Autoridades federais de saúde americanas anunciaram nesta segunda-feira (5) revisões drásticas no conjunto de vacinas recomendadas para crianças no país, reduzindo o número de doenças prevenidas por vacinas de rotina de 17 para 11.
Jim O’Neill, diretor interino dos CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças), atualizou o calendário de imunização da agência para refletir as mudanças, com efeito imediato, disseram autoridades em uma coletiva de imprensa.
O anúncio representa uma mudança significativa na política federal de vacinas e, talvez, a mudança mais importante até agora na prática de saúde pública por Robert F. Kennedy Jr., o secretário de saúde dos EUA, que há muito tempo busca reduzir o número de vacinas que as crianças americanas recebem.
Os estados, não o governo federal, têm autoridade para exigir vacinações. Mas as recomendações do CDC influenciam fortemente as regulamentações estaduais. Kennedy e seus nomeados fizeram outras alterações no calendário de vacinação infantil, mas essas tiveram impacto menor.
O novo calendário contorna o processo detalhado e metódico baseado em evidências que sustentou as recomendações de vacinas no país por décadas. Até agora, um painel federal de consultores independentes normalmente revisava dados científicos para cada nova vacina, e quando e como ela deveria ser administrada às crianças, antes de fazer recomendações.
Especialistas em saúde pública expressaram indignação com as revisões abrangentes, afirmando que autoridades federais não apresentaram evidências para apoiar as mudanças ou incorporaram contribuições de especialistas em vacinas.
“A mudança abrupta em todo o calendário de vacinação infantil dos EUA é alarmante, desnecessária e colocará em risco a saúde das crianças nos Estados Unidos“, diz Helen Chu, médica e imunologista da Universidade de Washington em Seattle e ex-membro do comitê consultivo federal de vacinas.
Chu também contestou a afirmação das autoridades de saúde de que a medida aumentaria a confiança nas vacinas e elevaria as taxas de imunização. Acontecerá o oposto, alerta.
“Os pais já estão preocupados com o que estão ouvindo nas notícias sobre a segurança das vacinas, e isso aumentará a confusão e diminuirá a adesão à vacinação“, diz Chu.
A desconfiança nas vacinas levou a um declínio constante nas taxas de vacinação e ao ressurgimento de doenças evitáveis, incluindo sarampo e coqueluche. Em 2025, os Estados Unidos registraram mais casos de sarampo do que em qualquer ano desde 1993.
Ainda este mês, o país pode perder seu status oficial de eliminação do sarampo, que mantém desde 2000.
“Infelizmente, está ficando cada vez mais claro que não podemos mais confiar na liderança do nosso governo federal para obter informações credíveis sobre vacinas, e isso é uma tragédia que causará sofrimento desnecessário”, diz Sean O’Leary, presidente do comitê de doenças infecciosas da Academia Americana de Pediatria.
A academia de pediatria “continuará a publicar calendários de vacinação baseados em evidências com os melhores interesses dos americanos em seu núcleo, não baseados em uma agenda política”, disse ele. A instituição está processando o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA após o cancelamento de US$ 12 milhões (R$ 64 milhões) em subsídios para programas de saúde infantil para a organização.
O novo calendário do CDC continua a recomendar vacinas contra algumas doenças, incluindo sarampo, poliomielite e coqueluche, para todas as crianças.
A imunização contra outras seis doenças —hepatite A, hepatite B, doença meningocócica, rotavírus, influenza e vírus sincicial respiratório, a principal causa de hospitalização em bebês americanos— será recomendada apenas para alguns grupos de alto risco ou após consulta com um profissional de saúde.
Em setembro, um painel federal de consultores de vacinas também recomendou que as vacinações contra a Covid-19 fossem administradas apenas após consulta com um profissional de saúde.
A necessidade de consultar um médico dissuadirá alguns pais e levará a uma queda nas taxas de imunização, dizem especialistas. A mudança “coloca o ônus sobre pediatras e pais para tomar essas decisões sem orientação”, diz Chu. “Esta política nos faz retroceder, não avançar.”
