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Inflação, desigualdade e pobreza: como a autonomia dos bancos centrais influencia essa relação?

​Introdução

Em períodos de inflação elevada e desigualdade crescente, os bancos centrais ganham relevância não apenas pelo controle dos preços, mas também pelo impacto que suas decisões podem ter sobre a distribuição de renda. Embora tradicionalmente vistos como instituições voltadas à estabilidade macroeconômica, sua atuação pode influenciar variáveis sociais relevantes.

Para ilustrar esse efeito, considere duas famílias: uma de renda alta e outra de renda baixa. Ambas enfrentam o mesmo aumento de preços, mas o impacto é diferente. A família de baixa renda, que destina grande parte do orçamento a itens essenciais, tende a reduzir gastos básicos. Já a família de alta renda sente menos impacto e pode compensar perdas com ativos que se valorizam na inflação. Essa diferença caracteriza a inflação como um fenômeno regressivo.

A literatura econômica indica que maior autonomia dos bancos centrais aumenta a capacidade de formular políticas monetárias com base em critérios técnicos, reduzindo riscos de viés inflacionário e inconsistência temporal. Isso contribui para um controle mais eficaz da inflação e de sua volatilidade, limitando decisões que poderiam ampliar seus efeitos sobre grupos de menor renda.

Apesar do reconhecimento do papel da autonomia no controle da inflação, seus efeitos sobre desigualdade e pobreza são menos explorados. A maioria dos estudos concentra-se no nível geral de preços, sem avaliar como essa autonomia pode moderar impactos sociais. Este estudo analisa essa relação, mostrando que, ao garantir maior estabilidade de preços, a autonomia atua como um mecanismo indireto de mitigação dos efeitos regressivos da inflação.

Metodologia

Para investigar como a autonomia dos bancos centrais influencia os efeitos da inflação sobre desigualdade e pobreza, este estudo analisa dados de 46 países entre 1980 e 2022, combinando informações sobre inflação, distribuição de renda, indicadores de pobreza e grau de autonomia institucional. A análise empregou modelos dinâmicos de painel com variáveis defasadas, estimados por Mínimos Quadrados Ordinários (OLS) com efeitos fixos e pelo Método de Momentos Generalizado Sistêmico (Sys-GMM).

A inflação é medida pela variação anual do
Consumer Price Index (CPI), que mensura o custo de aquisição de uma cesta de bens e serviços para o consumidor médio. A desigualdade é capturada pelo índice de Gini, que varia de 0 (igualdade perfeita) a 100 (desigualdade máxima). Como indicador de pobreza, utiliza-se o índice de Watts, que considera simultaneamente a incidência da pobreza (quantos são pobres) e sua profundidade (quão abaixo da linha de pobreza estão os pobres), penalizando mais severamente os casos de pobreza extrema. Também são consideradas as participações de renda por decil. Para mensurar a autonomia dos bancos centrais, o estudo adota o índice
CBIE, desenvolvido por Romelli (2022, 2024), que incorpora dimensões como autonomia orçamentária e financeira, além de padrões de transparência – aspectos ausentes nos índices tradicionais.

Complementando essas variáveis principais, o modelo inclui controles reconhecidos na literatura como determinantes da desigualdade e da pobreza. Para avaliar se a autonomia dos bancos centrais mitiga os impactos sociais da inflação, é incorporado um termo de interação entre inflação e autonomia. Além disso, o uso de um modelo dinâmico com variável dependente defasada permite capturar a evolução temporal das relações, gerando estimativas mais robustas dos efeitos das políticas econômicas. A especificação básica simplificada do modelo é apresentada a seguir:

(1)
Y(i,t) =
β1
CBIE(i,t-1) ×
INF(i,t-1) +
β2
CBIE(i,t-1) +
β3
INF(i,t-1) +
β4 Y(i,t-1) +
β5 X(i,t-1) + ε(i,t) onde,
εi,t =
θi +
ωi,t,
θi denota os efeitos fixos específicos de cada país, não observados e invariantes no tempo, e
ωi,t é um termo aleatório i.i.d. com E(ωi,t) = 0 e Var(ωi,t) = σ2.

A variável dependente
Y(i,t) denota o índice de Gini ou o índice de Watts para o país i no ano t.
INF e
CBIE são proxies para inflação e autonomia dos bancos centrais, respectivamente.
X é o vetor de controle e inclui variáveis reconhecidas na literatura como determinantes da desigualdade e da pobreza, como PIB (ou PIB
per capita), abertura comercial, desemprego, consumo do governo, desenvolvimento financeiro e globalização financeira.

