quinta-feira, janeiro 8, 2026

Moratória de florestas e de decência no Brasil em 2026 – 04/01/2026 – Marcelo Leite

Quando nenhum fracasso mais rotundo que o da COP30 parecia possível, eis que o país se prepara para engrossar a artilharia contra os próprios pés. Entramos em 2026 com o direito e o esquerdo metidos com convicção na jaca da crise do clima.

O fiasco de novembro em Belém do Pará merece alguma qualificação. Não foram a presidência da cúpula, em que o embaixador André Corrêa do Lago se esfalfou, nem a ministra Marina Silva que falharam.

Foi o Brasil. No ano em que o desmatamento recuou, forças nada ocultas trabalharam para realimentar o aquecimento global com mais carbono de florestas derrubadas.

Melhor nem mencionar a foz do Amazonas, que Lula rifou na véspera da COP30 em que a Petrobras se fantasiava de transição energética justa. Faz tanto sentido usar a renda fóssil para pagar fontes limpas quanto transpor águas do São Francisco para encher piscinas de Arthur Lira e Hugo Motta.

Agora é a moratória da soja que sobe no telhado. Reportagem de Ana Mano e Manuela Andreoni na Reuters conta que os conglomerados atacadistas da grãos estão para abandonar o bem-sucedido acordo entre ruralistas e ambientalistas para conter destruição da floresta.

A pressão parte agora de Mato Grosso, estado governado por Mauro Mendes. Sua administração cancela neste mês incentivos fiscais dados às traders caso permaneçam no arranjo internacional contrário à comercialização de soja colhida em desmatamentos recentes.

Estima-se que uma área do tamanho da Irlanda teria sucumbido a correntões e queimadas sem a moratória. Um acerto voluntário que já havia sido alvejado pelo Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica (não se perca pelo nome), sob a alegação absurda de possível violação da livre concorrência.

A investida mato-grossense serve para o público ficar sabendo que esse oligopólio mundial recebia polpudos incentivos —o seu, o meu, o nosso dinheiro de impostos. Uma renúncia fiscal de R$ 4,7 bilhões de 2019 a 2024. Para continuar mamando, não podem mais monitorar se os fornecedores andam na linha verde.

Esse pessoal do centrão direitão mal havia acabado de conspirar no Congresso (calma, não se trata de anistia nem dosimetria) contra as florestas e os povos indígenas, com o PL da Devastação e o Marco Temporal. Querem ainda mais carta-branca, os liberais de fancaria, para investir também contra a saúde do clima.

O povo e a imprensa assistem bestializados à consagração da hipocrisia. Pistoleiras e machões que em 2022 maquinavam assassinatos e golpe ou fogem do país ou se agacham atrás de atestados médicos de câncer no cérebro, hérnia inguinal, ataque de soluços e Alzheimer desde criancinha.

Banqueiro playboy contrata parentes de ministro do Supremo por milhões depois de vender créditos fajutos por bilhões ao banco estatal da UF cujo governador foi afastado pelo mesmo ministro, em 2023, após cumplicidade de sua polícia com a turba do 8 de janeiro.

O enredo fica mais confuso com a entrada a jato de outro ministro e do TCU no assédio ao Banco Central. Jornalistas e leitores perdidos na fumaça do incêndio institucional. Dizem que na guerra a primeira vítima é a verdade, mas onde foi parar a decência?

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor Original

Destaques da Semana

Temas

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas

spot_imgspot_img