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Regulação reduz presença de bets no Campeonato Brasileiro – 14/03/2026 – Esporte

Na edição de 2025 do Campeonato Brasileiro, 18 das 20 equipes na disputa contavam com patrocínios master de empresas de apostas esportivas, as populares bets, estampando suas marcas em espaço nobre dos uniformes.

Red Bull Bragantino e Mirassol eram a exceção, embora também com acordos de patrocínio menores com empresas do setor.

No Brasileiro de 2026 o cenário é bem diferente, na esteira de um aumento da regulação que pressionou os custos e reduziu a margem para investimentos em patrocínios esportivos.

Dos 20 times, Santos, Vasco, Bahia, Internacional, Grêmio e Coritiba deixaram de contar com o patrocínio de bets ao longo dos últimos meses.

A dupla gaúcha rescindiu seu contrato com a Alfa Bet após uma série de atrasos nos repasses devidos pela parceira, enquanto Santos e Bahia optaram por rescindir em comum acordo e de maneira amigável com 7k e Viva Sorte Bet, respectivamente. Já Vasco e Coritba não tiveram seus contratos renovados com Betfair e Reals Bet.

Do grupo, o Santos é o único que já fechou novo patrocínio master, com outra casa de apostas, mas com repasses anuais cerca de 30% menores em comparação com o contrato anterior.

Sócio do escritório Ambiel Bonilha Advogados e especialista em regulação de jogos e apostas, Gustavo Biglia explicou que, a partir de 1º de janeiro de 2025, passou a vigorar de forma efetiva o modelo regulatório completo estabelecido pela Lei nº 14.790/2023, com a exploração de apostas de quota fixa condicionada à constituição das operadoras no país e à obtenção de autorização específica.

No campo tributário, a legislação definiu inicialmente a cobrança de 12% sobre a receita bruta das empresas, o chamado GGR (Gross Gaming Revenue), além da incidência de PIS, Cofins e ISS. Também foi fixada taxa de outorga de R$ 30 milhões para autorização por cinco anos.

Para os apostadores, a tributação incide sobre os prêmios líquidos que superem a faixa de isenção de R$ 2.259,20, com alíquota de 15% sobre o valor que exceder o limite anual estabelecido para a tabela do IRPF.

“Na prática, não havia exigência de autorização nacional nem um regime tributário abrangente sobre a atividade econômica realizada no país, o que permitiu investimentos agressivos em marketing e patrocínio esportivo, dado o custo regulatório significativamente inferior ao atual”, afirmou Biglia.

Fundador e conselheiro da Ana Gaming, holding que gere as marcas 7K Bet, Cassino Bet e Vera Bet, Gustavo Afonso Ribeiro e Lacerda disse que o setor ainda está “lidando com alguns movimentos como o aumento da tributação, que não estava previsto e fez com que estratégias fossem repensadas.”

“Ainda assim, os investimentos dentro do esporte sempre serão um ativo constante e valioso, que inclui também acordos junto a embaixadores e competições, além da presença em programas esportivos na TV e no digital”, afirmou Lacerda.

Professor de marketing do Insper e diretor-geral da agência EMW Global para América Latina, Eduardo Corch acrescentou que, após um ciclo agressivo para tornar as marcas mais conhecidas, as casas de apostas entraram em uma fase de busca por eficiência. O foco agora não é apenas aparecer nas camisas, mas priorizar ações onde o retorno seja mais mensurável.

“Há ainda o fator de mercado e concorrência. O custo de aquisição de clientes no Brasil subiu muito, e a briga por espaço pressiona as margens de lucro. Isso obriga as empresas a reverem seus orçamentos, muitas vezes realocando a verba para outros formatos de comunicação”, disse Corch.

Diretor jurídico da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) e sócio do escritório Betlaw, Pietro Cardia Lorenzoni prevê que os investimentos do setor devem ficar concentrados a partir de agora em um número menor de empresas.

“Na prática, o que aconteceu é que teve um investimento inicial grande de várias empresas, mas é um mercado que está se provando e passa por um processo de amadurecimento, e é natural essa diminuição”, disse Lorenzoni.

O Corinthians anunciou no fim de fevereiro a renovação do acordo com a bet Esportes da Sorte até o fim de 2029, com os repasses anuais subindo de cerca de R$ 100 milhões para R$ 150 milhões, podendo chegar a R$ 200 milhões a depender de resultados esportivos alcançados dentro de campo.

“É uma parceria estratégica para a Esportes da Sorte, que fortalece nossa conexão com a torcida e amplia as possibilidades de construção de marca por meio de experiências, inovação e entregas mais completas”, afirmou Darwin Filho, CEO do Grupo Esportes Gaming Brasil, detentor da marca Esportes da Sorte.

“Existia uma bolha, e ainda existe uma bolha para alguns clubes, em relação ao quanto as bets pagam”, disse José Sarkis Arakelian, consultor e professor da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado).

Consultor da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e sócio do Betlaw especializado em bets, Leonardo Henrique Roscoe Bessa classificou os investimentos do mercado de apostas em publicidade como uma “miragem de poder.”

“A curto prazo, o dinheiro compra exposição. A longo prazo, apenas a integridade garante a permanência. Em um setor sob intenso escrutínio, a conformidade com a lei não é o freio, mas o motor da diferenciação”, afirmou Bessa.

Segundo Lacerda, da Ana Gaming, o combate às plataformas irregulares é um passo importante para a construção de um ambiente de apostas mais sólido e confiável no Brasil.

“A retirada do ar de sites ilegais contribui diretamente para a proteção do consumidor e para o combate às práticas ilícitas, além de ser um reconhecimento para o árduo trabalho que é feito pelas empresas que operam dentro das regras”, afirmou Lacerda.

Em 2025, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) derrubou cerca de 25 mil sites ilegais de bets que não tinham as autorizações devidas para operar no país.

Para Arakelian, da Faap, com a diminuição das bets no mercado, e das potenciais candidatas a patrocinadoras, é de se esperar que haja também uma redução das ofertas.

“A busca por esses espaços tende a diminuir e, naturalmente, os valores ofertados”, disse ele. “Isso é algo esperado, na medida em que vamos tendo uma consolidação e esse mercado vai ficando mais maduro.”

Autor: Folha

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