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Quem é o Bitcoin, afinal? – 21/01/2026 – De Grão em Grão

Durante séculos, o ouro foi representado exatamente como ele é: pesado, raro e difícil de extrair. Não por acaso, quando alguém quer vender algo como “seguro”, costuma dourar a embalagem. Foi assim com medalhas, moedas, barras… e agora com o Bitcoin. A imagem de uma moeda dourada (na figura abaixo) com o símbolo do Bitcoin talvez diga mais sobre o desejo de quem investe do que sobre a natureza real do ativo.

Aristóteles observava que o dinheiro não vale pelo que ele é, mas porque as pessoas concordam em aceitá-lo como tal. Essa distinção entre aparência e função é essencial quando tentamos responder à pergunta que muitos investidores ainda fazem: afinal, quem é o Bitcoin?

Nos últimos anos, ganhou força a narrativa de que o Bitcoin seria o “novo ouro”. Um ativo escasso, descentralizado e, em tese, uma reserva de valor para tempos de incerteza. O problema é que, quando observamos seu comportamento recente — especialmente no último ano — ele passou longe de se comportar como ouro ou prata. Enquanto os metais preciosos exerceram, em diversos momentos, seu papel clássico de proteção, o Bitcoin seguiu outro roteiro.

O gráfico das correlações (abaixo) dos retornos semanais em janelas móveis de seis meses ajuda a desmontar essa analogia. A correlação do Bitcoin com ouro e prata existiu em alguns períodos, mas tem sido instável e frequentemente é baixa. Em diversos momentos recentes, ela se aproxima de zero ou se torna negativa, justamente quando a ideia de proteção seria mais desejada.

Em contraste, os ativos cujos retornos mais se correlacionam com o Bitcoin são as ações — em especial o NASDAQ e o S&P 500. A correlação positiva e recorrente com esses índices indica que o Bitcoin tem se comportado muito mais como um ativo sensível ao apetite por risco, à liquidez global e às expectativas de crescimento do que como uma reserva de valor defensiva.

Isso ajuda a explicar por que o Bitcoin costuma sofrer nos mesmos momentos em que o mercado acionário recua e se valoriza quando o ambiente é favorável a ativos de risco. Na prática, ele tem reagido mais como uma ação que representa o humor do mercado do que como o ouro que muitos imaginavam estar comprando. Acredito que muitos não o comprariam se a visão criada do ativo não fosse uma moeda de ouro, mas algo mais parecido com uma cautela de ação, mas sem os dividendos.

A falsa sensação de que o Bitcoin seria o novo ouro nasce, em parte, do momento em que ele ganhou atenção. Sua ascensão coincidiu com um período prolongado de juros baixos, estímulos monetários e valorização dos mercados acionários. Nesse ambiente, a correlação com ações já era elevada, mas não incomodava — ao contrário, era confundida com mérito próprio.

O fato de o Bitcoin ainda ser um ativo jovem também pesa. Ele pode, no futuro, assumir um papel diferente no sistema financeiro. Pode até se tornar algo que não se encaixe em nenhuma categoria tradicional. O que os dados mostram hoje, porém, é que as características que o aproximariam do ouro ainda não se materializaram de forma consistente.

Quando um investidor compra um ativo acreditando que ele o protegerá nos momentos difíceis, mas ele se comporta como os ativos que mais sofrem nesses mesmos momentos, o risco não está apenas na volatilidade, mas na expectativa equivocada. Antes de decidir quanto Bitcoin faz sentido ter, talvez a pergunta mais honesta não seja se ele é o novo ouro, mas se entendemos, de fato, que tipo de risco estamos assumindo ao comprá-lo.

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.

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Autor: Folha

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