No tempo em que jovens americanos viajavam com LSD, faziam amor livre e contestavam a Guerra do Vietnã, denunciava-se um complexo industrial-militar a dominar a política nos EUA. Chegou a hora de mirar num complexo clínico-militar investido em domesticar o impulso libertário das terapias psicodélicas usando patentes como chicote e a saúde mental de ex-combatentes como cenoura.
É sintomático que a regulamentação dos alteradores da consciência volte a caminhar sob a influência de Robert Kennedy Jr. no governo Donald Trump, o autocrata com um Nobel de segunda mão ora empenhado em expandir o que entende por espaço vital da América.
Espera-se que a FDA sob nova direção libere ainda neste ano o uso clínico da psilocibina sintética contra depressão patenteada pela empresa Compass Pathways como COMP360. A agência autorizou a companhia também para fazer testes do composto contra transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
TEPT é flagelo típico de veteranos de guerras que Trump ameaça mover até contra aliados. O composto MDMA (ecstasy, molly, bala) chegou perto de autorização para tornar-se adjuvante de psicoterapia destinada a reduzir o sofrimento que leva muitos deles a suicidar-se, no ritmo de 18 POR DIA, mas em agosto de 2024 a FDA recusou o pedido de registro da empresa Lykos Therapeutics.
Foi uma espécie de 7 a 1. Com o revés, a Lykos demitiu três quartos do pessoal, foi socorrida por um bilionário amigo de Elon Musk, Antonio Gracias, e mudou de nome para Resilient Pharmaceuticals.
Que não se perca pelo nome: Lykos em grego significa lobo, e a mudança sugere uma forma de domesticação. Não foi a única empresa do ramo a apelar à repaginação para se vestir de cordeiro farmacológico.
A Cybin, proprietária intelectual de uma versão modificada de psilocibina (CYB003) para depressão e ansiedade, rebatizou-se como Helus Pharma. Pronuncia-se “heal us”, “cure-nos” em inglês. Apagam-se os rastros que remetem à fonte natural da substância, cogumelos “mágicos” Psilocybe.
A MindMed agora se chama Definium Therapeutics. A companhia tem no arsenal uma forma de LSD (MM120) para transtorno de ansiedade generalizada e deve publicar neste ano os dados de três ensaios clínicos com a substância, ainda muito estigmatizada pela propaganda da Guerra às Drogas movida por conservadores contra a contracultura dos anos 1970.
Outra que alterou a razão social foi a Beckley PsyTech, agora atendendo por AtaiBeckley. Neste caso, a mudança decorre da aquisição da empresa fundada por Amanda Feilding, da militante Fundação Beckley, pelo investidor agressivo Christian Angermayer, controlador da Atai Seu carro-chefe é uma fórmula sintética intranasal (BPL003) para depressão derivada de 5-MeO-DMT, o veneno do sapo-do-rio-colorado (Incilius alvarius), que recebeu da FDA status de terapia inovadora capaz de acelerar a regulamentação.
Toda essa agitação corporativa se distancia da via alternativa que iniciou o renascimento psicodélico no século 21, bancado com fundos filantrópicos pela aliança entre ex-hippies como Rick Doblin e pesquisadores estabelecidos como Rick Strassman e Roland Griffiths. Doblin criou em 1986 a Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (Maps) que esteve na origem da Lykos.
Dá-se como certo que os lobos em pele de cordeiro usarão patentes para impedir o avanço de projetos psicodélicos sem fins lucrativos como o do Instituto Usona. Não se sabe bem, além do mais, qual será o impacto dessa cartelização biomédica sobre experimentos de acesso a uso adulto de psilocibina em Oregon, Colorado e Novo México.
Pode vingar a estratégia vitoriosa do medicamento Spravato, aplicador nasal de cetamina para depressão. Na realidade, trata-se da variante escetamina em formulação patenteável que rende à Janssen mais de US$ 1 bilhão em vendas anuais –apesar de pesquisas não comprovarem superioridade com diante da cetamina comum, em domínio público, portanto não passível de propriedade intelectual.
O campo psicodélico está sendo ocupado de assalto por capitalistas da Big Tech, farmacologistas de startups, veteranos de guerra e militantes do partido MAHA de Kennedy Jr. Seu silêncio sobre a beligerância supremacista e expansionista de Washington é ensurdecedor.
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Autor: Folha







