terça-feira, março 10, 2026
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Guerra no Irã já se reflete na economia do Brasil

O cenário positivo que alguns analistas desenhavam para a economia brasileira no primeiro trimestre de 2026 sofreu um revés abrupto. A escalada militar no Oriente Médio, protagonizada por ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, empurrou o barril de petróleo para além da barreira dos US$ 100 nesta segunda-feira (9).

O valor é exatamente o limiar que o governo brasileiro apontava como divisor de águas: na semana anterior, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, havia dito que o impacto inflacionário chegaria com força ao Brasil caso o barril de petróleo ultrapassasse os US$ 100.

Nesta segunda, o Brent – principal referência internacional para o preço do petróleo – chegou a US$ 119,50. Na manhã desta terça (10), o Brent recuava para US$ 93,07, mas acumula alta de 35,5% em um mês.

Para o Brasil, o receio que o governo tentou calibrar em palavras tornou-se, em menos de uma semana, o cenário central: inflação de custos ameaçando o poder de compra das famílias, e o Banco Central diante de um dilema que pode adiar o início do ciclo de cortes na Selic.

Da gasolina aos alimentos, inflação se espalha pela economia

O repasse decorrente da crise no Oriente Médio ocorre de forma quase imediata pelo canal dos combustíveis. André Braz, coordenador de índices de preços do FGV Ibre, explica que oscilações internacionais chegam rapidamente ao bolso do consumidor. “No curto prazo, esse movimento tem o potencial de interromper ou até reverter a tendência de queda da inflação”, alerta.

Mas o impacto vai além das bombas de combustíveis. O diesel tem peso direto menor na inflação, no entanto sua influência indireta é ampla: o transporte rodoviário responde por cerca de 80% da movimentação de cargas no país — quando o diesel sobe, o frete sobe junto, afetando alimentos, bens industriais e serviços.

O encarecimento do petróleo se infiltra ainda em fertilizantes, resinas plásticas e no custo da energia elétrica em períodos de baixa nos reservatórios, quando o país recorre a termelétricas. Se os preços permanecerem elevados, esses aumentos tendem a se difundir por toda a cadeia produtiva ao longo de 2026.

Agronegócio entre os mais afetados

O setor mais exposto, depois do energético, é o agronegócio. O Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome, e o Oriente Médio fornece um terço da ureia importada pelo país, segundo o Itaú BBA.

Com a paralisação de plantas de gás no Catar após ataques de drones, o preço da ureia saltou mais de 10% em poucos dias. Cada alta de 10% nos fertilizantes e no diesel eleva em cerca de 5% o custo do produtor de soja e milho, segundo o Bradesco.

A região também é destino de 14% do açúcar brasileiro, 9% do milho e 8% do frango exportados. O banco avalia que um redirecionamento total dessas vendas é improvável, e que a sazonalidade reduz o impacto imediato no milho. Um efeito mitigador existe no setor sucroenergético: a alta da gasolina torna o etanol mais competitivo, favorecendo esse mix de produção.

Alta do petróleo pode travar corte da Selic

A reunião do Copom dos dias 17 e 18 tornou-se um evento ainda mais crítico para o mercado. Antes do conflito, o consenso era de um corte de meio ponto percentual na taxa de juros Selic, para 14,5%. Mas analistas avaliam que a redução prevista dificilmente acontecerá.

Para Vital, da Warren Investimentos, o petróleo acima de US$ 100 “reduz o espaço para uma flexibilização mais intensa”. Já a economista-chefe da InvestSmart XP, Mônica Araújo, aponta para um corte de 0,25 p.p. em vez dos 0,50 p.p. sinalizados.

Rafael Pastorello, do Banco Sofisa, vai além: “A possibilidade de manutenção da Selic tornou-se significativamente maior. O fechamento do Estreito de Ormuz provocou reprecificação imediata nas curvas de juros e ajustes nas opções de Copom.”

Petrobras entre o mercado e a pressão política

Para a Petrobras, preço alto do petróleo traz oportunidades e riscos. As receitas em dólar melhoram, mas a defasagem nos preços internos — 41% no diesel e 17% na gasolina — cria pressão política crescente para interferência nos preços, especialmente em ano eleitoral.

Gonçalves explica que a lógica de precificação não comporta desvios: “O petróleo é precificado em dólar globalmente. Se a Petrobras vender abaixo, incorre em prejuízos.”

Pastorello alerta que conter preços artificialmente é “politicamente conveniente no curto prazo, mas gera custos relevantes no médio e longo prazo para os acionistas.” O impacto final dependerá de quando e quanto a Petrobras reajusta, por quanto tempo o petróleo permanece elevado e como o câmbio se comporta.

VEJA TAMBÉM:

  • Guerra no Irã pressiona preço de combustíveis e amplia risco de interferência na Petrobras

Real pode se beneficiar da crise

Maurício Une e Renan Alves, economistas do Rabobank, identificam um efeito inesperado: a crise pode, paradoxalmente, favorecer o real. Investidores globais estão diversificando ativos para fora dos EUA — movimento que tende a beneficiar moedas de países latino-americanos.

Ainda assim, o banco projeta o dólar a R$ 5,55 no fim de 2026. Na semana passada, a moeda americana já encostava nos R$ 5,30, retomando trajetória de alta após período de recuo.

O gargalo do petróleo no Oriente Médio

A ofensiva iniciada em 28 de fevereiro colocou o risco geopolítico no centro das atenções dos mercados globais. O Estreito de Ormuz — por onde passam cerca de 13 milhões de barris por dia, o equivalente a 31% do petróleo transportado por mar, segundo a Kpler — conecta Arábia Saudita, Irã, Iraque e Emirados Árabes ao mercado global.

Para atenuar os efeitos da disparada do preço do petróleo no início desta semana, ministros de Energia do G7 se reuniram virtualmente para discutir a liberação de reservas emergenciais. Os EUA também avaliam uma liberação conjunta de 300 a 400 milhões de barris, o equivalente a cerca de 25% a 30% das reservas combinadas do grupo.

O eventual prolongamento do conflito criaria uma onda global de impactos econômicos. “Uma alta de 10% no combustível implica elevar o preço de praticamente tudo nos Estados Unidos”, diz o economista e professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan.

Autor: Gazeta do Povo

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