
O Vale do Silício está engolindo Hollywood. E o significado desta notícia é muito maior do que as cifras em disputa: o fenômeno tende a revolucionar o mercado audiovisual e ameaça até mesmo a existência das salas de cinema.
Nos últimos dias, a Netflix sacramentou um acordo bilionário com a Sony. A gigante do streaming decidiu pagar mais de US$ 7 bilhões (R$ 37,6 bilhões) somente para deter a prioridade, para o mundo inteiro, na exibição dos filmes da multinacional japonesa.
Seria apenas mais um movimento ambicioso da gigante do streaming, não fosse um novo e importante capítulo da revolução. Outras empresas de tecnologia, como a Amazon, o Google e a Apple, também estão tomando o lugar dos velhos estúdios de Los Angeles.
É uma mudança profunda na indústria do entretenimento. Uma transição de autoridade que redefine completamente o modelo de negócios que, por décadas, sustentou o que já foi chamado de “a sétima arte”.
O poder financeiro das big techs
Netflix, Amazon, Apple e Google operam com orçamentos que superam o PIB de muitos países. Enquanto os estúdios tradicionais dependem do sucesso de cada lançamento nos cinemas, as big techs conseguem distribuir seus riscos em diversas frentes e em escala global.
A Netflix investe dezenas de bilhões de dólares por ano em conteúdo. A Amazon trata o audiovisual como uma parte de um ecossistema maior, que inclui comércio eletrônico, nuvem de armazenamento de dados e logística. A Apple, por sua vez, financia filmes como quem desenvolve um novo iPhone, pensando em marca, prestígio e fidelização.
As empresas do Vale do Silício não divulgam números oficiais, mas se estima que Netflix, Amazon e Apple gastaram em 2025 aproximadamente US$ 40 bilhões (R$ 215,6 bilhões) somente em produção de filmes e séries. São altos investimentos em conteúdo que devem mais do que dobrar para a nova temporada.
Tamanho poder financeiro já mudou a hierarquia da indústria. Diretores, atores e roteiristas sabem onde estão os recursos e projetos que antes levariam anos para serem aprovados em estúdios agora nascem prontos nas plataformas.
O caso Netflix e Warner
Um negócio simboliza esse momento histórico de transferência de poder dos estúdios tradicionais para as big techs. A Netflix fez proposta de US$ 82,7 bilhões (aproximadamente R$ 446 bilhões) para adquirir a Warner Bros..
A investida da plataforma de streaming expõe, além da poderosa capacidade de investimentos, uma mudança de paradigma na indústria. Em vez de apenas licenciar títulos ou competir pela atenção do público, a Netflix quer a posse direta dos meios de produção e distribuição.
A compra da Warner Bros. pela Netflix foi aprovada pelos conselhos das duas empresas, mas ainda não foi oficialmente concluída. A transação ainda depende de aprovações regulatórias nos Estados Unidos e em outras jurisdições e a Paramount apareceu como uma concorrente pelos direitos da tradicional companhia de cinema.
O fechamento da transação está previsto para ocorrer entre o final de 2026 e o início de 2027. Caso o acerto se confirme, a Netflix assumiria o controle de um dos catálogos mais importantes de Hollywood, de franquias culturais de sucesso, como Harry Potter e Batman, de marcas fortes como a HBO e de estúdios de cinema e televisão.
Poder criativo da tecnologia (algoritmo e IA)
Com a transferência de poder dos estúdios de cinema para o Vale do Silício, a própria criação cinematográfica está sendo alterada. As big techs sabem exatamente o que cada usuário vê, pausa, abandona ou repete no streaming. O algoritmo passa a substituir o faro do produtor ou do roteirista.
Com os dados obtidos a partir do comportamento do público, os roteiros são ajustados para reter atenção. As séries ganham ganchos calculados. As capas exibidas na plataforma mudam conforme o perfil do espectador. E a narrativa deixa de ser apenas expressão artística e passa a ser engenharia de engajamento. As produções já são feitas com uma espécie de “garantia de sucesso”.
