Dois grandes patrocinadores de uma série de jantares pop-up de US$ 1.500 (R$ 7.700) por noite em Los Angeles, organizados pelo aclamado restaurante Noma, de Copenhague, Dinamarca, se retiraram após uma reportagem do The New York Times revelar que seu chef, René Redzepi, abusou de funcionários por anos.
A American Express e a Blackbird, uma startup de hospitalidade, anunciaram na segunda-feira (9) que desistiriam da série de 16 semanas —totalmente esgotada— prevista para começar na quarta-feira. Ambas as empresas haviam comprado blocos de ingressos para seus membros. A Resy American Express adquiriu seis noites para portadores do cartão Platinum nos Estados Unidos, e a Blackbird comprou cerca de US$ 100 mil em ingressos para diversas datas ao longo da temporada.
As duas empresas informaram que reembolsariam os clientes e doariam todo o dinheiro já arrecadado a organizações dedicadas à proteção de trabalhadores da área de restaurantes.
“As práticas passadas de René, segundo a própria admissão dele, foram inaceitáveis e abomináveis”, disse Ben Leventhal, fundador da Blackbird, em comunicado, referindo-se a um pedido de desculpas publicado por Redzepi após a matéria do The New York Times. “Não podemos nos apoiar na passagem do tempo ou em alegações de reabilitação quando esses fatos vêm à tona novamente.”
Um porta-voz da Resy American Express afirmou que a empresa está “se afastando do patrocínio” e que “reinverterá a receita” para apoiar trabalhadores da hospitalidade em Los Angeles.
“Nossa prioridade é apoiar a comunidade gastronômica e garantir que essa decisão não prejudique as muitas pessoas que trabalharam arduamente para tornar essa residência possível —de agricultores locais a fornecedores e outros colaboradores.”
Um representante do Noma não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário.
O Noma é amplamente considerado o restaurante mais influente da última década, conhecido por seus pratos inovadores e pelo compromisso com ingredientes locais, sustentáveis e colhidos na natureza. Ele foi eleito cinco vezes o melhor restaurante do mundo pela lista World’s 50 Best Restaurants e recebeu três estrelas Michelin. Redzepi foi celebrado como um “deus da gastronomia” pela revista Time e condecorado por suas contribuições à cultura dinamarquesa.
Mas, como relatou o The New York Times no sábado (7), Redzepi também ganhou fama entre trabalhadores de cozinha por infligir abusos físicos e psicológicos que ultrapassavam até os padrões de uma indústria marcada por ambientes tóxicos.
Cerca de 35 ex-funcionários contaram ao jornal que, entre 2009 e 2017, ele deu tapas, empurrões e socos em trabalhadores por erros mínimos e chegou a agredi-los quando se enfurecia com alguma falha. Ele também os ameaçava com inclusão em listas negras, deportação e humilhação pública.
O pop-up de Los Angeles virou ponto de polêmica nas redes sociais desde que um ex-funcionário, Jason Ignacio White, começou no mês passado a publicar denúncias sobre os abusos.
O grupo trabalhista One Fair Wage planeja realizar um protesto na tarde de quarta-feira (11) em frente ao local do evento, em Silver Lake, pedindo reparações aos trabalhadores e mudanças nas políticas internas do Noma.
Um porta-voz do restaurante afirmou que, nos últimos anos, a empresa implementou um departamento formal de recursos humanos, programas de treinamento gerencial e uma melhor regulação das jornadas de trabalho.
O evento temporário, semelhante a outros que o Noma já organizou em Sydney, Kyoto e Tulum, terá duração de cerca de 60 noites. Todos os ingressos se esgotaram “em minutos”, disse Redzepi no Instagram, quando foram colocados à venda em 26 de janeiro.
A cada noite, o restaurante vendeu 42 ingressos, o que representa uma receita potencial de US$ 63 mil por noite —cerca de US$ 4 milhões no total. Segundo o site de ingressos Tock, de propriedade da American Express, as reservas são agora intransferíveis e não reembolsáveis.
Das 6 noites que a Resy American Express havia comprado para seus clientes, 3 já estavam esgotadas e as outras três ainda seriam abertas. Clientes que compraram ingressos poderão solicitar reembolso. Todo o lucro das três noites já vendidas será doado, e as outras três “serão devolvidas ao Noma”, informou um porta-voz da Resy.
Leventhal afirmou que está em contato com o Noma e “insistindo para que eles destinem a maior parte dos lucros da mesma forma”.
Autor: Folha








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