quarta-feira, janeiro 14, 2026

EUA usam a força para conter deslocamento do poder global – 05/01/2026 – Mundo

Difícil dizer, no calor dos acontecimentos, se a demonstração inequívoca do poder militar norte-americano em Caracas é expressão de força ou de fraqueza do império. Conjunturalmente, Donald Trump atravessava, até o início do ataque, uma curva descendente de popularidade. No plano estrutural, os Estados Unidos enfrentam o declínio de suas reservas de petróleo justamente quando se deram conta de que perderam a corrida da transição verde —e de que a demanda global por energia tende a crescer intensamente com a adoção acelerada de ferramentas de inteligência artificial.

Nesse contexto, o petróleo venezuelano retorna ao centro do tabuleiro energético, tanto pela magnitude de suas reservas quanto pela dependência do sistema de refino norte-americano ao petróleo pesado, como o produzido na Venezuela.

Na esfera econômica, a encruzilhada americana se manifesta em dois níveis. No campo tecnológico, o setor privado enfrenta o avanço mais lento do que o esperado rumo à Inteligência Artificial Geral (AGI), promessa de uma nova fronteira de produtividade e crescimento. A frustração das expectativas de retorno dos investimentos nesse filão levanta o espectro de uma bolha, cujos efeitos poderiam desestabilizar o ecossistema financeiro e de inovação do país. Já no plano monetário, o endividamento público atinge limites críticos, alimentando prognósticos de uma eventual ruptura do sistema monetário internacional, à medida que o dólar se fragiliza como referência de reserva global.

Em paralelo, a ofensiva recoloca em disputa a própria arquitetura da ordem internacional. Ao fragilizar mais uma vez os princípios de soberania e não intervenção, Washington acelera a montagem de circuitos energéticos, financeiros e de segurança que China, Rússia e parceiros do Brics+ buscam, com vistas a escapar tanto do dólar quanto dos mecanismos onusianos tradicionais. Para a América Latina, trata-se de saber se, com o revigoramento da Doutrina Monroe, a região será apenas espectadora indignada ou se conseguirá formular uma posição própria diante de um precedente que amanhã pode se voltar contra qualquer governo “incômodo” ou rico em terras raras.

Força ou fraqueza? Os próximos meses darão o tom não apenas do destino da Venezuela, mas também do ordenamento mundial em gestação. Repetirão os Estados Unidos seus fracassos em intervenções passadas —Vietnã, Iraque, Líbia, Afeganistão? Conseguirão neutralizar a resistência venezuelana e impor algum tipo de transição política? As demais potências se limitarão a notas de protesto? E, por fim, como reagirá a sociedade venezuelana? Verá a invasão como emblema da tutela americana, ou como oportunidade de redefinição interna?

A pequena história, aquela que se constrói nos gestos do cotidiano, pode surpreender. A grande história, movida em arcos largos de tempo, parece indicar o declínio —e a inconformidade— dos EUA diante do deslocamento do poder em direção à China, bem como a intenção unívoca e permanente dos EUA, de George W. Bush (2001), logo após a vitoria de Hugo Chavez, a Trump (2026), de desestabilizar o movimento chavista.

A força que se impõe pela guerra pode ser apenas a forma terminal de uma fraqueza civilizacional. Quando um império precisa reafirmar-se pela destruição, já não defende uma ordem —apenas posterga o reconhecimento do seu próprio ocaso.

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