O Hinge, aplicativo de namoro americano, chega ao Brasil já querendo ser deletado. Com esse slogan, o objetivo da plataforma é fazer com que os usuários marquem mais encontros presenciais e engatem um relacionamento de longo prazo, em vez de algo fugaz, explica a CEO Jackie Jantos, 47.
“Sabemos que muitas pessoas pensam que não existe um par para elas lá fora, mas querem estar em relacionamentos intencionais. Também sabemos que é muito difícil para elas sair e tentar”, ela diz. “Tentamos encorajá-las e dar aquele empurrãozinho para continuarem na jornada.” Segundo a empresa, um encontro é marcado a cada dois segundos no app no mundo todo.
O Brasil é o primeiro país da América do Sul a receber o aplicativo, disponível no país em português desde novembro. “Temos explorado o que é namorar aqui e encontramos uma oportunidade, dada a expressividade das pessoas e a tendência romântica”, afirma a CEO. “E percebemos que há um grande número de indivíduos da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) que estão abertos a namoro.”
A geração Z é o público-alvo do Hinge e representa mais da metade (56%) dos cerca de 15 milhões de usuários ativos no mundo. Jackie também destaca a presença forte da comunidade LGBTQIA+ —que são 15% dos usuários globais— no Brasil e nossa “paixão por conversa e conexão”. “Os brasileiros são românticos incuráveis, ainda querem encontrar o amor”, completa a CMO Tamika Young, 44.
O respeito é algo inegociável no namoro para os brasileiros, a plataforma descobriu em pesquisa que ouviu 2.000 pessoas da geração Z e millenials (nascidos entre 1981 e 1996) entre dezembro e janeiro.
Comportamento desrespeitoso ou grosseiro é o principal motivo para a perda de interesse após o primeiro encontro, citado por 51% dos entrevistados —chega a 61% entre mulheres heterossexuais—, seguido pela falta de interesse da outra pessoa (44%). A geração Z é mais propensa do que os millennials a perder o interesse devido à percepção de falta de entusiasmo da outra pessoa (49%, contra 38%).
Namorar sempre foi difícil, mas é ainda mais difícil para a geração Z, diz Jackie, “porque eles vivem num mundo em que passam menos tempo pessoalmente uns com os outros”. “A pandemia agravou isso, além do sentimento de solidão, e abalou a confiança para sair e conhecer novas pessoas.”
Em nível global, uma pesquisa de 2025 com 30 mil usuários do Hinge mostrou que 84% dessa geração quer construir conexões mais profundas, mas são 36% mais hesitantes do que os millenials para iniciar conversas profundas no primeiro encontro.
O aplicativo traz recursos para ajudar a criar essas conexões e sair do virtual —e se diferenciar dos concorrentes. Começa pela criação do perfil, um processo longo, com várias informações sobre si a serem preenchida, que incluem preferências e metas de relacionamento.
O novo usuário precisa colocar no mínimo quatro fotos ou vídeos e três “prompts”, ou quebra-gelos. São respostas a questões como “Uma meta de vida”, “Melhor história de viagem”, “Juntos, nós poderíamos…”. É possível ainda incluir mensagem de voz.
A ideia é que a pessoa se esforce mais em compartilhar quem é, justifica Jackie, o que facilita interações. “O objetivo é que o perfil seja mais rico. Assim, surgem diferentes formas de começar uma conversa. Você não apenas olha um perfil inteiro e o aceita ou rejeita completamente.”
Para dar match, o Hinge deixa de lado a lógica do deslizar para a esquerda ou direita. A pessoa pode curtir e comentar qualquer um desses elementos: foto, vídeo, áudio ou quebra-gelo. Quando o pretendente do outro lado também curte algo do perfil, o match é feito e qualquer um pode abrir o chat.
Um dos principais diferenciais é o limite de conversas. Se oito ou mais pessoas aguardam uma resposta sua, é necessário respondê-las ou desfazer o match para poder dar mais curtidas. É uma forma de evitar o ghosting, afirma Jackie, e levar a mais dates.
O “Match Note” permite compartilhar mais detalhes sobre algo que a pessoa prefere não deixar público, como explicar sua intenção de namoro. A nota aparece antes de iniciar a conversa e permite desfazer o match. Há ainda a opção de ativar notificações de pretendentes específicos. A versão paga traz ferramentas como filtro por altura e intenções de relacionamento.
Uma pesquisa privada faz um acompanhamento dos matches e pergunta se eles já saíram juntos e se gostariam de se encontrar novamente.
O Hinge desembarca no Brasil num momento em que há um cansaço geral com apps de namoro. Jackie ressalva que “ainda existe um desejo profundo de estar em relacionamentos intencionais, mas os jovens não têm todas as ferramentas e motivação para tentar”. “Esperamos que com esse novo chegando, as pessoas ainda queiram experimentar”, completa Tamika, a CMO.
A plataforma foi fundada por Justin McLeod em 2012, nos Estados Unidos, e adquirida em 2018 pelo Match Group, dono do Tinder. No início, as conexões eram feitas entre amigos de amigos via Facebook. Em 2016, ele foi redesenhado e a métrica definida por encontros. Recentemente, ganhou destaque após o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, contar que conheceu sua mulher na plataforma.
Para acompanhar as transformações no mundo dos relacionamentos, a empresa investe em pesquisas e mantém uma equipe interna com pesquisadores e cientistas comportamentais.
Jackie veio ao Brasil em janeiro e se reuniu com consumidores do app para receber feedbacks. A principal reclamação que ouviu é que há gringos demais. “Sabemos disso. Precisamos de mais pessoas locais, mas isso vem com o tempo”, ela diz.
A CEO reforça que ainda estão fazendo adaptações para o mercado nacional. Para isso, mantém um funcionário no país, responsável também pela segurança da plataforma —que tem moderação humana e por inteligência artificial.
Uma das ferramentas nesse sentido é a “Tem certeza?”, que identifica linguagem ofensiva no início da conversa e pergunta se a pessoa realmente quer enviar a mensagem como está ou deseja editá-la. Outras medidas de segurança incluem verificação do perfil por selfie, reportar usuários e não poder enviar fotos ou vídeos nos papos —áudios, queridinho entre os brasileiros, estão liberados.
Autor: Folha








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