No domingo (8), Atlético-MG e Cruzeiro fizeram o que fizeram. A cena grotesca que durou quase 10 minutos e gerou o recorde de expulsões em um jogo no futebol brasileiro: 23 cartões vermelhos, em uma briga que rodou o mundo em veículos como BBC, L’Équipe e Marca e foi qualificada com palavras como “vexame”, “vergonha”, “selvageria”. Algo de que o futebol brasileiro deveria se envergonhar, mas que nos uniu pelo entretenimento barato e “machão”, envolto em uma capa de futebol raiz.
Na segunda-feira (9), fiz um comentário na TNT Sports sobre o ocorrido, condenando a postura dos atletas e a falta de desculpas institucionais dos clubes, que não se manifestaram para lamentar a atitude de seus jogadores. Os comentários me surpreenderam —e olha que eu espero muito pouco da caixa de comentários de qualquer fórum na internet.
Em suma, o público pensa que quem é contra troca de socos e pontapés é homossexual. Inclusive mulheres pensam assim. Uma chegou a escrever: “tire a saia para comentar”. Estou há dias tentando entender como ainda não avançamos nada nesse sentido. A energia masculina e a masculinidade continuam concentradas em demonstrações toscas de força e em submissão física do inimigo. Quanto mais você bate em alguém, mais homem você é. Se você não gosta de briga, você não é homem —ou não é hétero.
Foi a primeira vez que vi as duas torcidas envolvidas contra uma opinião. Normalmente, se você critica o Flamengo em um Fla-Flu, os tricolores tendem a concordar. Se você critica o Grêmio em um Grenal, os colorados ficam do seu lado. A pancadaria uniu o Brasil. Atleticanos, cruzeirenses e torcedores neutros eram a favor da briga.
Em meios de comunicação, o episódio foi exaltado com o argumento do futebol raiz. Um retorno aos anos 80 e 90, quando o mundo não era chato e politicamente correto como hoje. Um suspiro de masculinidade em tempos de pronomes neutros.
O futebol, como sempre, é um reflexo da sociedade. Depois de uma década morando fora, assisti a alguns episódios do “Big Brother Brasil“. O cenário é apocalíptico. Personagens agressivos, provocadores, com frases feitas para viralizar, forçando sempre uma reação violenta do outro lado para tentar cavar uma expulsão ou destempero. O programa parece uma grande discussão de fakes sem rosto no Twitter.
E tem dado certo! Gera o entretenimento que o brasileiro quer depois de um dia de trabalho. Queremos consumir a violência, queremos discutir se a agressão é válida ou não. Queremos ir para as redes sociais brigar e também debater sobre brigas alheias. É o que gera engajamento rápido, fácil e barato.
Se o jogo é ruim, pelo menos teve a briga para gerar melhores momentos, análise tática e técnica dos participantes, slow motion nos melhores golpes. Não importa que fira mortalmente os valores do esporte. Nós queremos um pouco de pancadaria para nos divertir.
O Cruzeiro, até o momento, não pediu sequer desculpas pelo ocorrido. Comemorou o título sem nenhum constrangimento e não se importou com o arranhão causado.
Venho repetindo aqui na Folha a cada semana: o futebol brasileiro não é ruim, o nível técnico é bom. O nosso maior problema é a falta de vontade de melhorar o espetáculo. Seja em estética, em educação, em esportividade, em fair play ou em organização.
Antes de tudo isso, nós gostamos é da porrada. Nos unimos na violência e abrimos uma cerveja para celebrar a selvageria.
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Autor: Folha








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