Com perdão pelo óbvio, se você é cinéfilo é claro que já viu “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles, não? A pergunta certa —por “Kane” ter passado tantas décadas como o maior filme da história— seria: “Quantas vezes?” Já a pergunta não tão óbvia vem agora: “E ‘Soberba’, você viu?”. Foi o filme seguinte de Orson, de 1942, e seu título original é “The Magnificent Ambersons”. Se você disser que não, ninguém poderá censurá-lo —não é um dos clássicos mais populares do cinema. E, se disser que sim, estará apenas admitindo que foi tapeado. Nem você nem nenhum de nós viu “Soberba”. Não o filme escrito, produzido e dirigido por Orson.
O que todos vimos foi a contrafação parida na sala de montagem da RKO, sem a presença de Orson, então no Rio a serviço do governo americano, empenhado num filme para estreitar as relações Brasil e EUA durante a Segunda Guerra. Pelas suas costas, o estúdio, que não gostava dele nem do filme, cortou sequências inteiras ou remontou-as em outra ordem, picotou planos longos e converteu o final amargo num happy end bobo. Os 131 minutos originais foram reduzidos a 88. O material cortado foi jogado no mar, inclusive os negativos. E todas as buscas de uma cópia integral, perdida em algum depósito (até mesmo no Rio), fracassaram.
Mas, agora, um milionário cineasta anglo-iraquiano, Edward Saatchi, 41 anos, associado à Amazon, anuncia um projeto monumental: reconstruir com a IA o que se destruiu de “Soberba”. Como? Refilmando as cenas mutiladas com atores que serão “transformados” em Tim Holt, Anne Baxter e Joseph Cotten, os quais terão suas vozes digitalizadas, em cenários levantados a partir das fotos que sobreviveram. Tudo isso seguindo o detalhado roteiro de Orson e as instruções que ele deixou com o montador Robert Wise antes de embarcar para cá.
Por incrível que pareça, não é um projeto absurdo, tanto que os herdeiros de Orson estão a favor. A pergunta é: um dia teremos “Soberba”?
Não sei. Mas, se der certo, é a prova de que a IA pode ressuscitar até ectoplasmas.
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Autor: Folha




















