A diplomacia do panda está a todo vapor. Após meses de aumento na tensão diplomática entre Pequim e Tóquio devido a falas da primeira-ministra Sanae Takaichi, os pandas gigantes irão deixar o Japão para viver na China, que detém propriedade sobre eles.
Os animais serão enviados à China na próxima semana após um acordo entre os países, fazendo com que o Japão fique sem os animais pela primeira vez em 54 anos. Os primeiros espécimes foram cedidos temporariamente em 1972 como gesto de normalização das relações entre os países.
“Os pandas gigantes ‘Xiao Xiao’ e ‘Lei Lei’, atualmente em exibição no Jardim Zoológico de Ueno (Diretor: Yutaka Fukuda), retornarão em breve à China, em conformidade com um acordo entre o Governo Metropolitano de Tóquio e a Associação Chinesa de Conservação da Vida Selvagem”, diz um comunicado da Prefeitura de Tóquio.
O Ministério de Relações Exteriores da China, por meio do porta-voz Guo Jiakun, afirmou que o país sabe que os pandas gigantes são amados por muitos no Japão, e que Pequim dá boas-vindas aos “amigos japoneses” para que visitem os animais em sua nova casa.
Nascidos no zoológico de Ueno em 2021, os irmãos são filhos dos pandas-gigantes Ri Ri e Shin Shin, que retornaram à China em setembro de 2024, segundo a imprensa estatal chinesa. Sua irmã mais velha, Xiang Xiang, foi enviada de volta em 2023.
O retorno era esperado para fevereiro, mas foi antecipado por decisão da prefeitura. Agora, a visitação gratuita dos pandas foi suspensa, e aqueles que desejarem ver os animais ainda em Tóquio precisam fazer um agendamento com antecedência para participarem de um sorteio e, talvez, conseguirem um ingresso. As visitas por cada área de exibição, segundo a prefeitura, devem durar cerca de um minuto.
O empréstimo de pandas pelo governo chinês é comum, e a cessão temporária dos animais é conhecida como “diplomacia do panda”, vista como uma forma de soft power usada por Pequim para evidenciar a disposição em ter relações com os países escolhidos.
O uso de pandas como gesto diplomático começou ainda durante a liderança de Mao Tsé-Tung, quando os animais eram presenteados a amizades estratégicas, segundo artigo publicado pela revista Cambridge University Press. Durante a ascensão de Deng Xiaoping, os animais passaram a ser emprestados. Depois, segundo os autores, os empréstimos passaram a ser associados a nações que fornecem a Pequim recursos e tecnologia valiosos, e simbolizam o interesse chinês em construir relações comerciais caracterizadas por “confiança, reciprocidade, lealdade e longevidade”.
Outro artigo científico, publicado na revista do departamento de Economia, Gestão e Pesquisa Estatística da Universidade de Milão Bicocca, afirma que países que hospedam pandas-gigantes registram um aumento significativo nas exportações para a China, entre 5,9% e 7,2%, no ano em que nasce um filhote.
Mesmo diante do nascimento de bebê panda, os rebentos seguem como propriedade do governo chinês e costumam ser devolvidos quando atingem a maturidade. Segundo o artigo italiano, os animais são naturais da China e vêm de seis áreas não conectadas de florestas alpinas de bambu, o que confere a Pequim um monopólio sobre eles.
Sob contratos de empréstimos, os espécimes podem ficar no exterior por anos caso não existam problemas de saúde. Em novembro do ano passado, por exemplo, o casal de pandas Huan Huan e Yuan Zi deixou a França e voltou para a China devido a problemas de saúde causados pela velhice.
O caso antecedeu uma visita de Estado do presidente da França, Emmanuel Macron, à China, quando ao lado do líder chinês, Xi Jinping, foi até Chengdu, conhecida como a capital dos pandas, visitar a Base de Pesquisa e Criação do Panda-Gigante, um centro de referência nos cuidados com a espécie.
O gesto de Xi foi visto como um sinal de boas relações diplomáticas, uma vez que acompanhou o francês em uma agenda fora de Pequim, um movimento pouco frequente, e envolveu pandas, que também são apontados como embaixadores informais da China pelo mundo.
Após a visita, a Associação Chinesa de Conservação da Vida Selvagem e o ZooParc de Beauval, na França, assinaram um documento para dar continuidade “à cooperação internacional na proteção do panda-gigante”.
“Está previsto que um novo par de pandas-gigantes se estabeleça no ZooParc de Beauval em 2027, com um período de cooperação de 10 anos”, diz o comunicado.
No caso do Japão, a mídia local afirma que autoridades japonesas pediram pelo envio de mais animais. Não é esperado, porém, que a solicitação seja atendida, uma vez que a devolução ocorre após conflitos diplomáticos envolvendo a primeira-ministra.
O estopim da crise foram as falas feitas por Takaichi em resposta a uma pergunta de um parlamentar sobre em que situações a governante acionaria as Forças de Autodefesa do Japão. Na ocasião, Takaichi afirmou que uma tentativa do regime chinês de submeter Taiwan ao seu domínio por meio da força militar seria um exemplo. Isso porque um ataque a navios de guerra americanos usados para romper um bloqueio chinês poderia exigir que Tóquio se envolvesse para defender os Estados Unidos, seu aliado e defensor da soberania da ilha.
Para a China, o envolvimento de países na questão de Taiwan viola sua soberania. Pequim afirma que a ilha, que possui um presidente democraticamente eleito, é parte de seu território e não descarta utilizar força militar para uma reunificação.
Autor: Folha






