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Mendigos, cracudos e marxistas

Estes dias eu li, com satisfação, que Curitiba havia iniciado uma política de internação involuntária para mendigos em situação de risco. Ainda acho uma iniciativa muito tímida, mas é um passo na direção certa, e já é melhor do que o que vejo no Rio de Janeiro; quer dizer, melhor até do que o que tenho visto em várias cidades do mundo ocidental.

Em praticamente qualquer cidade grande do Ocidente a via pública tornou-se insuportável. A todo momento precisamos estar alertas, com a guarda alta, desviando do cracudo, do paciente psiquiátrico, da bandidagem, ou das fezes (muitas vezes humanas) pelo chão. Imagine sair de casa a pé com os filhos? A rua tornou-se insalubre e pornográfica. Aliás, o único lugar do mundo em que levei um soco de um psiquiátrico foi em São Francisco, na Califórnia (um doido cruzou comigo na rua e resolveu dar-me um soco no peito).

É preciso ser muito rico e escolarizado para acreditar que o cracudo e o bandido são vítimas da sociedade e, assim, nós é que devemos ser punidos se não os ajudarmos

Por conta de suas políticas de leniência com drogados e mendigos, São Francisco tornou-se uma manifestação real de um filme distópico: inúmeras pessoas deitadas pelas ruas, muitas usando drogas, latões de lixo com labaredas de fogo, discussões e gritaria, enfim, um cenário de falência civilizacional completamente incompatível com um estado rico como a Califórnia. Ou melhor, completamente compatível, porque muitas vezes é a burguesia rica que resolve ser leniente com o crime e a indigência. É preciso ser muito rico e escolarizado para acreditar que o cracudo e o bandido são vítimas da sociedade e que, assim, nós é que devemos ser punidos se não os ajudarmos.

No Brasil é a mesma coisa; a desordem geral da via pública é uma construção cultural, ideológica. A moralidade do problema é altamente simples: a via pública é para circulação, e não para dormir, morar, defecar, usar crack, assustar as pessoas com distúrbios psiquiátricos etc. Qualquer país do Ocidente tinha essa convicção até algumas décadas atrás. Mas daí tivemos a redescrição marxista do crime e da indigência, promovendo a ideia de que o pobre, o indigente, o cracudo – ou qualquer outro que possa ser esteticamente enquadrado como “oprimido” – são na realidade vítimas da opressão capitalista. Só a revolução salva, e enquanto ela não vem, o melhor que podemos fazer é dar conforto aos oprimidos, custe o que custar.

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É por isso que, se você notar bem, o esquerdista defende bandidos e indigentes em geral, mas tem uma dificuldade enorme para defender ambulantes, empreendedores e trabalhadores em geral. Se no seu negócio você esquecer de uma das mil regulações que o Estado te impõe, você será muito provavelmente pressionado, tratado como bandido, e levado a pagar multas e compensações. Mas e o sujeito fumando crack do outro lado da calçada, em frente à sua loja? Com ele nada acontece, obviamente. Se você botar uma mesa do seu restaurante na calçada é capaz de ser multado por uso indevido do espaço público; mas e se um mendigo resolver dormir naquele mesmo espaço? Aí pode, não há problema algum.

Contrastando com o que fez Curitiba, o Rio de Janeiro tem promovido uma guerra aos vendedores ambulantes. É bem verdade que há abusos – ambulantes que cometem estelionato, que interrompem completamente o fluxo de pedestres etc. –, mas a maioria só quer empreender e trabalhar. E daí somos obrigados a testemunhar a fiscalização acossando os ambulantes enquanto, na mesma rua, uma série de indigentes e usuários de drogas ocupam igualmente (e indevidamente) o espaço público. Diariamente temos visto camelôs chorando por suas mercadorias apreendidas, enquanto cracudos e demais indigentes seguem livres destruindo o espaço público, protegidos pela cultura marxista da leniência com os “oprimidos pelo capital”.

A incoerência torna-se compreensível quando entendemos a lógica da cultura marxista da leniência. Segundo a esquerda, o ambulante não conta como oprimido. Por ele assumir o controle de sua vida e buscar prosperar por meios próprios, ele sinaliza que ele não se vê como vítima de suas circunstâncias; e, assim, ele não merece a proteção paternalista do progressismo. Somente será protegido aquele que cumprir o seu papel ideológico; e o papel ideológico do indigente é continuar indigente para poder comprovar a narrativa de que o capitalismo não funciona.

Autor: Gazeta do Povo

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