O petropolitano Flávio Tavares Pereira Mendes, 55, formou-se na Escola de Música de Brasília, antes de retornar ao Rio de Janeiro e estudar harmonia e arranjo no Cigam (Centro Ian Guest de Aperfeiçoamento Musical), com Ian Guest (1940-2022), renomado pianista, compositor, arranjador e educador musical húngaro-brasileiro, considerado um dos mestres da música popular brasileira.
“Costumo dizer que a minha graduação foi ser assistente do Menescal [compositor e guitarrista Roberto Menescal] por muitos anos e a minha pós foi cumprida nos mais de dez anos em que fui diretor musical da Bibi Ferreira”, disse Flávio Mendes, em entrevista exclusiva à coluna Música em Letras. Amealhando 30 anos de sólida carreira, Flávio Mendes teve seu início profissional trabalhando na gravadora Albatroz, de Roberto Menescal.
Mendes raramente aparece apenas como músico instrumentista, só trabalha com artistas com os quais possa realizar a direção musical de seus álbuns ou espetáculos, como Danilo Caymmi, com quem se apresentará nesta sexta-feira (23) e sábado (24), às 20h, no Sesc Ipiranga, em São Paulo. O espetáculo é “Danilo Caymmi Canta a MPB dos Anos 70”, que convida o público a revisitar uma das fases mais marcantes do gênero e que está com os ingressos esgotados para as apresentações que acontece primeiro no Sesc Jundiaí, na quinta-feira (22), e na sexta-feira (23), no Sesc Ipiranga.
Mendes trabalha com Danilo Caymmi desde 2010, quando gravaram o DVD “Danilo Caymmi e Amigos”. Juntos já fizeram quatro discos em parceria e outros shows. Fez uma turnê com os irmãos Caymmi, num show que comemorava os 100 anos de Dorival, o pai.
Mendes também tocou com o grupo BossaCucaNova por 20 anos, e com ele dividiu o palco com todos os bossanovistas que se possa imaginar. Por exemplo, com Carlinhos Lyra (1933-2023), com quem Mendes gravou, quando o músico autor, entre outras, de “Influência do Jazz”, já estava debilitado para tocar.
A primeira artista com quem Mendes trabalhou foi Marília Pêra (1943-2015), no musical “Estrela Tropical” (2000). Depois dirigiu Zezé Motta, em “Divina Saudade”, espetáculo no qual ela homenageava a divina Elizeth Cardoso (1920-1990). Canetou metade dos arranjos, além de ter realizado a direção musical de “E Quero que a Canção Seja Você”, um show com Leny Andrade (1943-2023), no qual a cantora prestava uma homenagem ao compositor Ronaldo Bôscoli (1928-1994).
Mendes trabalhou com várias outras cantoras, mas considera a mais importante de todas Bibi Ferreira (1922-2019), pois além de acompanhar a atriz em diversos shows e gravações, montou os últimos espetáculos da artista, nos quais foi maestro, arranjador e roteirista.
Leia, a seguir, a entrevista exclusiva que Flávio Mendes concedeu à coluna Música em Letras.
Quais instrumentos musicais você toca e quais utiliza para arranjar?
Toco basicamente violão, um pouco de guitarra, e faço arranjos com lápis e papel, embora atualmente use o software “Dorico”, no computador, além de um teclado para ajudar.
Complete a frase: arranjar é…
Dizem que arranjar é vestir uma música, mas eu acho que é um pouco mais do que isso; é achar a roupa que se encaixe no corpo da música como se ela, a roupa, sempre estivesse ali. Sempre lembrando que o arranjador está a serviço de um artista, ele não é o artista. Precisamos entender com o artista que estética esses arranjos seguirão, e não impor a nossa estética.
O que define um bom arranjo?
Eu sigo os ensinamentos do mestre Don Sebesky [compositor, arranjador, maestro e trombonista de jazz (1937-2023)]: um bom arranjo tem que ser equilibrado (orquestração e forma corretas, timbres bem escolhidos), ter economia (tudo o que é irrelevante deve ser descartado do arranjo, foco (em música popular o importante é o cantor e a melodia da música, o arranjo não pode estar acima ou brigando com a voz) e variedade (tente ao menos uma vez na música surpreender o ouvinte, não o faça ouvir duas ou três vezes a mesma coisa).
Como foi sua relação profissional com Abigail Izquierdo, a Bibi Ferreira (1922-2019), e qual a maior lição que você aprendeu com ela?
