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Doença renal avança e expõe gargalos do diagnóstico – 12/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

Em um ano, o número de brasileiros com doença renal crônica em tratamento por diálise cresceu 9,2% no país, com a diabetes sendo principal causa que leva pacientes à terapia renal no país, responsável por um terço dos casos.

Os dados fazem parte de levantamento divulgado nesta quinta-feira (12) pela ABCDT (Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplante) por ocasião do Dia Mundial do Rim. O estudo integra o novo Observatório Nacional de Dados da Diálise, plataforma criada para reunir informações sobre perfil dos pacientes, oferta de serviços e acesso ao tratamento no país.

Em dezembro de 2025, um total de 170.868 brasileiros faziam diálise regularmente, contra 156.473 do ano anterior, segundo a entidade. Ao mesmo tempo, a ABCDT estima que o número de pessoas que precisariam do tratamento seja de 230 mil, ou seja, mais de 60 mil pacientes estariam sem acesso à terapia.

Para o médico nefrologista e intensivista André Pimentel, diretor técnico da ABCDT, o cenário reflete tanto o diagnóstico tardio da doença quanto dificuldades de acesso à assistência especializada. “O paciente continua entrando por uma porta que não é a ideal, que são as urgências e emergências”, diz.

A doença renal crônica costuma evoluir de forma silenciosa, especialmente quando associada à hipertensão arterial ou à diabetes. “A diabetes se manifesta de forma mais evidente e acaba sendo diagnosticada com mais frequência. Já a hipertensão é mais silenciosa, o que pode atrasar a identificação da doença”, afirma.

Além da diabetes (33,8%), a hipertensão arterial aparece como a segunda principal causa da doença renal crônica, responsável por 26,5% dos casos. Doenças primárias dos rins, como glomerulonefrites, representam 11,5%, enquanto complicações renais secundárias respondem por 5,9%.

Segundo Pimentel, um grande desafio é o diagnóstico tardio da doença renal. Muitos pacientes descobrem o problema apenas em estágios avançados, quando a diálise já se torna inevitável.

Para ele, ampliar o rastreamento entre grupos de risco, como diabéticos, hipertensos e idosos, na atenção primária é uma das principais estratégias para reduzir o avanço da doença.

“Com diagnóstico precoce e uso das medicações adequadas, é possível retardar a progressão da doença e adiar a necessidade de diálise”, afirma Pimentel. Segundo ele, medidas de proteção renal podem prolongar por anos o tempo até que o paciente precise iniciar o tratamento.

De acordo com o médico Fabiano Guimarães, presidente da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade), a questão é multifatorial e vai desde a dificuldade de acesso à atenção primária até a falta de capacitação de profissionais que estão fazendo o atendimento e o controle dessas doenças.

Do ponto de vista do paciente, explica, ainda há menosprezo em relação ao cuidado da diabetes e, mais ainda, da hipertensão. “As pessoas têm dificuldade de entender que são doenças crônicas, que podem evoluir mal, que envolvem mudanças de hábitos, restrição dietética, atividades físicas”, diz ele.

Segundo Guimarães, muitos diagnósticos de diabetes e hipertensão são tardios, o que aumenta as chances da doença renal crônica. “Alguns pacientes vão evoluir para isso, mas, com o controle correto, dá para retardar e, quando for necessário, fazer da forma correta. Boa parte dos diagnósticos da doença renal é com o sujeito já com toxina no sangue e precisando de hemodiálise na urgência.”

A professora da rede pública Adriana Batista de Lima da Cunha, 52, que mora em Senhora dos Remédios, em Pernambuco, convive com o diabetes há cerca de oito anos. Em julho de 2025, passou mal e, após realizar exames e consulta com nefrologista, soube que seus rins estavam comprometidos e seria necessário tratamento com hemodiálise.

Apesar de realizar exames laboratoriais ao longo dos anos, Adriana não fazia um acompanhamento regular da função renal porque não houve solicitação médica. “Senti muita tristeza. Ninguém quer ficar preso a um tratamento como esse, ainda mais sabendo que a cura só vem com o transplante renal.”

Guimarães diz que há oferta no SUS dos exames que avaliam a função renal, mas que às vezes há entraves. “Ainda se pede muitos exames desnecessários e isso acaba criando gargalos para exames que precisam de fato.”

O levantamento também evidencia forte desigualdade regional na distribuição dos serviços. O país tem 898 centros de diálise em atividade, mas concentrados principalmente nas regiões mais desenvolvidas.

O Sudeste responde por 47,7% dos pacientes em tratamento, enquanto a região Norte concentra apenas 5% dos atendimentos. A diferença se torna ainda mais evidente quando comparada à distribuição populacional: o Sudeste abriga cerca de 41,8% dos brasileiros, enquanto o Norte reúne 8,5%.

Para muitos pacientes que vivem em regiões com menor oferta de serviços, a alternativa é enfrentar longos deslocamentos várias vezes por semana. Segundo a entidade, há casos em que pessoas percorrem até 300 quilômetros para realizar o tratamento.

A diálise geralmente é feita três vezes por semana, em sessões que duram cerca de quatro horas. Percursos longos aumentam o desgaste físico e dificultam a adesão à terapia, especialmente entre idosos e pacientes com outras doenças.

Mesmo em grandes centros, o acesso pode ser difícil. Pimentel relata que, em alguns casos, pacientes permanecem internados no hospital aguardando vaga em uma clínica de diálise próxima de casa.

“Às vezes o paciente recebe alta hospitalar, mas não há vaga no serviço de diálise perto de onde mora. Ele acaba ficando internado apenas aguardando essa disponibilidade”, afirma.

Apesar de o atendimento ser majoritariamente público, a rede de diálise é operada em grande parte por prestadores privados contratados pelo sistema público. O Sistema Único de Saúde (SUS) responde por quase 90% dos atendimentos realizados no país.

O gasto anual do sistema com diálise chegou a R$ 7 bilhões, aumento de 8,5% em relação ao ano anterior. O custo médio nacional é estimado em R$ 3.380 por paciente por mês, segundo o levantamento.

Pimentel diz que o crescimento da doença ocorre em ritmo mais acelerado que o reajuste do financiamento, o que pressiona as clínicas e dificulta a expansão da oferta.

O estudo também identificou desigualdade no acesso a tecnologias mais modernas de tratamento. A hemodiálise convencional segue como a modalidade predominante, presente em 87,5% dos atendimentos.

Já a hemodiafiltração —técnica considerada mais eficiente na depuração do sangue e associada a melhor qualidade de vida— responde por apenas 7,3% das terapias e está concentrada em poucos estados. O Distrito Federal lidera proporcionalmente a oferta dessa modalidade, seguido por São Paulo e Santa Catarina.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Autor: Folha

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