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Hipertensão é doença silenciosa e ainda subdiagnosticada – 10/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

A cabeleireira Silvia Martins, 48, conta que vive com hipertensão desde os 17 anos, quando a pressão subiu na sua primeira gestação. Após mais de duas décadas de acompanhamento na atenção primária, foi encaminhada pelo SUS (Sistema Único de Saúde) ao Incor (Instituto do Coração), onde segue em tratamento desde que o quadro se agravou.

Com um diagnóstico de hipertensão refratária —quando a pressão não é controlada nem mesmo com múltiplos medicamentos—, ela toma 28 comprimidos por dia e ainda enfrenta dores, cansaço e crises frequentes. Deixou de trabalhar por causa das limitações. “Se eu forço, começo a suar frio, fico pálida e sinto dor no peito.”

A hipertensão é a doença crônica não transmissível mais prevalente no Brasil e o principal fator de risco para infarto e AVC (acidente vascular cerebral), segundo diretrizes nacionais e dados do Ministério da Saúde. Especialistas ouvidos pela Folha afirmam que os principais gargalos no enfrentamento da doença são as falhas no rastreamento e no diagnóstico precoce e a baixa adesão ao tratamento.

O Ministério da Saúde afirma que os atendimentos ambulatoriais relacionados à hipertensão no SUS quase triplicaram entre 2022 e 2025, passando de 916,7 mil para 2,6 milhões. A pasta estima que cerca de 30% da população brasileira tenha a doença.

Quando não controlada, a hipertensão pode aumentar os riscos de infarto, insuficiência cardíaca, AVC e comprometimento dos rins, que, em casos graves, pode levar à necessidade de diálise. Além disso, afeta os vasos sanguíneos, acelera a aterosclerose (acúmulo de gordura nas artérias) e eleva o risco de aneurismas.

O diretor da Unidade de Hipertensão Arterial do Incor do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), Luiz Bortolotto, estima que 90% dos pacientes não apresentam sintomas e podem conviver com a doença por anos sem diagnóstico ou acompanhamento médico.

Para o especialista, é fundamental que a pressão seja aferida de forma rotineira em qualquer consulta na atenção básica, independentemente da queixa do paciente. A SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia) faz a mesma recomendação ao ressaltar a necessidade de busca ativa de pacientes.

Para João Vicente da Silveira, cardiologista da Sociedade Brasileira de Hipertensão, como a maioria dos pacientes não apresenta sintomas, a doença é conhecida como “assassino silencioso”.

“O grande problema é que as pessoas não sentem nada. Não procuram o médico e não aferem a pressão. Ficam anos com a pressão elevada sem saber”, diz.

Para Bortolotto, outro problema para o controle da hipertensão na atenção básica é a chamada inércia terapêutica, quando a medicação disponível não é utilizada ou combinada da forma mais adequada pelos médicos.

A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, da SBC, aponta que cerca de 75% dos pacientes hipertensos no Brasil são tratados no SUS, que oferece as principais classes de anti-hipertensivos.

“Dá para tratar a grande maioria dos pacientes com o que há disponível na rede pública. Mas é preciso combinar corretamente”, diz Bortolotto.

De acordo com o especialista, a maior parte dos hipertensos pode ser acompanhada em uma UBS (Unidade Básica de Saúde), porta de entrada no SUS. Ele estima que apenas de 10% a 15% necessitem de atendimento em serviços de maior complexidade.

Múltiplos medicamentos dificultam adesão ao tratamento

Uma limitação importante citada pelos especialistas é que os programas de distribuição do Ministério da Saúde não dispõem de combinações em um único comprimido para tratar a hipertensão. A necessidade de tomar vários medicamentos por dia atrapalha a adesão, levando parte dos pacientes a abandonar o tratamento ou a segui-lo de forma inadequada, aponta Silveira.

A diretriz brasileira aponta que cerca de 50% dos pacientes com doenças crônicas no país não tomam os medicamentos conforme o prescrito, o que contribui para aumento de hospitalizações e mortalidade.

Reportagem da Folha mostrou que mais de 40 entidades médicas da América Latina defendem que a não adesão ao tratamento de doenças crônicas como hipertensão e diabetes seja reconhecida como fator de risco modificável para infarto e AVC.

Entre as propostas defendidas pelos especialistas para melhorar a adesão ao tratamento da hipertensão está a incorporação, no SUS, de combinações de dois ou três medicamentos em um único comprimido, estratégia já disponível na rede privada por um custo de cerca de R$ 150 ao mês.

Para a SBC, a combinação fixa simplifica a rotina, aumenta a persistência no tratamento, permite controle mais precoce do quadro e reduz inércia terapêutica, hospitalizações e risco de morte, além de estar associada a menos efeitos adversos do que o uso isolado de doses mais altas.

Os efeitos colaterais das medicações anti-hipertensivas também são apontados como causa frequente de abandono do tratamento e um dos principais desafios para a adesão, segundo a SBC. Mulheres na menopausa e idosos relatam com ainda maior frequência sintomas como tontura e queda de pressão ao levantar.

Silveira diz que o custo do medicamento combinado é uma das justificativas dos órgãos públicos para a não inclusão no SUS. Ele afirma, contudo, que estudos de custo-efetividade mostram redução casos de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e internações em UTI. “O benefício supera o custo”, argumenta.

Procurado, o Ministério da Saúde diz que a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) avaliou em 2023 a incorporação da combinação entre os medicamentos benazepril e anlodipino para hipertensão, com parecer desfavorável.

A pasta afirma que, entre os critérios avaliados para a decisão à época, foi considerada a ausência de evidências a respeito de uma maior adesão ao tratamento pelos pacientes.

Além dos múltiplos medicamentos, pacientes com hipertensão refratária podem ser encaminhados para a denervação renal, como no caso da cabeleireira Silvia Martins. Segundo Silveira, o procedimento é feito com a introdução de um cateter pela artéria da virilha até os vasos que irrigam os rins. Ali são aplicadas pequenas descargas de radiofrequência para reduzir a atividade dos nervos que atuam no controle da pressão. Com a redução desse estímulo, os níveis tendem a cair.

A denervação renal, porém, não está disponível no SUS. O Ministério da Saúde afirma que não há pedido na Conitec para análise de incorporação do procedimento.

Silvia conta que já foi submetida a uma denervação renal em 2021 e utilizou a técnica disponível à época, com um único cateter. Agora, os médicos avaliam a possibilidade de repetir o procedimento com uma tecnologia mais recente, que utiliza quatro cateteres, considerada mais eficaz. Ela deve recorrer à Justiça para conseguir acesso gratuito.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Autor: Folha

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