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Racismo estrutural não é um fato

A contratação do técnico do São Paulo, Roger Machado, provocou uma avalanche de comentários sobre racismo estrutural. Como toda polêmica, isso é passageiro; o arcabouço intelectual que ela revelou, nem tanto. Refiro-me à convocação automática de uma teoria como se fosse uma evidência indiscutível.

Há uma distinção elementar, ensinada em qualquer curso introdutório de epistemologia, que o debate público insiste em ignorar: a diferença entre fato e teoria. Sem entrar muito no detalhe técnico e bizantino debate filosófico, um fato é uma ocorrência verificável, independente de quadro interpretativo. Uma teoria, por sua vez, não. Pois se trata, justamente, de um sistema de hipóteses articuladas para explicar fatos. Quem transforma uma teoria em fato está mais interessado na arte de mandar, já que fecha o debate antes do questionamento, e o faz com a aparência de quem constata o óbvio.

O racismo estrutural é uma teoria. Surgiu no âmbito da sociologia crítica americana, com raízes nos estudos pós-coloniais e no pensamento de autores como Stokely Carmichael e Charles Hamilton; sistematizou-se nas décadas seguintes, e ganhou amplitude com o movimento dos Critical Race Studies. Em síntese, a teoria postula que instituições, normas e práticas sociais podem produzir efeitos racialmente discriminatórios independentemente das intenções conscientes dos agentes envolvidos. Convenhamos, é uma hipótese sofisticada. E, como toda hipótese, traz variantes internas, disputas metodológicas e críticos sérios dentro da própria sociologia – um programa de pesquisa, com todos os ônus que isso implica.

A contratação de Roger Machado pelo São Paulo suscitou uma pergunta legítima: por que há tão poucos técnicos negros na Série A?

Esses ônus são precisos: indicar variáveis, controlar fatores alternativos, submeter a hipótese à possibilidade de refutação. Infelizmente, criticar a teoria do racismo estrutural se tornou sinônimo de racismo. Ora, uma teoria imune a qualquer evidência contrária migrou do domínio da ciência para o da teologia. A teologia tem seu lugar – apenas não é o lugar da análise sociológica, e a confusão entre os dois domínios cobra um preço intelectual que ninguém está disposto a contabilizar.

A contratação de Roger Machado pelo São Paulo suscitou uma pergunta legítima: por que há tão poucos técnicos negros na Série A? A pergunta tem dado empírico relevante como pano de fundo – tornar-se treinador profissional no Brasil exige licenças que custam cerca de R$ 60 mil e períodos inteiros sem renda. É uma barreira real. O debate público, porém, não se deteve na barreira. Avançou direto para a explicação; e a explicação já estava pronta antes de a pergunta terminar. Seguiu-se o que se poderia chamar de raciocínio por chegada: um comentarista hesitou, reconheceu não saber ao certo, ponderou em voz alta – e concluiu com a firmeza de quem encerrou o debate. Outro foi mais direto: “É cristalino”. Como se o “racismo estrutural” fosse uma obviedade.

Que a barreira econômica confirme especificamente o racismo estrutural – e não a estratificação de classe, o corporativismo das federações, ou a combinação dos dois – é algo que exigiria demonstração. A demonstração foi substituída pela palavrinha mágica.

Da minha parte, a tradição interacionista com a qual me sinto mais confortável situa o fenômeno social na trama concreta das relações entre agentes conscientes. Exige, por isso, que se identifique quem fez o quê, em qual contexto, com qual intenção verificável. A estrutura, nessa perspectiva, é um resultado de práticas – sedimentação de decisões tomadas por sujeitos reais em condições reais. A estrutura social não está oculta ou preexiste. Invocar “a estrutura” sem especificar agente, decisão ou relação concreta é produzir uma explicação que explica tudo e, por isso mesmo, nada explica.

Subjacente a essa exigência metodológica há, ainda, uma questão antropológica. O personalismo compreende a pessoa como irredutível a qualquer sistema, estrutura ou função. A dissolução do indivíduo em categorias coletivas abstratas enfraquece, antes de fortalecer, o combate à injustiça: uma acusação sem sujeito é um clima; e climas, por definição, não respondem perante nenhum tribunal.

Quem transforma uma teoria em fato está mais interessado na arte de mandar, já que fecha o debate antes do questionamento

Daí o paradoxo que o uso acrítico do conceito produz. Ao inflar o racismo estrutural até que ele abranja cada episódio, cada decisão, cada contratação, esvazia-se sua capacidade discriminativa – no sentido analítico do termo. Quando tudo é racismo estrutural, quando todos os gatos são pardos, a teoria torna-se, pelo excesso de aplicação, uma névoa. Um apelo retórico. Uma agenda puramente política.

O comentarista esportivo que recorreu ao conceito para explicar a escolha de um técnico praticava retórica. Retórica é até uma arte respeitável. Porém, a imprecisão começa quando o vocabulário técnico serve de escudo contra qualquer possibilidade de réplica. Nesse ponto, a negligência intelectual deixa de ser inocente e o racismo, de fato, um problema secundário.

Autor: Gazeta do Povo

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