Não está claro quais evidências levaram a essas decisões, diz Demetre Daskalakis, que liderou o centro do CDC que supervisionava a política de vacinas antes de renunciar em agosto.
“Anúncios sigilosos de mudanças sísmicas na política de vacinas deveriam incluir especialistas em pediatria, doenças infecciosas e imunologia”, diz Daskalakis. “Estes estão faltando, assim como o processo científico e uma revisão dos dados.”
Em 5 de dezembro, o presidente Donald Trump orientou Kennedy a alinhar o calendário de vacinação dos EUA com os de outras nações ricas, citando Dinamarca, Alemanha e Japão.
“O presidente Trump nos orientou a examinar como outras nações desenvolvidas protegem suas crianças e a tomar medidas se elas estiverem fazendo melhor”, diz Kennedy em um comunicado na segunda-feira (5).
“Após uma revisão exaustiva das evidências, estamos alinhando o calendário de vacinação infantil dos EUA com o consenso internacional, ao mesmo tempo em que fortalecemos a transparência e o consentimento informado”, diz ele. “Esta decisão protege as crianças, respeita as famílias e reconstrói a confiança na saúde pública.”
Autoridades de saúde disseram que as mudanças não afetariam o acesso às vacinas ou sua cobertura por companhias de seguros.
“Todas as vacinas atualmente recomendadas pelo CDC continuarão cobertas por seguros sem compartilhamento de custos”, diz Mehmet Oz, administrador dos Centros de Serviços Medicare e Medicaid, em um comunicado.
“Nenhuma família perderá acesso”, diz Oz.
AHIP, uma organização comercial nacional para muitas seguradoras de saúde, e Blue Cross Blue Shield disseram que todas as vacinas que o CDC recomendou anteriormente seriam cobertas pelo menos até o final de 2026.
Mesmo com o endosso do presidente, alguns especialistas jurídicos questionaram se Kennedy tinha autoridade para refazer unilateralmente o calendário de vacinas.
De acordo com uma lei federal americana chamada Lei de Procedimento Administrativo, “as agências devem realizar um processo rigoroso e fundamentar esse tipo de decisão política importante em evidências”, diz Richard H. Hughes IV, advogado e professor de direito de vacinas na Universidade George Washington.
As agências são proibidas de agir “arbitrária e caprichosamente”, diz Hughes, que está liderando um esforço para processar Kennedy e o departamento de saúde por mudanças nas recomendações da vacina Covid que Kennedy anunciou no ano passado.
utoridades de saúde disseram que revisaram recomendações de vacinas em 20 países e que o novo calendário reflete “consenso” sobre as vacinas consideradas mais importantes.
Mas sua “decisão terá que justificar claramente tanto por que isso é uma boa ideia, dadas as diferenças entre os países, quanto por que o secretário acha que é justificado anular recomendações anteriores de especialistas, para sobreviver à revisão judicial”, diz Dorit Reiss, especialista em política e lei de vacinas da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia, São Francisco.
Discussões com autoridades de saúde de outras nações persuadiram autoridades dos EUA a preservar recomendações para a vacina contra varicela, ou catapora, bem como para uma dose da vacina contra o papilomavírus humano, que é creditada por reduzir drasticamente o risco de câncer cervical entre mulheres americanas.
Como fica o novo calendário de vacinação infantil nos EUA
O CDC ainda recomenda que todas as crianças sejam vacinadas contra:
— Difteria, tétano e coqueluche, que são combinados em uma única vacina
— Sarampo, caxumba e rubéola, também combinados em uma única vacina
— Poliomielite
— Haemophilus influenzae tipo b
— Pneumocócica conjugada
— Catapora
— Papilomavírus humano, mas apenas uma dose em vez de múltiplas injeções
A agência não recomenda mais que todas as crianças recebam vacinas contra seis doenças, que podem ser fatais:
— Hepatite A
— Hepatite B
— Influenza
— Meningite
— Vírus sincicial respiratório
— Rotavírus
Em vez disso, para a maioria dessas doenças, recomenda que crianças de alto risco sejam vacinadas e que os pais de outras crianças consultem um profissional de saúde sobre a adequação das vacinas.