A inteligência artificial aprofunda esse processo. Ferramentas de IA já auxiliam na escrita, na edição, na dublagem e na criação de imagens. O cinema entra em uma era em que parte da criação não nasce da intuição humana, mas de padrões estatísticos.
Hollywood sempre foi uma indústria. Mas ainda preservava o mito do autor, do gênio criativo. No Vale do Silício, o criador é o sistema. O filme não nasce mais apenas da visão de um diretor, mas da leitura fria de milhões de comportamentos.
Mudanças na janela de exibição
O negócio firmado entre a Netflix e a Sony reduz ainda mais a distância entre cinema e streaming. Com o acerto, a plataforma garantiu prioridade global sobre os filmes do estúdio e encurtou a exclusividade das salas de cinema.
Antes do streaming, os filmes estreavam na telona, depois de meses chegavam ao vídeo doméstico e, por fim, à televisão. Essa “janela de exibição” funcionou por décadas e garantia aos cinemas exclusividade e status.
Mas as big techs romperam essa lógica. Hoje, a Netflix lança filmes com passagem simbólica pelas salas para poder concorrer ao Oscar ou, em muitos casos, diretamente no streaming. Quando há exibição nos cinemas, a espera caiu para 30 ou 45 dias.
O impacto é direto. As redes de cinema perdem o poder de atração que tinham com grandes estreias. O público se acostuma a esperar poucas semanas para ver o mesmo título em casa, pagando uma mensalidade fixa em vez de um ingresso caro.
Para os estúdios tradicionais, isso altera toda a equação financeira. As bilheterias já não são mais o centro do negócio. O valor de um filme passa a ser medido por assinaturas geradas, tempo de permanência na plataforma e engajamento do público.
Transformação cultural
Durante décadas, “ir ao cinema” foi um ritual social. As pessoas saem de casa para se sentarem em silêncio diante de uma tela gigante junto de dezenas de desconhecidos. Hoje, para uma geração inteira, ver um filme significa apertar um botão no controle remoto no sofá de casa.
O streaming moldou também uma nova relação com a obra audiovisual. O espectador pausa, volta, assiste em capítulos improvisados. O filme passou a disputar atenção com a conversa paralela e com o celular.
Os novos hábitos refletem nas bilheterias. Pesquisas no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia mostram que o público nos cinemas segue abaixo dos níveis pré-pandemia. Levantamentos indicam que entre 40% e 70% das pessoas passaram a ir menos às salas, citando o streaming como fator central da mudança de hábito. Quase 6 mil salas de cinema fecharam nos EUA depois da pandemia.
Em abril de 2025, Ted Sarandos, CEO da Netflix, afirmou em entrevista à Variety: “Estamos em um período de transição. As pessoas cresceram pensando ‘quero fazer filmes em uma tela gigantesca e que estranhos os assistam e que eles fiquem em cartaz no cinema por dois meses, com pessoas chorando e sessões esgotadas’. É um conceito ultrapassado”.
O espectador se acostumou a esperar poucas semanas para ver lançamentos em casa. O cinema deixou de ser destino natural do filme e virou apenas uma opção entre outras. As salas resistem como espaços premium, voltados a franquias gigantes, super-heróis e efeitos especiais. Mas devem, cada vez mais, perder espaço. Ir ao cinema, no futuro, será programa apenas de cinéfilos.
Netflix já foi vista como inviável
Há uma ironia nesse processo todo. A Netflix nasceu em 1997 como uma ideia considerada frágil: alugar DVDs pela internet. Em 2000, seus fundadores ofereceram a empresa à Blockbuster por US$ 50 milhões. Foram recusados. O modelo foi tratado como irrelevante.
A locadora dominava o mercado até então. As salas de cinema pareciam intocáveis e a Netflix era apenas uma curiosidade digital. Duas décadas depois, a Blockbuster desapareceu e as plataformas passaram a ditar o ritmo da indústria, tendo a Netflix como líder nesse mercado.
A história revela como Hollywood subestimou o Vale do Silício. O cinema não acabou nem vai acabar totalmente. Mas o comando já mudou de endereço. Saiu das colinas de Los Angeles e foi parar nos servidores ao sul de San Francisco.
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Autor: Gazeta do Povo







