domingo, março 8, 2026
19.3 C
Pinhais

Mulher cria entidade após diagnóstico de câncer em Franca – 08/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

A vida da assistente social Eliane Aparecida Bonine, 58, seguia uma rotina comum até setembro de 2010. Casada, mãe de duas filhas, ela dividia o tempo entre a família e o trabalho. Depois de anos atuando em instituições sociais, em Franca, no interior de São Paulo, naquele momento ajudava o marido em uma empresa de representação de produtos para o setor calçadista.

A descoberta de um câncer de mama, aos 43 anos, mudaria o rumo da sua trajetória. Menos de cinco meses após o diagnóstico, Eliane criou a Iansa (Instituição de Apoio Nossa Senhora Aparecida), organização que hoje oferece acolhimento, alimentação, hospedagem e apoio social a pessoas em tratamento contra o câncer.

O diagnóstico veio durante um exame de rotina. Na época, a mamografia preventiva ainda era indicada principalmente para mulheres a partir dos 50 anos. Mesmo sem identificar alterações no exame clínico das mamas, a médica decidiu solicitar o exame após Eliane comentar que havia perdido uma tia para a doença.

“Foi quase na hora de ir embora da consulta. Eu comentei que tinha uma tia que morreu de câncer, e a médica falou da necessidade de fazer uma mamografia”, lembra.

Mamografia realizada, ela abriu o envelope com o parecer antes de retornar ao consultório. “A gente fica olhando e tentando entender. Será que é isso mesmo? Quando levei para a médica, ela confirmou e já me encaminhou para o mastologista.”

O resultado chegou no dia do seu aniversário. A biópsia ocorreu no aniversário do pai e, a cirurgia, no da mãe. “São datas que ficaram muito marcadas na minha vida.” A primeira reação foi de medo. “Quando você recebe um diagnóstico de câncer, a primeira coisa que vem à cabeça é uma sentença de morte. Eu tinha uma filha de 10 anos e outra de 13.”

A cirurgia ocorreu cerca de um mês após o diagnóstico. Em seguida, vieram oito sessões de quimioterapia e 33 de radioterapia, realizadas ao longo de um ano. Durante esse período, enquanto lidava com os efeitos do tratamento —dores, cansaço e queda de cabelo—, Eliane começou a pensar em transformar a experiência em algo que pudesse ajudar outras pessoas.

Inspiração

Nas sessões de quimioterapia, observava pacientes que chegavam de madrugada de cidades vizinhas, aguardavam o dia inteiro pela van de volta e não tinham onde comer ou descansar. A necessidade era concreta. Ao pesquisar, descobriu que instituições em outras cidades já ofereciam esse tipo de serviço — hospedagem, alimentação e suporte a pessoas em tratamento oncológico. Conversou com o marido, que apoiou de imediato.

Segundo ela, dedicar-se ao projeto ajudou a enfrentar o período mais difícil do tratamento. “Isso me deu muita força. Eu não ficava pensando só na doença. Pensava no que precisava fazer para a casa começar a funcionar.”

Durante o ano em que esteve em tratamento, Eliane e a família alugaram uma casa, formaram uma diretoria e iniciaram o processo de regularização da instituição.

A Iansa foi inaugurada em 2 de fevereiro de 2011, menos de cinco meses após o diagnóstico. “Quando terminei a última radioterapia, a casa já estava pronta para receber os primeiros pacientes.”

Nos primeiros anos, a instituição funcionou principalmente com recursos da própria família e trabalho voluntário. Eliane preparava as refeições, enquanto parentes ajudavam no atendimento e na entrega de marmitas no hospital.

“No começo era bem difícil. Às vezes a casa ficava aberta e não aparecia ninguém. Algumas pessoas diziam que não ia dar certo, que estávamos gastando dinheiro à toa.”

Com o tempo, o trabalho passou a ser conhecido pelos pacientes e pelas equipes de saúde da região. Hoje, a instituição realiza mais de 1,5 mil atendimentos por mês.

Entre os serviços oferecidos estão hospedagem para pacientes de outras cidades, alimentação, apoio social, psicológico e jurídico, além de empréstimo de equipamentos hospitalares, distribuição de alimentos e grupos de apoio.

A instituição também desenvolve atividades com familiares e crianças impactadas pela doença. “A gente percebeu que o câncer não afeta só o paciente, mas toda a família. Muitas vezes o acompanhante também precisa de suporte”, disse.

Após mais de uma década de funcionamento, a organização inaugurou recentemente uma sede própria, construída ao longo de quatro anos com apoio da comunidade.

A instituição mantém uma equipe de 14 funcionários e depende principalmente de doações, eventos beneficentes e parcerias públicas para custear as atividades. O custo mensal supera R$ 60 mil.

Eliane atua de forma voluntária na gestão da casa. Para ela, a experiência com a doença mudou profundamente sua forma de ver a vida.

“Antes eu era mais ansiosa, mais nervosa. O câncer mudou minha maneira de pensar. Hoje eu entendo que o mais importante é acolher as pessoas com dignidade e carinho.”

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas