, a premiação literária mais prestigiosa da Itália, enfim podemos ter em mãos a obra considerada como a mais ambiciosa do autor italiano Domenico Starnone.
Lançado na Itália poucos anos depois da morte do pai do autor, o romance com tintas autobiográficas é como uma tentativa de acerto de contas, de dar contornos a uma figura paterna excessiva, brilhante e destrutiva.
O resultado é um mergulho destemido na memória familiar, onde a distinção entre autobiografia e invenção narrativa se torna um laço tão apertado quanto a costura da trama que o autor oferece em seus outros livros.
A Via Gemito, em Nápoles, é o palco de um drama doméstico no pós-guerra. O narrador, Federico, é um escritor de meia-idade que revisita a infância marcada pela convivência com o pai, Mimmo, um ferroviário com talento autodidata para a pintura e uma paixão caótica pela vida.
Mimmo é um daqueles personagens que a literatura italiana (como é o caso da Lila de Elena Ferrante) sabe criar com maestria: um vulcão de energia reprimida, um “gênio” frustrado que leva esse descontentamento para o núcleo familiar, transformando a casa em um campo de batalha permanente.
Ele poderia ser o arquétipo do artista popular napolitano, preso entre a necessidade de sustentar a família e a pulsão criativa que o isola e o atormenta, um eco trágico de certa literatura meridional.
A arte de Starnone reside em não simplificar o monstro. Mimmo é irritante, mitômano, violento, mas também dotado de uma sensibilidade aguda e de uma sede de reconhecimento que o tornam, tragicamente, humano. É o centro de gravidade da família, puxando todos para perto com sua força centrífuga e estilhaçando-os com seus rompantes.
É o homem que traz o caos e a vitalidade para a mesmice da vida do bairro, mas que não consegue sustentar a promessa de grandeza que vive a evocar. Sua genialidade é como uma maldição, pois o separa da mediocridade do seu meio, mas não o eleva acima dela; ao contrário, ele se afoga, arrastando consigo quem está ao redor.
Quem leu a tetralogia napolitana de Ferrante talvez identifique elementos em comum. Mimmo é um pouco como Lila, um pouco como Nino, e Federico talvez pudesse ocupar a posição vulnerável em que Elena se sente frente aos dois.
O romance é construído entre a tensão de uma memória idealizada e brutal. Federico tenta desesperadamente compreender como as mentiras e o gênio do pai moldaram não apenas sua infância, mas sua própria vocação como escritor.
A escrita de Federico, assim, torna-se um ato de dar destino e ordem à complexidade de suas dores e, de forma paradoxal, também é um ato de profunda lealdade.
O narrador, ao revirar o passado, questiona a própria validade de sua arte frente à explosão criativa e destrutiva do pai: o que seria narrar a sua vida senão tentar organizar o caos que Mimmo impôs?
O pai é o motor da raiva e da escrita. Essa dialética entre amor e trauma é o que confere ao livro sua força perturbadora e a sua relevância para os nossos dias, com a discussão sobre a formação de uma masculinidade controladora e violência. A violência, no livro, emerge da expectativa não cumprida, do potencial sufocado.
O grande mérito de Starnone é demonstrar que a memória não é um álbum de fotografias estático, mas um campo em eterna disputa. A escrita é a arena onde o filho pode duelar com o fantasma do pai.
A tradução de Maurício Santana Dias captura com precisão a oralidade napolitana de Mimmo e a contenção intelectual de Federico, mantendo o ritmo febril e a densidade psicológica do original.
“Via Gemito” é um romance sobre a masculinidade e o fracasso, mas um fracasso grandioso, que só pode ser contado com a mesma intensidade com que foi vivido.
A obra é fundamental para entender a poética de Starnone e a maneira como ele sabe transformar os destroços da família em literatura de primeira grandeza, desafiando a própria noção de herança. A herança de Federico é a impossibilidade de fugir da história de Mimmo —mas ele dá a ela um novo destino ao escrevê-la, literariamente.




