quarta-feira, janeiro 14, 2026

Economia da atenção: Por que séries perderam profundidade? – 05/01/2026 – Deborah Bizarria


Para quem, como eu, acompanhou “Stranger Things” desde a estreia, a diferença entre a primeira e a quinta temporada salta aos olhos. A série começou apoiada em uma atmosfera nostálgica, com trama e personagens que se desenvolviam aos poucos. Com o tempo, passou a dizer sempre o óbvio, repetir emoções em voz alta e abandonar qualquer senso de urgência na aventura.

E creio que não seja um caso isolado: a crítica apontou problemas semelhantes na última temporada de “Game of Thrones”, em várias produções recentes da Marvel e em séries de enorme audiência como “Emily in Paris”, que são entretenimento que funciona mesmo sem atenção plena.

A literatura sobre economia da atenção ajuda a entender por que esse tipo de escolha se tornou atraente para os estúdios. Em uma revisão recente, George Loewenstein e Zachary Wojtowicz mostram que a atenção é um recurso escasso, rival e custoso e que, em ambientes de sobrecarga informacional, as pessoas tendem a ajustar seu consumo para reduzir a demanda por esforço cognitivo.

Ou seja, grande parte do consumo contemporâneo ocorre sob atenção dividida, com o espectador alternando entre a tela e o celular ou atividades do cotidiano. Conteúdos que exigem inferência, memória e leitura de subtexto tornam-se mais custosos de acompanhar; conteúdos que explicitam tudo tornam-se mais eficientes nesse contexto em que o espectador deseja ser multitarefas.

Contudo, filmes e séries dispõem de recursos que outras mídias não têm: imagem, enquadramento, movimento, pausa, ritmo. É justamente essa combinação que permite mostrar, sugerir e construir sentido sem precisar explicar tudo em palavras. Se um personagem segura um copo de café fumegante, a imagem já comunica o essencial.

Quando essa adaptação à atenção dividida chega ao roteiro, o efeito tem sido esse que temos visto: diálogos passam a carregar funções que antes pertenciam à encenação e ao enquadramento. Personagens explicam o que sentem, verbalizam conflitos que já estão claros e descrevem ações que o espectador acabou de ver. Não porque roteiristas tenham se tornado menos competentes, mas porque o sistema passou a dar preferência por histórias que sobrevivem mesmo quando vistas de relance.

Uma vez que as plataformas organizam suas decisões em torno de métricas de retenção, abandono e continuidade de visualização, o objetivo deixa de ser criar envolvimento e passa a ser evitar a perda do espectador no fluxo. Nada disso implica demonizar o público nem defender um único modelo de produção, já que diferentes mídias fazem sentido para diferentes momentos da semana. Podcasts acompanham tarefas domésticas ou uma corrida; vídeos curtos funcionam bem em pausas do trabalho. Mas quando me sento para assistir a um filme ou a uma série, espero envolvimento, não a sensação de que alguém está explicando o que já estou vendo.

Talvez a boa notícia esteja justamente nas reclamações crescentes dos próprios espectadores e no êxito recente de obras mais densas como “Succession“, “The White Lotus“, “Severance” e “Pluribus“. Esses casos sugerem que não é verdade que toda narrativa precise funcionar sob atenção dividida. Há espaço, e há demanda, por histórias que confiam na inteligência do espectador e recuperam a força do audiovisual: afinal, mostrar continua sendo mais forte do que explicar.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Source link

Destaques da Semana

Temas

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas

spot_imgspot_img