Resultados

A Tabela 1 apresenta, de forma resumida, as evidências empíricas. Os resultados confirmam a relação positiva entre inflação e desigualdade e pobreza. A inflação tem efeito positivo e estatisticamente significativo sobre os índices de Gini e de Watts. Por outro lado, a autonomia dos bancos centrais, por si só, não tem efeito direto significativo sobre esses indicadores sociais. O ponto central está na interação entre inflação e autonomia: quanto maior a autonomia da autoridade monetária menor o impacto da inflação sobre os mais pobres. Essa interação é negativa e estatisticamente significativa, indicando que a autonomia reduz os efeitos regressivos da inflação sobre a desigualdade e a pobreza. Os testes estatísticos confirmam que esse efeito moderador é robusto e relevante.
1



Considere um país que enfrenta um choque inflacionário de 10%. A Figura 1 mostra que, se o banco central tiver baixa autonomia, esse choque pode elevar o índice de Gini em até 0,2% e o índice de Watts em até 5,3%. No entanto, esses efeitos adversos são totalmente mitigados à medida que a autonomia aumenta. Com 95% de confiança, observa-se que os impactos da inflação sobre desigualdade e pobreza podem ser neutralizados quando o grau de autonomia varia entre 0,2 e 0,7. Considerando o nível médio de autonomia dos países da amostra (0,68), um choque de 10% na inflação resulta, em média, em uma redução de 0,1% no índice de Gini e de 4,0% no índice de Watts. O efeito benéfico da autonomia se intensifica em níveis mais elevados: acima de 0,8, a autonomia do banco central mais do que compensa os efeitos regressivos da inflação, gerando reduções líquidas na desigualdade e na pobreza. Maior autonomia favorece ambientes de inflação baixa e estável, o que melhora previsibilidade, fortalece negociações salariais e amplia o emprego formal. Ao mesmo tempo, reduz ganhos inflacionários concentrados no topo da distribuição e protege os mais pobres de ajustes defensivos, como alta de preços e juros, gerando ganhos relativos para os vulneráveis.


Para aprofundar a análise, este estudo também examina os efeitos da inflação e da autonomia sobre a distribuição de renda. A variável dependente
Y(i,t) da equação 1 representa a participação percentual da renda total por decil para o país
i no ano
t, variando dos 10% mais pobres aos 10% mais ricos da população. A Tabela 2 apresenta os resultados dessa extensão, que permite avaliar se os efeitos observados se mantêm ao longo da estrutura distributiva.



A análise por decis de renda reforça os resultados anteriores. A inflação reduz a participação relativa dos 80% mais pobres na renda total e aumenta a dos 20% mais ricos. Mas quando o banco central é autônomo, esse efeito se inverte: a renda dos mais pobres cresce, e a dos mais ricos diminui. Esse resultado é importante porque mostra que a política monetária – mesmo sem ter um objetivo explícito de redistribuição – pode ter efeitos distributivos relevantes. Esses efeitos são mais fortes quando os bancos centrais têm autonomia para agir com base em critérios técnicos. A Figura 2 reforça a evidência de que a autonomia dos bancos centrais atua como um mecanismo de proteção social, promovendo uma redistribuição indireta por meio de políticas de controle inflacionário mais eficazes.



Conclusão

A inflação tem impactos sociais significativos, afetando desproporcionalmente as famílias de baixa renda. O estudo encontrou evidências de que a autonomia dos bancos centrais, ao permitir respostas mais eficazes à inflação, reduz seus efeitos regressivos sobre desigualdade e pobreza.

Ao mesmo tempo, o estudo também indica que a política monetária não substitui a política fiscal. Embora a autonomia dos bancos centrais tenha impactos indiretos sobre a distribuição de renda, fatores estruturais como crescimento econômico, gastos públicos direcionados e inclusão financeira permanecem determinantes para reduzir desigualdade e pobreza.

Para maiores detalhes, o leitor interessado pode consultar o artigo completo publicado no
Journal of International Money and Finance. Versão preliminar do artigo está disponível como
Trabalho para discussão do Banco Central do Brasil, número 615.

1 Diversos testes de robustez foram realizados para garantir a confiabilidade dos resultados (ver Tiberto, 2025).

Referências

Romelli, D. (2022). “The political economy of reforms in central bank design: evidence from a new dataset.”
Economic Policy, 37(112), 641-688.

Romelli, D. (2024). “Trends in central bank independence: a de-jure perspective.”
BAFFI CAREFIN, Centre Research Paper n. 217.

Tiberto, B.P. (2025). “How does central bank independence influence the relationship between inflation, income inequality and poverty?”
Journal of International Money and Finance, 159.


Bruno Pires Tiberto é servidor do Banco Central do Brasil e atua no Departamento de Estatísticas (DSTAT). As opiniões expressas no texto são exclusivamente do autor e não refletem, necessariamente, a visão do Banco Central.



Autor

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