Talvez eu tenha que escrever um livro para falar da minha relação com a Bibi. Ela foi uma das pessoas mais inteligentes que eu conheci; para falar com ela no trabalho você tinha que ter atenção máxima, ela sabia bem quando alguém estava tentando enrolar, ou encher linguiça. Ela sabia tudo de palco, sabia como surpreender o público. Um dia eu estava montando um show, no qual ela cantaria o repertório do Frank Sinatra, e ao mesmo tempo eu estava lendo a biografia dele. Eu ia todas as tardes na casa dela para montarmos o espetáculo, e um dia eu cheguei contando que o grande rival da carreira do Sinatra tinha sido o rock, ele era o cantor da juventude e perdeu o posto. Ela então sugeriu que colocássemos no repertório “Rock Around the Clock”. No meio de tantos Gershwins, Cole Porters e Jobins, esse número sempre foi o mais aplaudido do show. A maior lição que ela deixou foi respeitar o público, ele é o mais importante.
Você trabalha com o cantor, compositor e flautista Danilo Caymmi há mais de 15 anos. Qual a característica musical que mais o diferencia de outros artistas?
O Danilo começou a sua carreira como músico, gosta de estar com a gente, não gosta de carro separado, gosta de ir na nossa van, não é o tipo de artista que fica no seu camarim esperando que os músicos passem por lá. É um compositor nato e criativo, e descobriu a sua voz enquanto tocava com o Tom [Tom Jobim (1927-1994)]. Nos últimos anos ele vem refinando as suas interpretações, um tanto influenciado pela Nana [cantora Nana Caymmi (1941-2025)], que foi influenciada pela Dona Stella [Stella Maris Caymmi (1922-2008), cantora e mulher de Dorival Caymmi, (1914-2008) pai de Danilo, Nana e Dori].
Descreva três músicas do espetáculo “Danilo Caymmi Canta a MPB dos Anos 70”.
Vou falar de uma que não estava mais no repertório desse show, mas que voltou: “Um Girassol da Cor do seu Cabelo”. A versão original era baseada no piano do Lô [compositor Lô Borges (1952-2025)] meio influenciado pelo piano do Paul Mccartney. Na nossa versão a gente faz quase sem ritmo, pra que o Danilo possa cantar a letra com calma, e a parte final a gente cortou. Mexi um pouco na harmonia também.
Em “Nada Será como Antes” a gente fez uma versão mais funkeada do que a do Milton [cantor e compositor Milton Nascimento], que é mais marcada. A parte da harmonia original em “resistindo na boca da noite um gosto de sol” é um baixo pedal em ré, e o Milton desce cromaticamente a partir da tríade de sol maior até chegar em mi bemol maior, um efeito maravilhoso, a cara do Milton, mas algumas vezes, quando você muda o tom, o efeito perde um pouco de efetividade. Como baixei o tom de ré menor para fá sustenido menor, tive que mexer nessa parte da harmonia, mas mantive aquele intermezzo com compasso quebrado.
E “Andança”, que mudou bastante. Ela foi composta como uma toada, toada moderna como se falava, assim a Beth [Beth Carvalho, cantora, compositora e instrumentista (1946-2019)] cantou no festival. Anos depois ela se reinventou, virando uma cantora de samba e transformou “Andança” numa espécie de pagode, porque não era samba e ficou aquele samba meio quaternário. Duvido que algum dos compositores (incluindo o Danilo) reclame, porque foi nessa gravação que a música é o sucesso que é. Para o show fizemos uma levada meio folk rápido, suingado, que ficou nem como a toada original e nem como a versão pagode.
Além de Danilo tocando flauta e você violão, quem serão os músicos que estarão no palco com vocês, quem os escolheu, e qual o critério utilizado para essa escolha?
Estaremos com o Itamar Assiere (teclado), Jefferson Lescovitch (baixo) e Paulinho Vicente (bateria). O Paulinho e o Itamar tocavam comigo e com a Bibi Ferreira, e o Itamar e o Jefferson tocam com o Dori, além de terem tocado na mesma banda que eu no show dos três irmãos Caymmi.
O que mais difere as músicas dos anos 1970 para as músicas compostas na atualidade?
Não posso falar sobre qualidade das músicas criativas atuais, porque a gente tem pouco acesso; eu não acho que o Brasil desaprendeu a compor. A maior diferença está na divulgação, nos anos 70 havia a mediação das gravadoras que investiam para que as músicas fossem divulgadas a partir daí entravam no nosso cotidiano, e a gente se reconhecia nesse repertório. Hoje está tudo mais disperso, as músicas se perdem nas plataformas.
O que as pessoas devem ter em mente quando forem assistir ao espetáculo “Danilo Caymmi Canta a MPB dos Anos 70”?
As pessoas que viveram aquela época terão a chance de ver ao vivo um repertório que ainda é ouvido em casa, mas raramente vai para o palco. E as que não viveram, terão contato com uma época em que o brasileiro se via na sua música popular.
SHOW ‘DANILO CAYMMI CANTA A MPB DOS ANOS 70’
ARTISTA Danilo Caymmi e banda
QUANDO Sexta-feira (23) e sábado (24), às 20h, Sesc Ipiranga, r. Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo, tel. (11) 3340-2000
QUANTO De R$ 18 a R$ 60
Autor: Folha







